sábado, 7 de novembro de 2009

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA DOS ESTUDOS SOBRE AS MASCULINIDADES


1.BIBLIOGRAFIA RESUMIDA SOBRE MASCULINIDADES COMENTADA; como quem conta ’Era uma vez...’: as Masculinidades através de muita coisa que já se escreveu sobre ela

2.PARA QUEM CHEGOU AO BLOG AGORA: PORQUE ESCREVI ISSO


(Na ilustração aparentemente um 'quadrado', porém mutante...)


1.BIBLIOGRAFIA RESUMIDA SOBRE MASCULINIDADES COMENTADA; como quem conta ’Era uma vez...’: as Masculinidades através de muita coisa que já se escreveu sobre ela


a) J. M. Barrie em 1904 (peça) e 1911 (livro): “Peter Pan

Ele se antecipa a debates da psicanálise que temos ainda hoje; nem todas as personagens são crianças; apenas os masculinos.

Sua infantilidade é definida em oposição específica às que contém características nitidamente adultas: generoso auto-sacrifício, cuidado do Outro, curiosidade sexual, ciúmes sexuais, ternura maternal (Sininho, Tiger, Lily, Sra. Darling, as Sereias, a criada Liza - que revela ser a mãe de um dos meninos-perdidos -, a Pássara-do-Nunca, e a própria Wendy - que têm consciência de que é ainda uma menina, não podendo se ‘tornar mãe’ dos meninos-perdidos).

Segundo a crítica literária Nicola Shulman, (que não é psicóloga ou psicanalista!) os casos de meninos/homens presos nessa condição vêm se evidenciando (aumentando?) em número e influência, tanto na vida real quanto na literatura, desde D. H. Lawrence até Nick Hornby, e não dão sinal de estar diminuindo...


b) Emma Jung em 1931: “ANIMUS E ANIMA

Enquanto Martha Freud encerou muito chão, cozinhou, lavou, costurou e passou para o marido, enquanto este desvendava o inconsciente e mudava o Ser Humano e o Mundo, Emma se tornou tão Psicanalista quanto Carl Gustav.

O tema dos arquétipos, inclusive dos arquétipos anima (núcleo endopsíquico que num resumo grosseiro permitiria aos seres nascidos com sexo masculino reencontrar o sentido da natureza e da sensibilidade) e animus (núcleo endopsíquico que permitiria aos seres nascidos com sexo feminino reencontrar o sentido da cultura/razão e da objetividade) foram traçados por ele, mas ela desenvolveu sobre eles este belíssimo texto.

Não esquecendo que o homem moderno (‘curta’ ele Freud, Jung, outros ou nenhum deles) não tem mais como viver sem levar em conta o inconsciente (sabe que nem tudo é sabido), Emma tece comentários interessantes sobre o escritor William Sharp, a partir da biografia que a esposa dele deixou escrita.

Este, ao escrever um de seus livros “Pharaïs”, percebeu o quanto o elemento feminino era predominante nele; optou por assiná-lo com o pseudônimo de ‘Fiona Mc Leod’, como continuou fazendo em vários outros livros seus, o que nem a maioria de seus amigos íntimos soube por um bom tempo.

Não satisfeito, escrevia para os leitores como se fosse ‘Fiona’.

Criou também um ritual pessoal: a cada aniversário seu, “trocava correspondência” com ‘Fiona’. Ele expressava gratidão à ‘ela’, que por sua vez ‘respondia lhe fazendo advertências’. Ele dizia que “só como mulher podia usar da sinceridade que seria impossível como William...


c) Margaret Mead em 1949: “Macho e Fêmea

No mesmo ano em que Simone de Beauvoir lançava seu Segundo Sexo, cuja afirmação mais famosa é ‘a mulher não nasce mulher; torna-se mulher’, Margaret escreve – sincronicamente – que ‘o homem não nasceu pai, mas para se qualificar como civilizado, o homem se torna pai’.

A sincronia ganha uma dimensão ainda maior a partir do momento em que lembrarmos que elas não mantiveram a menor comunicação enquanto elaboravam suas obras (estavam longe de dispor do twitter, inclusive...).

Segundo Margaret, A Paternidade é uma invenção cultural de grupos que buscavam evolução.

Evolução esta que veio como resposta a duas perguntas semi-conscientes inevitáveis ao processo civilizatório:

‘Em que consiste a singularidade do homem e o que se deve fazer para mantê-la?’ e ‘Que devo fazer para ser humano?’

O incesto precisava ser contornado, e se o homem deveria continuar a ser um pai que sustentasse a família, ele deveria nutrir, e não competir com os filhos, o que de fato ‘ o civiliza’, trazendo benefícios visíveis para a comunidade (aí sim) humana.

Ela acrescenta uma piada comum à tradição oral de muitas culturas sob formas semelhantes: ‘Se você se casasse com sua irmã, não teria um cunhado para ir caçar, passear e pescar com você’...

Ao lançar uma nova edição em 1967, Margaret escreveu um prefácio avançadíssimo, onde previa o homem que tenderia a ser atraído para as funções domésticas (autonomia como sinal de novos passos civilizatórios), a mulher que tenderia para o mundo do trabalho (idem), e que ambos seriam atraídos para um individualismo do qual a real singularidade poderia emergir, aparecer (idem-idem): ‘Somos primeiros pessoas, e depois seres sexuais’ (aqui, Margaret Mead já em 1967).


d) Joseph Campbell em 1949: “O Herói de Mil Faces

Ainda em 1949, esse livro reúne as semelhanças da múltipla face do mito (ou arquétipo) do herói em diferentes heranças culturais.

Segundo Campbell, o núcleo que há em comum na estrutura do conceito do herói (buscado nos relatos sobre vários heróis ficcionais ou não) é ‘o triunfo do herói é sobre si mesmo’.

Sem exatamente negar ou excluir o papel da heroína, prioriza os exemplos do herói, como prevê o título, o que - para quem estuda masculinidades como eu - é excelente.

Mas não deixa de ser curioso, pois – além das heroínas bíblicas e mitológicas - a estória escrita mais antiga do mundo já encontrada fala de uma heroína (Innana, da Suméria), e não de um herói; quanto a Campbell não esqueçamos que as tabuinhas de Innana só foram descobertas nos anos 60.

Mesmo assim, já se conhecia estórias de peso exemplar, como as de Isis, Lilith, Maria...


e) Anos 50: ‘As pesquisas sobre Sexo que apontaram o Gênero’


Não é possível falar dessas pesquisas sem fazer menção prévia aos que prepararam o terreno para elas.

No século 19, novos conceitos sobre superpopulação, psicopatologia sexual e degeneração deflagraram o conceito de ‘sexualidade’. Foram intensificados os esforços, em muitas frentes, para que se tivesse maior consistência e profundidade nos assuntos envolvidos, que – uma vez semeados – mostraram ser muito mais complexos. Pipocaram pesquisas biológicas, médicas, históricas e antropológicas, das quais podemos selecionar nomes para quem queira pesquisar melhor: Von Baer, Darwin, Mendel, Kaan, Morel, Magnan, Charcot, Westphal, Burton, Morgan, Mantegazza, Westermarck, Krafft-Ebing, Schrenck-Notzing.

Comentemos dois deles por sua importância.


Heinrich Kaan: (Russo, Médico do Tzar) Publicou em 1844 "Psicopatologias Sexuais". No seu trabalho, reinterpretava os pecados sexuais cristãos como doenças mentais, pois até então desvios, aberrações e perversões eram interpretados teologicamente, como expressões de heresias religiosas.

Foi necessário seu trabalho para que tudo isso fosse conduzido ao universo médico.


Richard Von Krafft-Ebing: (Psiquiatra alemão) Introduziu em sua obra os conceitos de sadismo, masoquismo e fetichismo no estudo do comportamento sexual. Sua obra foi outra "Psicopatologias sexuais", em 1886. Tornou-se professor de psiquiatria na Universidade de Estrasburgo.


Finalmente, na virada para o século 20 os trabalhos de Iwan Bloch, Havelock Ellis, e Sigmund Freud estabeleceram de vez o respeito à investigação das questões sexuais, e legitimaram seu território de direito na investigação humana.


Iwan Bloch: (Dermatologista alemão) Acabou sendo o primeiro a ser chamado de sexologista.

Descobriu o manuscrito Os 120 dias de Sodoma do Marquês de Sade, que se julgava perdido, e o publicou dando a si mesmo como editor o pseudônimo de Eugene Düren, em 1904.

Com Magnus Hirschfeld e Albert Eulenburg, propôs um novo conceito para a ciência: a Sexologia. Em 1906 escreveu em nome disso "A vida sexual nos nossos tempos", uma espécie de enciclopédia que se julgava completa, descrevendo o que já se tinha sobre as ciências sexuais, e suas conexões com a civilização moderna.


Henry Havelock Ellis, Psicólogo e pesquisador inglês, foi um pioneiro na modernização da abordagem científica moderna sobre o sexo.

Sua maior obra foi "Estudos da psicologia do Sexo", em sete volumes, mas até 1935 seu trabalho permaneceu legalmente disponível apenas para médicos.

Ficou conhecido também como líder dos Direitos das Mulheres para a educação sexual, embora em sua autobiografia (1939) deixe claro que era infeliz em sua própria vida íntima.

Seu trabalho explorava especialmente aspectos biológicos e multiculturais.


Sobre Freud basta lembrar mais uma vez que mudou o ser humano e o Mundo; sobre os que o seguiram deveríamos ler / reler mais; é feio falar do que não se conhece! (E como se fala mal desse homem sem tê-lo lido). Poderíamos também examinar melhor os seus seguidores menos famosos e mais consistentes, que acrescentaram saberes significativos à sua marcante fagulha inicial.


Os 50 vão chegando...


Alfred Kinsey: (Entomologista e zoólogo norte-americano) Fundava já em 1947, na Universidade de Indiana, o Instituto de Pesquisa sobre Sexo, hoje chamado de Instituto Kinsey para Pesquisa sobre Sexo, Gênero e Reprodução.

Suas pesquisas sobre a sexualidade humana influenciaram profundamente os valores sociais e culturais dos Estados Unidos, principalmente na década de 60, com o início da chamada ”revolução sexual”. Ainda hoje, suas obras são consideradas fundamentais para o entendimento da diversidade sexual humana.


William Master (Médico) e Virginia E. Johnson (Psicóloga) começaram seu trabalho em 1957 no Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade de Washington em St. Louis USA. Deram continuidade à sua pesquisa independente e não remunerada numa instituição fundada por eles mesmos ainda em St. Louis, já em 1964, a Fundação de Pesquisa de Biologia e Reprodução, chamada desde 1978 de ‘Instituto Masters & Johnson’.


50 Finalmente: semeada a maior guinada para a modernidade, (melhor desenvolvida a partir dos 60), que continua em debate (cada vez mais ágil) nos nossos dias, e determinou o estudo específico das Masculinidades (a partir dos debates sobre gênero), envolvendo muitos profissionais. Citarei dois que merecem destaque, para ‘o bem’ e para ‘o não tão bom’.


John Money e Robert Stoller recebem, na literatura médica (e de gênero), o justo crédito de terem sido os primeiros a falar em Identidade de Gênero, adotando assumidamente a proposta de Simone de Beauvoir, mas fornecendo a ela o caráter cientifico que a proposta precisava para ampliar seu universo na Cultura.

Ambos desenvolveram, para sustentar suas teorizações, muitas pesquisas com grandes amostras comparativas de hermafroditas, transexuais, malformações, e acidentados nos genitais.

Ambos se envolveram em polêmicas que viraram casos famosos, e por pouco ‘os bebês não foram jogados fora com a água da bacia’; sim: com todas as polêmicas, eram estudiosos sérios, levantaram e deixaram farto material inédito, inovador e produtivo.


John Money (neozelandês Psicólogo e sexólogo), se envolveu no caso dos dois gêmeos que acabaram se suicidando reproduzido num episódio da série ‘Low and Order SVU’.

Um deles tinha sido mal-sucedido na circuncisão, e Money concordou com os pais que a melhor solução era ‘transformá-lo’ em menina, por cirurgia e tratamento hormonal; mas os meninos já tinham um ano e meio quando isso aconteceu, e – como se sabe hoje – sua orientação para a masculinidade heterossexual já estava formada.

O menino ‘virou menina’ sob a orientação de Money, mas decidiu (assim que pôde reverter autonomamente a situação) que era mesmo um menino, apesar do acidente, e fez o tratamento oposto. Anos depois, casado, ao receber da esposa a notícia de que ela queria se separar, suicidou-se; seu irmão fez o mesmo dois anos depois; no mesmo ano Money morreu.

Apesar desse polêmico equívoco, seus trabalhos teóricos sobre identidade sexual, identidade de gênero e papel social de gênero colaboraram de fato para tudo que debatemos hoje: não só a questão de o corpo do outro (e a Vida do outro) não ser(em) mera ‘massinha de modelar’, mas também questões das Masculinidades.


Robert Stoller , (Norte-americano Médico pediatra e psicanalista), se deixou enganar por um cliente que lhe pareceu um caso de intersexualidade; na verdade o rapaz já tomava hormônios que roubava da mãe desde os 12 anos de idade e não o revelou nas entrevistas; era um transexual e Stoller só o descobriu muito depois.

De qualquer maneira foi graças a esse caso que coube a Stoller com sua equipe realizar a primeira cirurgia legal para mudança de sexo em 1959.

Mais consistente foi sua pesquisa prático-teórica, que conduziu também ao que mantemos hoje na pauta das questões de gênero e das Masculinidades:

1- os aspectos biológicos / hormonais / corporais, que deveriam ser indissolúveis da...

2-...avaliação sobre o olhar lançado pelo Mundo sobre os bebês (questionando se a família e os demais que o recebem ao nascer olham-no como homem, como mulher, ou simplesmente como um ser livre para escolher), que por sua vez deveriam ser indissolúveis da...

3- ...avaliação de como se desenvolveu a história cultural / social / afetiva de cada um deles nos anos seguintes.

Minimamente seria o conjunto orgânico e vivo desses dados que poderia começar a desenhar o que poderia vir a ser a identidade de gênero de alguém.


f) Anos 60 / Revolução Sexual / Feminismo / Pílula popularizada / Direitos Civis / Flower and Power / Paz e Amor / Ecologia / Indústria Cultural / Mercado com poder Político


Como seria possível passar por esses fenômenos sem o gênero pontuar como assunto inesgotável em todas as rodas?

Livros e mais livros foram publicados, com destaque não só para os feministas ("A Mística Feminina" de Betty Friedan, por exemplo), mas especialmente para toda a produção acadêmica, que exibia a diferença que fazia o fato das universidades terem triplicado desde os anos 50 o número de alunas e professoras (mulheres).

Várias pesquisas começaram a ser refeitas; dados de paleontologia, arqueologia, antropologia, sociologia, psicologia e psicanálise ganharam rumos jamais imaginados até então.

Um exemplo (que beira a piada) basta para compreender esses rumos inéditos: sinais rupestres que até os anos 60 tinham sido interpretados como listas de caça, foram finalmente compreendidos (por pesquisadoras mulheres, claro) como evidentes calendários menstruais...

O Mercado descobre: estes livros VENDEM BEM, especialmente se editados para uma linguagem acessível, popular...

Reproduzindo tanto a tagarelice feminina, quanto o tradicional silêncio masculino, até aqui predominam os livros de mulheres, e/ou para mulheres, sobre mulheres e ‘feminices’.


g) Anos 70 / Psicodelismo redescobre a Espiritualidade / Testando limites e proibindo proibir / Academia descobre o HOMEM e as MASCULINIDADES / Mercado descobre os Relatórios (semente dos abomináveis manuais de hoje) / Conexão entre VIDA ÍNTIMA e VIDA PÚBLICA é politica-economicamente redescoberta e assumida como evidência


Respeito os "Relatórios Hite", e não só porque um deles foi ousadamente direcionado a uma respeitável amostra masculina, mas também pela qualidade das avaliações de Shere Hite, reiteradas pela qualidade de seus textos posteriores, que – infelizmente – não mereceram a mesma atenção do Mercado.

A Academia define o Ser Nascido com Sexo Masculino como uma QUESTÃO: nos Estados Unidos é criada a cadeira ‘Men’s Studies’, e Masculinidades ganha seu justo (e prudente) ‘s’.

Entre tudo que é aí feito e encaminhado para publicação, três merecem destaque.


A Psicóloga Carol Gilligan convence em 1972 seu professor Laurence Kohlberg a refazer a pesquisa dele de 1958 sobre a moralidade em crianças e púberes, cujo original afirmava que só meninos tinham noção de moralidade, e mostra, com cumplicidade e aprovação dele, como o título de seu livro publicado em 82, que há apenas "Vozes Diferentes". É: a Academia nunca mais foi a mesma com as mulheres lá...


Em 1972 o Psicanalista argentino Arnaldo Rascovsky lança o comovente livro "El Filicídio", que aponta a verticalidade implacável do falicismo ávido de poder, o patriarcalismo e o patrimonialismo como responsáveis não por individuais perfis patológicos e criminosos, mas por todo o (surdo?) subterrâneo comportamento coletivo planetário filicida em relação a seus descendentes, sob um sinistro pacto coletivo de silêncio.


A alemã nascida na argentina Esther Vilar publica também em 1972 o polêmico (e com muitos equívocos) "O Macho Domado", que - com todos os caminhos tortos que segue – levanta já uma questão consistente e contemporânea: reivindica autonomia, mais REAL que ‘encenada’, para os seres nascidos com sexo masculino.

Nessa questão, concordei, como muitos outros autores, com ela.


h) Anos 80 : livros ‘descolam’ das questões das mulheres para abranger cada vez mais as questões dos homens; junguianos dão os braços para freudianos, com muita elegância e benefício para todos


Em 1980 a Psicóloga junguiana Jean Shinoda Bolen, após seus primeiros livros que focavam as questões de gênero, as mulheres, as crianças, e a ecologia, lança "Os Deuses e os homens"; junguianos desenvolvem seu trabalho somando a ele questões até então ditas freudianas, cada vez mais e melhor.


Em 1981 a Jornalista Collette Dowling surpreende com o best-seller (alegria do Mercado!) "Complexo de Cinderela". Pesquisa pertinente, muito interessante e muito bem escrita, que traz um enorme benefício embutido: sua leitura induz milhares de leitores a aprofundarem mais seu pensamento sobre as questões de gênero, e – curiosamente - a lerem muito mais livros elaborados a partir de pesquisas da Academia (como o de Carol Gilligan, por exemplo).


O Psicólogo Dan Kiley lança em seu rastro "O Complexo de Peter Pan" em 1983, cujo maior mérito é assinalar a frase da personagem: ‘Viver SERIA uma aventura incrível’, confirmando a ausência de qualidade real do cotidiano masculino, tão (supostamente) cheio de poder. Em 1987 ele lança (o oportunista?) "O que fazer se ele não quiser mudar", infelizmente já nos moldes de nossos apavorantemente fake ‘manuais’, que continuam proliferando por aí.


A Antropóloga Helen Fisher publica em 1982 "O contrato sexual", após uma pesquisa paleoantropológica, já com recursos muito mais avançados que aqueles que Margaret Mead dispunha em 49, apontando quantas atividades em roda (e olhos nos olhos) as mulheres tiveram em sua evolução, enquanto os homens tiveram outras tantas atividades que os levavam a se dispor uns ao lado dos outros, e todos olhando para frente ou para o horizonte no mesmo período de tempo. Compara de maneira muito pertinente o quanto herdamos disso. Publica mais tarde (2000) um texto chamado "Sexo Milenar", no qual aponta a partir de sua pesquisa sobre o passado um plausível futuro, no qual a liberdade sexual mútua e o diálogo ampliado entre gêneros se tornariam otimistamente inevitáveis (acompanhando, aí, a visionária Margaret Mead).


Acrescente-se que o "Uma voz diferente" de Carol Gilligan, publicado finalmente em 1982, já pontua a salutar ponte (inevitável?) em desenvolvimento entre o diálogo na Esfera Íntima e os diálogos na Esfera Pública, que até hoje está em debate.


Um marco é a publicação de "Pai Ausente, Filho Carente" (no Brasil o livro só chega em 1990!) do Psicólogo canadense Gui Corneau, que mundializa a questão com o sucesso de seu livro centrado na relação pai-homem / filho (especialmente o filho-homem), e no silêncio masculino. Comenta que freqüentemente era entrevistado pelos veículos de comunicação sobre casos que apontavam alguma patologia; muitos repórteres lhe perguntavam sobre criminosos “-Que espécie de mãe ele teria?”, e Gui teria se sentido obrigado a devolver a pergunta “-E porque não que espécie de pai ele teria?”.

Acha bizarra a defesa do “Nome-do-Pai” lacaniano, segundo o qual seria a (geralmente distante) figura paterna, e a presença simbólica do Falo, que introduziriam a criança na Linguagem . Chama a atenção para a “conversa” constante e eloquente que acontece entre as mães e os bebês, e para o fato da FALA estar na verdade no conjunto corporal-afetivo, no toque-verbalização (que as mães não costumam economizar); comenta o quanto são (ainda!) pobres tanto o toque quanto a fala entre pais-homens e seus bebês.

Aponta a perpetuação dos descendentes desses pais “adestrados” inconscientemente por seus próprios pais - (há séculos!) - a se tornarem recorrentes pais omissos, si lentes (no verbo e no toque) de suas subjetividades / intimidades.

Num desenho nitidamente ético/estético, embora aparentemente não tenha percebido isso, propõe a potência, a “tomada das rédeas” da assertividade na (re) construção da subjetividade nos sujeitos de sexo masculino, através do especial cuidado com a reflexidade: driblar a instabilidade/fragilidade masculina contemporânea (conflitos de identidade e quanto os papéis do masculino, por exemplo), com reflexão individual e coletiva freqüente, e apuro nas novas (e melhores) escolhas e ações.

Tão avançado é esse livro (feito para ser simples e acessível pelo público comum, o que prova que popular não é sinônimo de populista), que o conjunto da psicanálise vigente ainda não o acompanhou como poderia...


Nossa brasileiríssima Rosiska Darcy, que continuou pensando e trazendo novas perguntas, lança “O Elogio da Diferença” (1985), que aponta uma nova ótica que emerge no debate das questões de gênero: as possíveis vantagens (inclusive estilísticas) de mulheres e homens serem diferentes; falando dele na TV lembra uma plausível imagem doméstica: num sítio, ao faltar luz, os homens imediatamente perguntariam –“Onde estão os lampiões?”, enquanto as mulheres imediatamente perguntariam –“Onde estão as crianças?”, onde pluralidades (inclusive Políticas) estariam plenamente acolhidas.

Hoje, ela é um dos autores (como Maria Rita Kehl, eu e outros) que dizem que Homens e Mulheres (etc.) poderiam se unir para pleitear a questão do TEMPO; pleitear o debate sobre a urgência do indivíduo se re-empoderar do direito (óbvio) ao investimento singular de seu (nosso exíguo) TEMPO DE VIDA.


Em 1989, ainda Brasil, a Psicóloga Halina Grimberg lança o “Homem não presta e outras mentiras”: aponta a colaboração das mulheres na escrita da História por tanto tempo oculta na intimidade dos lares e das supostas ‘fofocas’, e adianta um tema que se mantém no debate hoje, que é a sensação de que o homem anda se sentindo ‘sem função’ a partir dos passos largos que a mulher deu na direção de sua própria autonomia pessoal, sexual, profissional...


i) Anos 90: impossível voltar atrás uma vez levantado a fímbria do véu sobre a

questão das masculinidades, e da rede de assuntos tocado por ela; consciência de

que nossa descendência pode depender da manutenção desse debate:


Sintomaticamente poeta, Robert Bly provoca mais um marco nessa história, com seu livro de 1990 “João de Ferro; um livro sobre homens”. É a partir dele que se multiplicam os Grupos de Reflexão de Homens (gerados por Gui Corneau), mas agora com uma nova característica: a retomada com o contato com a Natureza.

Segundo Bly, que parte de um conto de fadas para desenvolver seu texto, um homem que tem um bom mentor (na figura de seu pai, ou de um substituto homem, ou um psicoterapeuta no futuro), não ‘paraliza’ nem no ‘ingênuo’ nem no ‘valentão’. Torna-se centrado em seu mundo emocional. Pode ser vigoroso, mas se torna um legítimo protetor, e se tornará um novo mentor, passando a perpetuar uma figura ainda indiscutivelmente masculina, mas com universo emocional atuante, que desenvolverá um plausível perfil de um acolhimento masculino com características próprias, e não imitativo do feminino.


Enquanto isso, 1990 no Brasil, o Psicólogo Marcos Ribeiro nos presenteia com um livro (supostamente) para o público infantil: “Menino brinca de boneca?”. Pelo tema, também um marco, que não foi reconhecido como merecia: se meninos não brincam de boneca (de ser pai), como esperar que elaborem essa futura possibilidade em suas vidas?... E não brincam / elaboram porque CONTINUAM sendo impedidos de fazê-lo, francamente desestimulados de fazê-lo, ainda agora, em 2009!...


1990 também é o ano do livro “Um é o Outro” de Elizabeth Badinter, que retoma em seu tempo temas “adiantados” por Margaret Mead: maior solidariedade cotidiana entre mulheres e homens reduziria a solidão (inclusive existencial) de ambos. Aponta a estilística andrógina que se populariza como um sinal disso, e pergunta se a androginia seria um passo ainda mais concreto para os gêneros, no futuro.

Como eu, ela mesma parece acabar discordando dessa possibilidade, pois em 1992 lança o espetacular “XY – Sobre a Identidade Masculina”.

A partir de uma profunda pesquisa, pergunta como é possível que um suposto complexo identitário (no caso o masculino) seja construído a partir de uma mera negação: ‘Ser um homem é não ser uma mulher’. Vê no futuro do homem possibilidades dele se reconciliar consigo mesmo, com um universo emocional de fato “empodeirado” (como um território sobre o qual ele de fato se sentisse autorizado e desejoso de tomar o poder) e autônomo.


O Psicólogo norte americano John Gray, em 1992 faz grande sucesso com “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”. Embora siga o abominável estilo dos manuais de aconselhamento (que não deveriam ser vendidos sequer em feiras), levanta questões pertinentes, sem dúvida com louvável bom humor, como por exemplo a tendência masculina de optar por se recolher (ao seu tradicional silêncio) no que ele chama de “sua caverninha”, recomendando às mulheres que aceitem esses ‘momentos-caverninha’ a seus parceiros, pois a elaboração de complexos emocionais no homem dependeria disso, como na mulher dependeria do compartilhamento emocional com as amigas. Recomenda também que mulheres não tenham medo de ser objetivas ao se comunicar com os homens, pois a fala objetiva lhes é muito mais familiar.

Embora divertido, planta aí, me parece (até porque seu sucesso se mantém há anos elevado), uma ótica perigosamente dúbia frente a questão das Masculinidades, que vejo ainda freqüentemente: ao Homem não caberia reflexão alguma, novo movimento algum; o Mundo, a Mulher, os GLBT que “se virem” com “aquilo ali mesmo”. Só fica faltando complementar e dizer: “Eles são assim mesmo, incapazes de refletir sobre eles, e de novas e autônomas ações ou pensamentos, não têm jeito, coitadinhos”.

Ainda hoje vejo muitos colegas arriscando a caminhar nesse gelo finíssimo, dúbio, cético, desvalorizador das capacidades autônomas masculinas ou do Homem, e ...cinicamente preguiçoso.


Também em 1992, o inglês Anthony Guiddens publica “A transformação da Intimidade”, que inevitavelmente falará das ‘novas’ dificuldades dos homens frente as ‘novas’ mulheres, e delas mesmas em relação a si mesmas e no relacionamento com homens. Foca na questão social, a partir da clareza de que vida íntima também é política, de que o eloqüente e auto evidente diálogo entre o MICRO (Esfera Íntima) e o MACRO (Esfera Pública) ‘está posto’, fazendo lembrar a frase de Herbert Daniel: “Não há democracia se ela pára na porta da fábrica ou na beira da cama”.


Ainda em 1992, o Psicodramaticista paulistano Luiz Cuschnir lança “Masculino/Feminina”, e logo em seguida, em 1993, “Homem – pedaço adolescente / Adolescente pedaço homem”. Curiosamente seguidor de Moreno (o criador do Sociodrama e do Psicodrama, que trabalhava inclusive nas ruas, e com qualquer público que se imaginar), os dois bons livros apresentam uma amostra focada numa única classe social (a dos muito ricos), o que rouba dos exemplos apresentados sua devida universalidade.


1993 é também o ano da publicação do excelente “O Mito da Masculinidade” do Psicólogo da PUC RJ Sócrates Nolasco. Mais um autor tipicamente ‘pós-Gui Corneau’, pontua por exemplo, através de suas próprias pesquisas realizadas entre 1984 / 1986, também (inevitável?) o vínculo do universo íntimo com o universo público. O menino, a partir da experiência endopsíquica da castração, é alimentado por fantasias de onipotência e senhorilidade; assim, quando aparecem os “pais-do-povo”, os “pais-da-pátria”, os ditadores, os tiranos, homens seriam perigosa e facilmente seduzidos, a partir dessa ‘marca’.


Em 1994 o Psicanalista e Rabino Howard Eilberg-Schwartz nos dá de presente o belíssimo “O Falo de Deus”; falo este que nunca é ‘visto’, e – pergunta o próprio Rabino – Existe? Falo que Imporia um modelo (e exigiria correspondência dele) de suposta perfeição inatingível para o homem.

Assim, esse modelo seria ainda mais prejudicial, contraproducente, para o universo masculino que para o feminino (como expõem várias autoras mulheres, inclusive brilhantemente a brasileira Irmã Ivone Gebara em seus vários belos livros).

Propõe o Rabino a existência de uma “face feminina de Deus” que apareceria na ‘Shequiná’, a ‘Sarça Ardente’ (visível, por exemplo, no Sinai), mais acolhedora para todos que o impiedoso Javé. (Quem se interessar por esse livro e por esse tema, poderá ler também “Jesus e Javé- os nomes divinos” de Harold Bloom, não exatamente sobre masculinidades).

Acrescente-se que uma Rabina, Léa Nowik, desenvolve um trabalho de identidade feminina com mulheres a partir, também, da imagem da ‘Shequiná’.

O Rabino assume – também – a evidência da existência da histeria masculina, através de textos do próprio Freud.


No mesmo 1994 (com direito a reedição e novos palestrantes em 1995), organizo (eu mesma!) no Centro de Ciências Sociais da UERJ o evento “Homem e Mulher: As duas faces d’ deus(a)”, cujas palestras foram redigidas (nas duas ocasiões) e reunidas para um livro, que não é publicado, infelizmente, por problemas na administração da Universidade. Os textos continuam comigo...


1994 é também o ano do evento “Homem e Mulher – Uma relação em mudança”, no CCBB, organizado por Maria Helena Khüner e Celina Albornoz, cujas palestras foram transformadas em livro, felizmente.

Também em 1995 Sócrates desenvolve na PUC RJ o evento (com livro posterior) “A Desconstrução do Masculino”.


1996 é o ano do livro “A Mínima Diferença” da brilhante Psicanalista Maria Rita Kehl, que transita pelo tema da relação entre gêneros (e questionamentos para ambos) munida de sua tradicional familiaridade com a Arte e a Cultura.


Na mesma linha evento-livro, na Associação Junguiana do Brasil, o Psicanalista Walter Boechat organiza em

1997 “O Masculino em Questão”; ele, outro assumido ‘pós-Gui-Corneau’, lembra (especialmente aos colegas de profissão) que – no mito edípico – há em pauta um caso de FILICÍDIO antes de haver o de parricídio, já que Laio envia o bebê Édipo para a morte por temor de ser destronado; tudo o mais é conseqüência desse ato.


1998 fecha de maneira constrangedora o ciclo dos anos 90, se levarmos em conta que o incensado Pierre Bourdieu publica o confuso “A Dominação Masculina”, de um universalismo duvidoso, que – ridiculamente – parece ignorar as pesquisadoras mulheres, entre outros arranhões ao seu suposto ‘inquestionável’ (?) ‘brilhantismo’.

Mantendo ao longo do livro seu pessimismo habitual, aparenta surpreendente ‘ignorância de conveniência’ (para manipular suas colocações?).

Afirma que “...não há mitos sobre a hierarquia sexual...”.

É possível imaginar que esse senhor, ‘tão inquestionavelmente sapiente’, diante da responsabilidade de escrever ESTE livro, pudesse ‘esquecer ou se manter ignorante’ dos mitos de Inanna, de Lilith, de Isis, o panteão invertido do Japão ancestral (Sol é deusa, e Lua é deus), da virgindade de Maria, etc...?

Esse meu olhar crítico não é só meu; é endossado pela respeitadíssima Maria Luiza Heilborn, do IMS da UERJ...


j) 2000 NO AR! Pequenas / Médias / Grandes alterações de rota para as Masculinidades?


A Psicanalista e Doutora em Sociologia da UFMG, Marlise Matos, uma ousada estudiosa das Masculinidades, não consegue (não conseguiu até hoje, para nosso ‘azar’) publicar uma pesquisa específica sobre o assunto (que desenvolveu, e tive o privilágio de ler), que certamente seria aplaudida por qualquer país com um mínimo de responsabilidade pelo debate estudioso.

Mas, consegue (para nossa sorte), já em 2000, através de um merecido prêmio, lançar “Reinvenções do Vínculo Amoroso”, sobre as novas propostas para esse vínculo: casamentos abertos, casamentos a três, casamentos homoafetivos, etc.

Inevitavelmente as masculinidades são abordadas, apontando, por exemplo, o falicismo reinante, inclusive contraproducentemente no pensamento psicanalítico de muitos colegas nossos, pensamento que nega a assertividade dos genitais femininos, parecendo ‘aceitar’ que eles seriam meramente ‘passivos, receptivos’...


Ainda em 2000, a Psicanalista neozelandesa Juliet Mitchell, feminista por muitos anos, e que já afirmou que “...chega de debater Mulher, Homem...Agora é hora de nos preocuparmos com nossas Crianças!...”, publica “Loucos e Medusas”, onde sacode a psicanálise com a proposta de que ela (a psicanálise) se desenvolveu partindo da premissa que bastaria o olhar às relações verticais. Para Juliet, as horizontais (irmãos e equivalentes) seriam tão importantes quanto às verticais, e que é urgente que a psicanálise o assuma. Paralelamente a isso, especialmente dedicada ao olhar das características dessas relações (os ciúmes, por exemplo), retoma com brilhantismo a questão da histeria masculina, também apoiada por textos do próprio Freud.


Em 2001 um curioso livro popular (mas muito bem escrito) acompanha não só os desdobramentos da ‘Nova Era’ e religiosidades emergentes, mas também o eco do debate das masculinidades: “WICCA para Homens”, de A.J. Drew: “...Para causar mudanças externas é preciso primeiro identificar o que se quer mudar...Se cresceu numa sociedade que prega o não-envolvimento, sinto muito. Isso não justifica suas omissões...” Modesto, divertido, mas pertinente.


Já o Professor de Ciências Políticas de Harvard Harvey C. Mansfield, (talvez amigo do ex-reitor Larry Sommers que afirmou publicamente acreditar que mulheres são naturalmente menos preparadas para a Ciência), publica em 2004 “Masculinidades”, que não apresenta exatamente a profundidade que se espera emergir do meio acadêmico.

Sua definição de Masculinidades é “Ter confiança em situações de risco.

Se fosse simples assim, ninguém seria mais masculino(a) que uma gestante que aguarda o dia do parto...

Faz afirmações que beiram o bizarro, tais como “A tecnologia é uma qualidade da alma...Certas coisas não mudam, como os porteiros de New York...Força física define muitas coisas...Nada em minha carreira dependeu de força física, mas minha relação com as mulheres, sim; muitas vezes quem teve que mudar o lugar dos móveis em casa fui eu...” E por aí vai.

Seriam os homens (para ele, claro) meros macacos hidráulicos dispostos à riscos?...


A Associação Psicanalítica de Porto Alegre faz bonito com seu “Masculinidades em Crise” (fruto de evento-livro) de 2005, do qual podemos destacar o texto do Psicanalista Edson Luiz André de Souza (que propõe o investimento num mergulho individual, especialmente masculino, na imaginação, como busca de saída para a crise), e – claro – o texto da Psicanalista Maria Rita Kehl (que aponta uma crise por ‘deslocamentos de lugar’ no imaginário masculino, e ressentimentos ainda não suficientemente elaborados decorrentes desses deslocamentos).


Não posso encerrar sem lembrar que “Por que não um carrinho?” de Flavio de Souza foi lançado para o público infantil em 2009, retomando – bem enquadrado na atualidade – o tema lançado (talvez precocemente há 19 anos) pelo Psicólogo Marcos Ribeiro, “Menino brinca de Boneca?


Impossível não reparar que OS DOIS LIVROS TÊM PERGUNTAS EM SEUS TÍTULOS...

Estaria esta geração legando apenas perguntas para seus descendentes?

Sou particularmente suspeita para avaliá-lo, pois, se a resposta for SIM, verei nisso um ótimo presente, que fugirá de quaisquer perniciosos discursos supostamente verdadeiros...


Posso não ter citado TODOS. Mas acredito que os que citei serão um bom caminho para quem mais se apaixonar pelo tema...



2. PARA QUEM CHEGOU AO BLOG AGORA: PORQUE ESCREVI ISSO


Gênero - logo‘Masculinidades’ – é (são) ‘tema(s)-em-rede’.

Talvez por isso a própria construção da identidade de meu trabalho tenha se dado igualmente através de um idiossincrático enredamento temático multidisciplinar, e de experiências concretas igualmente multifacetadas:


- O encantamento pelo prazer-poder da leitura, da Arte, na infância e na adolescência;


- A opção na juventude pela interferência política através da Psicologia, do Feminismo

(as questões de Gênero como foco nas questões sociais) e da Arte;


- A surpresa, ao desenvolver um trabalho de Teatro do Oprimido (na Faculdade

Cândido Mendes, após sucesso em alguns Sindicatos), que abordava (em nome do

Feminismo da celebração de um ‘8 de Março’) a relação Mulher-Homem: a atuação

do ator Buza Ferraz (cuja personagem se recusava a cumprir um papel masculino

convencional) me mostrou que mulheres ao menos estavam falando de suas questões,

mas OS HOMENS AINDA NÃO (só o avançado Buza, e sua personagem irreal e idealizada, claro...).

Logo, eu podia mudar o rumo de minhas preocupações e atuações profissionais para

onde ela se exibia mais necessária / útil...


- O aprendizado inesgotável através das experiências profissionais (paralelas ao

atendimento no consultório) com grupos diversos:

. Trabalhos sobre Identidade (inclusive de Gênero) com grupos em empresas;

. Encontros que fui convidada a desenvolver na UERJ especificamente sobre Gênero;

. Trabalhos sobre Identidade (inclusive de Gênero) com grupos para ONGs e Escolas;

. Grupos autônomos (professores de uma cidade do RJ, por exemplo) que me

convidaram para trabalhar Identidade com eles (inclusive de Gênero);

. O Projeto Dramaturgia do SESC Nacional (que permitia uma abordagem de seus

objetivos através de questões de Identidade, inclusive de Gênero), etc;


- A oportunidade de desenvolver uma pesquisa orientada pela Dra. Marlise Matos (Psicanalista e Doutora em Sociologia especialista em questões de Gênero e Masculinidades) na Pós da PUC RJ;


- A experiência durante um pouco mais de um ano como coordenadora de uma ONG que acolhia e atendia especificamente 70 homens, desenvolvendo com eles individualmente nova pesquisa sobre ‘O que significa ser um homem’, encontros também coletivos para debatê-lo, e a criação do “7 de Março – Dia do Homem”, além

de visitação sistemática de teatros e museus para trabalhar / debater a ética a partir da provocação estética. Vinham das ruas (na maioria), sendo alguns egressos do sistema penitenciário que ainda não tinham para onde ir; eles me deram várias aulas de Cultura, sofisticadíssimas...


- A oportunidade de reescrever meus textos da pesquisa orientada por Marlise nos textos do BLOG, sonhando com um futuro livro.


Apenas porque posso ganhar, neste texto aqui, leitores recén-chegados, faço um resumo de minhas modestas idéias centrais sobre as Masculinidades, que desenvolvo em todos os meus textos, sempre como questionamentos.


Quem deveria / poderia se preocupar em “respondê-las” é o contingente masculino do Mundo em que vivemos...


a) As recentes e estarrecedoras estatísticas (referentes às letalidades, adoecimentos, aprisionamentos, acidentes, internamentos, criminalidade – todos direcionando os seus maiores e piores índices para os seres nascidos com o sexo masculino), reiteram a necessidade de se manter as MASCULINIDADES como uma QUESTÃO a ser refletida por todos nós.

Elas deveriam mesmo nos assombrar; e assombrar - com requinte - o próprio contingente masculino.

É do ASSOMBRO que vêm as melhores REFLEXÕES.

O preguiçoso senso comum se habituou a alardear a SUPERIORIDADE MASCULINA nas QUESTÕES DECISÓRIAS ao longo da história do planeta, associando fenômenos como a misoginia, o bélico patriarcalismo, e o patrimonialismo (e suas conseqüências: fetichismo, reificação, filicídio), como provas desse (indiscutível?) PODER.
Mas que PODER AUTOFÁGICO é esse que essas estatísticas exibem?

PARA QUE “TRIUNFO” serve, afinal, ao exibir seu implacável teor de SOFRIMENTO e LETALIDADE?

Só o SENSO CRÍTICO combate os equívocos do senso comum...

Em tempo: misóginas, patriarcais, patrimonialistas, fetichistas, reificantes e filicidas MUITAS mulheres também são! Mas...


b) ...Porque o HOMEM é a única categoria de gênero que não se organizou?

Estaria “engambelada” pelo seu poder retórico e burocrático, como se estes fossem suficientes?

Tão “engambelada” que se faz de cega diante das estatísticas já citadas que apontam a autofagia desse seu “poder”?

Diferente disso, Mulher é uma entidade já tão organizada, que a mera pronúncia dessa palavra é sinônimo planetário de um coletivo.

Idem-idem GLBT...

Até no Afeganistão há, há anos, uma ONG (a RAWA), para acolhimento das questões da Mulher, por exemplo. Como duvidar dessa poderosa capacitação para a organização?


c) Se parece tão inapto para a Esfera Íntima, é de fato apto para a Esfera Pública?

Mães também educam, mas seu limite começa na impossibilidade de ensinar aos SEUS MENINOS, O QUE SIGNIFICA NASCER HOMEM, o que isso é, e o que pode significar nas vidas íntima e pública.
A sociedade parece ter se habituado a “aceitar como natural” os pais (de sexo masculino) ausentes (assim como Estadistas cinicamente ausentes, ou populistamente autoritários).

Ausentes desde a aparente impossibilidade de ministrar essa lição única e intransferível (compulsória?) especialmente aos novos seres que vão nascendo com sexo masculino.

Autoritários desde a possibilidade de silenciosamente perpetuar com seus ‘exemplos’ posicionamentos existenciais e comportamentos autofágicos e letais (para indivíduos e para a sociedade) a seus próprios meninos, a seus próprios descendentes.

Com freqüência vemos caracterizados casos de negligência mais graves, que beiram ou assumem mesmo caráter criminal. Pais-Homens que parecem ensinar um perverso “PACTO DE SILÊNCIO” a seus filhos-homens.

Silêncio na sua própria e singular intralocução, na interlocução com seus iguais, e – conseqüentemente – na interlocução com as demais categorias de gênero: logo com a Sociedade, com a Esfera Pública.

Estaríamos numa sociedade igualmente pactuada com o silêncio, com a negligência, com o filicídio? Numa sociedade irresponsável diante de todos os seus descendentes, e curiosamente suicida?

Pois a manutenção desse fenômeno “assassinaria” a todos, metaforicamente ou não!


Diz Marlise que essas minhas três questões assim colocadas são originais; mas... CLARO QUE EU NÃO “DESCOBRI A PÓLVORA”: o questionamento do contingente masculino vai sendo engendrado há alguns anos, e tem já uma História.

É o que tentei resumir aqui, através do resumo da bibliografia sobre o assunto.

Cada livro (e os acontecimentos que o possam cercar) valerá(ão) como uma estória, no jogo-de-dominó da História das Masculinidades.


Ilustração: Josef Albers - HOMAGE TO THE SQUARE - JOY (Jogo gráfico sobre a grande obra / estudo do autor, desenvolvida(o) entre os anos 40 e 70).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

INTERVALO PARA LUTO : AGUARDEM; VOLTO JÁ.


Já estava meio lenta a redação do próximo texto, pois estou também estudando e me preparando para uma oficina de alguns dias em São Luis do Maranhão.

Mas minha amada irmã Mitzi decidiu passar para um andar mais alto: ela era de fato muito bela e muito boa para o andar mixuruquinha em que estamos; e aí, quem de fato pretender ler o texto, aguardará mais um pouquinho, 'fazeireofavor'...

Em dias ela foi desligando os interruptores de seu privilegiado cérebro, e - não só nós - mas os médicos também, não entendemos muito bem o que acontecia.
Os médicos ficaram com tamanha cara de patetas, tentando inutilmente um monte de 'procedimentos' entre diagnósticos turvos, tão abestalhadamente, que levaram uma semana medicando-a para então se lembrarem de perguntar se ela tinha alergia a alguma coisa...

Well, Mitzi já está em algum lugar.
Se só existe Ciência, e virou "apenas"(?!) poeira de estrela, certamente terá sido de Estrela.
Se existe alguma coisa Espiritual, ela tem pistolões quentíssimos por lá (como disse Angela, sua filha mais velha); só poderá estar numa ótima.

Espírita, criou a Cruzada Espiritual Feminina, que congrega mulheres cujo trabalho principal é o de orações de cura.
Era seu maior talento, afinal: dar colo, de altíssima qualidade.
Perto dela, só carinho, coragem e alegria; impossível passar por ela e não sair assim, acolhido e 'tratado': potencializado.

Acima, sua foto de Noiva, mais ou menos aos 19 anos. Linda, não? Por dentro então, vocês nem imaginam o porte da beleza...

Imaginem o porte da saudade que fica...

Deixou os livros 'Liberdade do Espírito' e 'Gotas de Amor'; cara dela, né?...

sábado, 12 de setembro de 2009

Enquanto aguardam o PRÓXIMO ("Estórias da História dos Estudos sobre as Masculinidades"), deixo aqui uma foto para reflexões...

Meninos trabalhadores nas minas... (para túneis estreitos, e bolsos ávidos, seres vivos adequadamente de 'pequeno porte').

Sempre que consultarmos a História, encontraremos o patriarcalista/patrimonialista Filicídio manifestado (nem sempre fotografado ou pintado), atingindo crianças em geral, mas - de uma forma especialmente sádica - os meninos, que tendem, mais tarde (reativamente), a se tornar repetidores dos gestos dos (ir)responsáveis adultos de suas infâncias.

Se a gente olhar em volta HOJE, ficará com MUUUUUUUITA vergonha (assim espero!) do que se perpetua.

Aguardem o texto, por favor; vai demorar um pouquinho, até porque estou 'viajando' no maior poder de síntese possível...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ENQUANTO ESCREVO UM TEXTO NOVO - 2 - (Breve desabafo)


PARA HOMENS COM ÓDIOS TORTOS, A FÚRIA DAS MÃES

Em muitos textos anteriores me reportei à questão da natalidade/Hannah Arendt: TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO VIVAS OU POR NASCER SÃO NOSSA RESPONSABILIDADE.

Frequentemente isso parece se aplicar apenas às crianças pobres, abandonadas, desvalidas, abusadas, etc...

Do alto dos 60 anos que completarei em novembro, MUUUITA gente já "virou criança" aos meus olhos, claro.

Alguns rapazes do tal programa CQC têm a idade de meus filhos.
Alguns (como meu marido é o comediante Paulo Carvalho do 'Comédia em Pé') eu tive o prazer de conhecer.
Meu filho mais novo - aliás - é da área de comunicações; identificação inevitável, imediata...

Não sou de assistir muita TV, não; mas assisti ao de segunda feira, porque soube que a comediante Carol Zoccoli, de quem gosto muito (para quem não sabe, além de gente finíssima, ela é filósofa!) está concorrendo a entrar para a equipe do programa (o tal do 'oitavo CQC'), e estou torcendo por ela.

No meio do programa, um dos rapazes estava numa cerimônia governamental qualquer, e chamou José Genuino.
Só CHAMOU; não fez piada alguma (e precisaria?...)

O olhar de ódio envenenado deste Sr. direcionado ao rapaz foi tão gratuitamente obsceno, que me horrorizei...
Mau-olhado; péssimo olhado.
Ele só olhou, ODIOU, e saiu batido; como fazem os "espertinhos" que sabem ter culpa-no-cartório, projetam nos outros suas próprias dívidas, e fogem (covardes, claro).

O que é aquele... 'ser-mais-ou-menos-vivo' para olhar daquele jeito para quem quer que seja?...

A primeira coisa que veio na minha cabeça, é que poderia ser um de meus filhos ali, recebendo aquele olhar nojento, daquela pessoa torpe e peçonhenta, daquele criminoso, em liberdade apenas por ser acobertado por conchavos ridículos e doentios.

A segunda, foi "...se eu vou num aeroporto amanhã e dou de cara com esse criminoso cara-de-pau, eu enfio a mão na cara dele, ele nem vai entender porquê, e a violenta para todos os efeitos serei eu!..."

A fúria das mães emergiu imediatamente, como já aconteceu em váááááárias outras situações. Porque eu deveria pretender apresentar 'atestado-de-santa' para alguém?... Não o tenho, nem quero.
Assumo-o, e não fujo, não!...

Ele também tem (teve?) mãe; com ela, certamente eu conseguiria me entender; quem sabe ele levasse até um puxão de orelhas depois que eu e ela papeássemos?...

Tenho MUITA piedade pelo período em que ele foi preso, torturado, etc, etc, e até gratidão por ele no passado ter pegado em armas contra a tirania...tirania da corrupção que ele parece curiosamente ter adotado depois (cada um 'pira' com o que pode)...

Nada disso ('piração' alguma) justifica 'o conjunto-da-obra' que veio depois, e MUITO MENOS aquele olhar que talvez tenha passado despercebido da maioria, mas EU VI; e me horrorizou de tão mau.

Acredito que vou deixar muitos de vocês - visitantes - por sua vez horrorizados comigo, pensando:
"...Ué! Ela também 'pirou'? Ficou frívola de repente?!... Que motivo mais 'besta' para ter fúrias maternas despertadas!..."

EM TEMPO: Também não sou vacinada contra a frivolidade; frivolidade com inteligência costuma dar um sambinha bem-bom, aliás... Nem contra pirações...

Desabafo porque foi apenas um momento recente, que acredito ser um exemplo tão bom quanto outros "mais nobres" (?!), daquilo que é você começar a entender que todo jovem é um pouco "seu filho" também, conhecendo-o ou não (o 'olhado em questão' eu NÃO conheço ainda!).

Sempre resta a esperança que TODOS vão - um dia - começar a pensar o mesmo com relação a todos os filhos de-todo-o-mundo; ao SEU filho inclusive, na sua falta ou ausência.

Ah, quem me dera eu conseguisse cuidar de cada criança com quem cruzo nas ruas... Nem todo momento é frívolo!
Que meu trabalho me leve a fazer o plausível por algumas...
Que minhas reflexões me levem (e levem outros) a começar a pensar em todos os filhos como se seus/nossos fossem, nas ruas, nos lares, nos palácios, nas instituições, no Planeta.

AGUARDEM O PRÓXIMO TEXTO SOBRE MASCULINIDADES!

Ilustração: Anatol Wladyslaw - Cabeça n. 3 - 1967

ENQUANTO ESCREVO UM NOVO TEXTO - 1





A Fran, do blog "FAZ DE CONTA" (ex "Delitos do Pensamento") me mandou gentilmente os quatro selos acima, que muito me honraram.

Pelo que eu entendi, faz parte do ritual "blogueiro" repassar os selos que você recebe para alguns coleguinhas selecionados.

Well, como já seleciono prá chuchu os Blogs que adiciono e visito, não conseguiria fazer uma "lista" de blogs "merecedores" dos selos acima. TO-DOS os merecem.

Assim, repasso, com prazer, a todos os que frequento. Adicionem, please!

Adoraria dar, junto com os selos, um 'rolsroice', uma cobertura em Paris, férias na Grecia... Mas, como no momento não é possível, lá vão os selos...

O que está acima, que veio do blog Pensamentos que voam da Silvia para a Fran (que me repassou) vem com a perguntinha : "Por que você é amiga da Primavera?"
Well, como NÃO SER?... É uma estação que implica num ritual de renovação com o qual é impossível não compactuar... Bonito, gotoso e cheiroso.

O segundo, pede que se responda o que significa "cultura num blog"
; well, no mínimo buscar estar refletindo com o que o Mundo "expira" ao nosso redor em seu conteúdo; já está de bom tamanho...
Quem os adicionar, deve responder também, ok? Ritualisticamente...

NOVO TEXTO EM DESENVOLVIMENTO! Aguardem!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

INTERVALO MUSICAL : GAROTOS, ("versão II – O outro Lado"), SEGUNDO LEONI


“Seus olhos e seus olhares, milhares de tentações....

Meninas são tão mulheres...seus truques e confusões...

Se espalham pelos pêlos, boca e cabelo, peitos e poses e apelos....

Me agarram pelas pernas...certas mulheres

- como você - me levam sempre onde querem!


Garotos não resistem aos seus mistérios, garotos nunca dizem não...

Garotos como eu sempre tão espertos, perto de uma mulher

são só garotos...


Seus dentes e seus sorrisos mastigam meu corpo e juízo...

Devoram os meus sentidos, e eu já não me importo comigo

Então são mãos e braços, beijos e abraços, pele, barriga e seus laços...

São armadilhas e eu não sei o que faço,

aqui de palhaço, seguindo os seus passos...


Garotos não resistem aos seus mistérios, garotos nunca dizem não...

Garotos como eu sempre tão espertos, perto de uma mulher

são só garotos...”


(“Garotos II – O outro lado”)


http://www.youtube.com/watch?v=hFJljUyEJ3c


Driblando a dificuldade que os (garotos?) seres nascidos com sexo masculino têm de debater SOBRE si mesmos ENTRE si mesmos, a Arte, a Cultura, e (por que não?!) a Cultura de Massa (um VIVA ao Pop de qualidade! Ele EXISTE!) vão exibindo-pontuando a mudança das coisas, da ótica humana sobre suas próprias questões, ao longo do tempo.


O universo musical quase faz disso “um esporte”...


...”O ser homem e o ser mulher nas canções de Lupicínio são, antes de tudo papéis sociais e culturais. As diferenças e as semelhanças entre os gêneros são apontadas pelo compositor, mas nos dois procedimentos o homem sempre se apresenta como exemplo mais bem acabado, a partir do qual a mulher se situa. Ela é medida segundo o padrão de perfeição masculina: inversa ao homem, é, portanto, menos perfeita. Afirmam-se então a superioridade e a dominação do homem sobre a mulher”... (M. Izilda S. de Matos e Fernando A. Faria; ‘MELODIA E SINTONIA EM LUPICÍNIO RODRIGUES – O Feminino, o Masculino e suas relações’; Bertrand Brasil, 1996; pág.133 e 134).


Exemplo do parágrafo acima?


“...Homem que é homem

faz qual o cedro

que perfuma o machado que o derrubou...”


ou:


“...Se alguém que ama de verdade

serve de riso p’rá humanidade

é um covarde, um fraco, um sonhador...”


ou ainda:


“...Estas palavras que estou lhe falando

têm uma verdade pura, nua e crua

eu estou lhe mostrando a porta da rua

p’rá que você saia sem eu lhe bater...”


e como se não bastasse:


“...Joguei uma jovem ao rigor dos caminhos

a trilhar sobre um monte de espinhos,

vejam só a maldade que fiz;

e quando a encontrei, assim abandonada

pus-me a rir dessa pobre infeliz...”


Lupicínio Rodrigues era “mau”, um “vilão”? Não, era um artista, que cantava o tempo (anos 40/50) em que vivia...


Se mera vilania fosse, como curtir a grandeza do humor de Ary Barroso, que nos anos 30 sem cerimônia alardeava


“Essa mulher a tanto tempo me provoca!

Dá nela, dá nela...”?...


Na virada dos anos 50 para os 60, Dolores e Maysa chegaram, “deram uma situada musical” na rapaziada.

“Coincidência” ou não, a bossa nova emergente logo em seguida foi transformando mulher em florzinha, em Chapeuzinho Vermelho que levava lobos maus pelas respectivas coleiras, e...na “COISA” mais linda que existe, para a ira de outra autora:


...”No entanto, se os meninos da bossa nova foram moderninhas, alterando a batidinha do sambinha, em compensação a poeticazinha, referente à mulherzinha, eles retiraram dos baús dos vovozinhos.

Reafirmaram a máxima filosófica da Idade Média, relacionando a existência da mulher à essência natural das flores...

O discurso sobre a mulher era terrivelmente antiquado e, algumas vezes execrável...” (Maria Áurea Santa Cruz; A MUSA SEM MÁSCARA – A imagem da Mulher na Música Popular Brasileira; Rosa dos Tempos, 1992; pág.60 e 61)


Exemplo?


“COISA mais bonita é você

Assim justinho você

Eu juro

Eu não sei por que você

Você é mais bonita que a flor

Quem dera a primavera da flor

Tivesse todo esse aroma de beleza...” (maiúsculas minhas).


Mas, lembra também a mesma autora:


“...Em oposição à maioria dos ‘rapazes de bem’ do movimento bossa-novista (musicalmente voltado para os universitários representantes da casta intelectual nacional) surgiu a ‘jovem guarda’. Assim chamada por conta do programa de televisão veiculado em várias emissoras do país, a nova onda provinha do talento artístico de rapazes suburbanos que se encontravam num barzinho da Tijuca, bairro de classe média da Zona Norte do Rio...

Por incrível que pareça, no discurso dessa turma sobre a mulher, até que o tratamento era mais ‘maneiro’. Fomos promovidas do reino vegetal para o animal. Éramos agora comparadas a um bicho felino, domesticado e dengoso...

Em compensação, a garota moderna ganha mais firmeza, destacando-se por seu jeito destemido, seguro, e mostrando a que veio. Sem nenhuma distinção dos rapazes do seu tempo, manda tudo que é retrógrado para o inferno...” (Maria Áurea Santa Cruz; A MUSA SEM MÁSCARA – A imagem da Mulher na Música Popular Brasileira; Rosa dos Tempos, 1992; pág. 62 e 63, negrito meu).


Exemplos?


“...Um dia, gatinha manhosa,

eu prendo você no meu coração;

quero ver você fazer manha então...”


“...Essa garota é papo firme!

Se alguém diz que ela está errada,

ela dá bronca, fica zangada;

manda tudo p’rô inferno

e diz que hoje isso é moderno...”


Já no livro “Eu não sou cachorro não” de 2002, Paulo Cesar de Araujo dá voz aos (precipitada, preconceituosa e provincianamente) chamados “cafonas”, entre eles Odair José, que declara lá:


“...O que rolava na MPB era o namoro do portão sob a luz do luar. Eu vim falando de cama, de pílula, de puta, de empregada doméstica, porque essa é a realidade do Brasil Eu sou um cantor da realidade. Então é por isso que eu me tornei um artista polêmico e a censura começou a me proibir”...


Agora que lembramos tudo isso, voltemos ao nosso simpático Leoni.

Ele não coloca mais "padrões de perfeição" em homens ou mulheres (como Lupicínio), não quer "dar" vingativamente em ninguém (como supostamente Ary), não chama ninguém de vegetal ou animal, ou cai em hiper-realidades talvez rasteiras.

Ao contrário do que o título indica (poetas estão aí para fazer metáforas, não é?) , como veremos, não o vejo infantilizando DE FATO o Homem.


Ele expõe, com a grande simplicidade e generosidade dos bons trovadores, uma conversa consigo mesmo, QUE É TUDO QUE O HOMEM CONTEMPORÂNEO TEME / DESEJA (diz a psicanálise que um sentimento não existe sem o outro, e eu continuo gostando dela e priorizando-a).


Isto é, TUDO O QUE O PLAUSÍVEL DIÁLOGO ENTRE AS CATEGORIAS DE GÊNERO PRECISA PARA deixar de “ser garoto” E SE DESENVOLVER.


Expõe também, talvez para o desgosto de muitos patriarcalistas/patrimonialistas, a condição de ser um “ser-que-precisa-pode-tem-o-direito-de” se desenvolver.


Não são “garotos” que não cresceram porque não quiseram ou eram incapazes.

Houve (e há) toda uma cultura que maliciosamente evita que eles desenvolvam sua reflexão sobre si mesmos, em processos de intralocução e posterior interlocução com seus iguais.


Enquanto homens não conversam consigo mesmos, e consequentemente com seus iguais, não conquistam AUTONOMIA real, concreta: permanecem meio Pinóquios (o boneco-GAROTO), meio fantoches, facilmente manipuláveis por quem tenha volúpia de poder; eles existem...


A única “arma” plausível para neutralizar as iniciativas destes psicopatas eternamente de plantão é a CONQUISTA gradual (igualmente eterna) de AUTONOMIA.


As “meninas-já-mulheres” que seduzem, guiam, levam onde querem, são MUSAS, e não "moças-más", no modelão "mulher-fatal" (mesmo que elas existam, e eventualmente apareçam na vida de alguém...).


TAMBÉM NÃO são a suposta “feminilidade” que alguns julgam que os homens deveriam desenvolver.


São MUSAS da TERNURA que não se precisa perder jamais ao olhar para o Mundo, para a vida da VIDA, para o OUTRO, para a CRIAÇÃO.

Essa TERNURA não deveria parecer ser privilégio de mulheres!

É privilégio de HUMANOS, de HUMANOS AUTÔNOMOS.


Como lembrava frequentemente minha querida Hannah Arendt, ser “do-mal” é “moleza”; não exige reflexão alguma...

Já ser “do-bem” dá um trabalhão; exige reflexão e – conseqüente e inevitavelmente – AUTONOMIA.


Em algum lugar dentro dele, Leoni SABE disso.


Afinal, como sempre gosto de lembrar, poetas das letras, das tintas, do som, ousam quebrar o já famoso silêncio masculino (especialmente direcionado para as questões de intimidade consigo mesmos e com o Outro): não temem a turbulência, o estado da paixão, a 'loucura' emocional que tantos filósofos apontam, há muito tempo, como um caminho reflexivo profícuo, e do qual andamos meio carentes.

Não temem (e como poderiam?) nem as MUSAS (de Apolo), nem as MÊNADES (de Dionísio)...


Volto a lembrar outra coisa que repito (e repetirei): Creio num MASCULINO com referencial MASCULINO (ainda a desbravar?), tão AUTÔNOMO quanto o FEMININO, e com RENOVADO PROJETO PRÓPRIO.


Ah, então MULHER é a princípio um ser que reflete, e é compulsoriamente “do-bem”?


CLARO QUE NÃO! Patriarcalismos e patrimonialismos NÃO SÃO PRIVILÉGIO MASCULINO; infelizmente mulheres patriarcalistas-patrimonialistas abundam igualmente...


Daí a “moleza” que é há para os psicopatas de plantão, ávidos de poder manipulativo, em guiar a boiada da sociedade de massa (ou sociedade-espetáculo-de-mau-gosto) para o que a gente vê: uma sociedade bélica, imediatista, que desmerece a Natureza, o Pensamento, a Arte, o Estudo, a REFLEXÃO, a AUTONOMIA, a ALTERIDADE, etc...


Gilberto Gil e seu “superhomem” ? Nosso ex-ministro já tem quem fale dele o suficiente; aquele abraço para ele...


Chico César, que já foi mulher, nós o sabemos?

Minha questão é o HOMEM COM NOVO REFERENCIAL MASCULINO E AUTÔNOMO.

Abraços para ele também, uái...


Mas os “GAROTOS” de Leoni são sementes desse HOMEM reflexivo e autônomo que já brota por aí, filho de pais-homens que já tocam seus filhos (especialmente seus meninos) com menos homofobia, que já conversam com seus filhos (especialmente seus meninos) orientando-os (com exemplo, discurso e prática responsáveis) a minimizar a repetição de seu ancestral e famoso silêncio (o interior e o compartilhado) sobre intimidades.


Eles se auto-declaram irremediavelmente guiados pelas MUSAS-TERNURA, que estão no nosso imaginário; não no imaginário “feminino” ou “masculino”, mas à nossa disposição, no imaginário HUMANO.


Um homem que – em breve – terá mais a dizer sobre si mesmo.

Que não precisará se limitar a dizer, para se identificar, que “ser homem é não ser criança, não ser mulher, não ser gay”, como pontuou Elizabeth Badinter em sua obra.


Esses GAROTOS são “os meus quindins”; os “plausíveis netos queridos” dos meus (levadíssimos e inquietos) sessenta anos de idade.


Ilustração: Foto do LEONI, claro!

domingo, 12 de julho de 2009

MASCULINIDADES E RELIGIOSIDADES

OBS.: “Repesquei” uns três fragmentos de um texto que está bem mais abaixo, sobre o sexo de deus; se alguém encarar a leitura desse novo exercício de capítulo aqui, e tiver interesse, desça até lá depois, ok?...Se der preguiça de ler tudo, que tal ir consultando os subtítulos, e ler pedaços?...

***

Creio já ter, nos textos anteriores, deixado clara a minha DESCRENÇA NA IMPECABILIDADE.

A ética mora na BUSCA, na BRIGA interior; o ponto principal dessa busca e dessa briga é BUSCAR, a cada segundo, UMA ÓTICA severamente CRÍTICA, e BRIGAR, a cada segundo, CONTRA a submissão ao SENSO COMUM, à “massa obediente”, à “galera”, à “patota”... à frequentemente adestrada “BOIADA humana”...


Tradição, Patriarcalismo, Patrimonialismo e Populismo: sempre de braços dados?

Algumas mulheres, como a representante da Teologia Ecofeminista no Brasil, a Irmã Ivone Gebara, consideram que um “Deus Pai” seria “alguém que jogaria CONTRA ELAS, MULHERES“, inclusive nas instituições religiosas:

...”O Deus fora de nós era apresentado como Todo-poderoso e ao mesmo tempo pai. O Deus fora de nós tornava-se facilmente a Lei que nos julga a partir de mandamentos ou de preceitos preestabelecidos ditos como verdades sobre Deus e sobre sua vontade. A imagem de um Deus fora de nós podia facilmente ser identificada à imagem do homem como legislador dos comportamentos da mulher. Daí a submissão da mulher e da religiosa em particular aos pontos de vista do clero ou dos teólogos sobre aquilo que era de foro interno ou pertencia ao domínio da vida cotidiana...

...O Deus presente em nossa interioridade, era frequentemente vivido como uma Lei interna que nos levava a contrariar nossa vontade e a nos submeter a outras vontades"...

...Nesta reflexão estou procurando acentuar mais um lado da moeda para fazer ressaltar a necessidade de uma postura mais livre e respeitosa da realidade da Mulher...”

..."O Deus presente em toda a parte, para além de sua realidade de fé, era também vivido numa perspectiva de coação, ou seja, de uma divindade que a todo instante está a observar, exaltar ou condenar nossos atos. Muitas mulheres viviam mais uma experiência de medo de Deus, o que as tornava ainda mais oprimidas...”

...”Além disso, inconscientemente talvez, os homens da instituição religiosa sentem-se mais próximos da divindade projetada como masculina pela cultura patriarcal. Por isso, em nome da tradição, dificultam qualquer reflexão que possa questionar suas imagens teológicas e temem qualquer partilha efetiva do poder sobre o sagrado. Submetem as mulheres e estas se submetem (nas instituições religiosas), muitas vezes com evidente prazer, à mesma domesticidade vivida no lar “... (Gebara, I.;1990 p.22 e 23, e 1992, p.46 e 47; parênteses e negritos meus).

Enquanto isso, alguns homens que também unem as questões religiosas às de gênero, como o Psicanalista e Rabino H. Eiberg-Schwartz, consideram que um “Deus Pai” seria “alguém que jogaria contra ELES, HOMENS“:

..."Ao compreender a imagem de um Deus masculino como um símbolo que gera conflitos para os homens, sigo certos impulsos contidos em escritos feministas contemporâneos sobre gênero" ...

..."Uma divindade masculina gera vários tipos de tensões para os homens e para a masculinidade. Estes são conflitos que têm sido amplamente ignorados nos recentes escritos sobre religião. A masculinidade é uma construção simbólica em conflito com si-mesma. E, como o feminino, o masculino humano é confrontado por uma divindade que é "outra", embora de modo diferente do que é para as mulheres. A projeção masculina, então, não é de modo algum tão direta e não - problemática como muitos intérpretes pensam ou desejam. A masculinidade é ameaçada pelas próprias construções que parecem inicialmente torná-la possível, e os seres humanos do sexo masculino são diminuídos e ameaçados pela projeção que legitima suas posições sociais e seu poder"... (Schwartz, H.E.1994, p.32, 33, 35; negrito meu).

Outras, profissionais de diversas áreas, todas feministas (algumas neo-pagãs) norte americanas, priorizam o debate sobre um “Deus Pai” ser “alguém que jogaria CONTRA TODOS”:

..."Uma parte do profundo mal - estar do sonho masculino são suas projeções, que fazem com que o homem nunca encontre a verdadeira identidade da natureza ou das mulheres. Em suas projeções psicológicas sobre a natureza ou as mulheres, os homens têm utilizado sua imaginação simbólica masculina para projetar sobre as mulheres tanto um status (inferior) quanto qualidades (passiva, emocional, sexualmente receptiva assim por diante). Foram essas projeções da imaginação simbólica masculina que, incorporadas em mito, religião, e papel social, mantiveram por milênios a verdadeira identidade e o poder femininos "no armário" da opressão. A mesma projeção e a mesma opressão foram feitas com relação à natureza. Os homens projetaram qualidades femininas na natureza”...

..."Estou perturbada pelo fato de que hoje uma parte da imaginação simbólica feminina esteja dando continuidade a simbolizações masculinas da natureza, antigas e inadequadas"...

"...Nos círculos da Nova Era, muita gente está adotando de forma não crítica a hipótese Gaia, mesmo que em certos aspectos críticos ela seja fruto dessa imaginação masculina velha e cansada..."(Dodson Gray, E.; org. por Nicholson, S.; 1993, p. 287 e 288; negrito meu).

Exemplifico as possibilidades de debate - aqui - com pequenos trechos de apenas três autores, mas a bibliografia sobre essa discussão já é vastíssima! LOGO, eu - que não tenho como afirmar sequer “se deuses existem” - passo a ter ao menos a certeza que a masculinização ou a feminização projetadas em imagens de deuses, e em seguida reintrojetadas em nós, mobilizam pensamentos, sentimentos, comportamentos, íntimos e públicos, de maneira eloqüente e significativa.

Agravante: sabemos que há novos (e futuros) meninos e meninas cujas próprias vidas, cuja própria sobrevivência, depende DESSA identificação, desta definição imagética do “DIVINO” e suas conseqüências (Somália, Sudão, Faixa de Gaza, Afganistão, Caxemira, etc)...

Há comportamentos íntimos que alimentam comportamentos públicos: catequeses baseadas ora em mera educação tradicionalista, ora em persuasão com direito a lavagem cerebral, ora em franca violência; associações político-econômicas-bélicas justificadas pela religiosidade, etc.

Todos estes comportamentos têm (ainda) enigmática, discutível, “qualidade civilizatória”.

Pergunto: entre as chamadas Maiores Religiões Tradicionais (cristianismo, judaísmo e islamismo) onde estão as propostas religiosas - por exemplo - para utopias plausíveis que “religuem”, colaborem, (de fato) em processos de desreificação e coesão social, como promete melifluamente a palavra RELIGIÃO? Certamente que não estão na meia dúzia de interesseiras atividades assistencialistas que AINDA predominam!...

LOGO, com isso, falo de ética; e pergunto mais: como lidar com justiça, liberdade, igualdade, diferenças, etc., especialmente quando ESTA lida precisaria começar no próprio universo da religiosidade escolhida (envolvendo seus segmentos íntimos e públicos), se esta depende de decálogos e tabus ancestrais, muitas vezes cinicamente impostos, conduzidos e explorados?

A imagem do Deus do Catolicismo e dos Cristianismos, do Judaísmo e do Islamismo assume (opta por) esta fálica - (quem sabe antes falida?) - imagem de “Pai” patriarcal / patrimonialista.

Quando o padrão da Tradição é o patriarcal, tende a vir carregado com imagens de “Pais / Patronos / Patrões / Soberanos”, tendendo igualmente a aderir ao retrato de uma crise, que aparece, também, em diversas (outras) instâncias humanas; por exemplo: em regiões em crise organizacional, onde emerge repentinamente um “líder” populista, um “papaizão-do-povo” que - supostamente - vai “botar ordem na casa” (sabemos o quão frustrantes, desastrosas e perniciosas costumam ser também aí as consequências...).

Frequentemente (em todas essas situações) é como se todos os seres ali envolvidos fossem se “desalfabetizando” do EXERCÍCIO DE SE RESPONSABILIZAR (“papaizões” tanto da terra quanto do céu ‘tudo resolvem para nós’, ‘eles é que sabem o que é melhor para nós’, etc...).

Digo que uma coisa é “gerúndica” quando ela acontece na “eternidade plausível”: no “aqui e agora”.

DEUS / DEUSA / DEUSES existem?

Digamos que existam (a metáfora é uma coisa que ‘existe’, afinal); têm sexo / gênero definíveis?...

Por quem? Para quem? A quem ainda serve isso?...

Hans Jonas (único homem, o único amigo, a “ter o topete” de apelidar Hannah Arendt: “Hannah, a ousada”) prefere, como reflexão, perguntar em “O PRINCÍPIO VIDA - FUNDAMENTOS PARA UMA BIOLOGIA FILOSÓFICA” (Editora Vozes, 1972 / 2004), “QUE TIPO DE DESEJO TERIA EMERGIDO NO INORGÂNICO, GERANDO ALI O ORGÂNICO”? (porquê, quando e como?), fazendo não um exercício de fé, mas sim uma espécie de “psicanálise do Big Bang”...

Pergunta esta que aqui (por motivos óbvios de espaço e tempo) está grosseiramente resumida por mim...

...”Não se deve pedir aos deuses senão o que convém a corações mortais. É preciso ter o olhar fixo nos próprios pés, para nunca esquecer sua condição. Não aspires, minha alma, a uma vida imortal; pelo contrário, exaure o campo do possível”...( Pítica, 3,59 -62: Píndaro, citado por Brandão, J.; 1992, p.130) .


Se o domínio da autonomia sobre a própria sexualidade for um “desafio” feminino, seria o domínio da autonomia sobre a própria intimidade / vida subjetiva, um “desafio” masculino?

Quando me preparava para mais uma pesquisa sobre masculinidades, esta com apoio acadêmico, tomei conhecimento de outra pesquisa que estava em andamento em outra universidade (ainda não publicada!) da Antropóloga Dra. Helena Theodoro, auxiliada por sua mestranda, a médica ginecologista e homeopata Mariana Maldonado.

Esta pesquisa mostrava que as mulheres educadas no Candomblé não só crêem transitar melhor no campo da sexualidade (cujo exercício não impõe culpa de espécie alguma), mas também, posteriormente, dispensam recursos como a reposição hormonal ao chegar à menopausa, que é declarada como ”praticamente assintomática e estimulante à prática sexual na maturidade dessas mulheres”, como descrito pelas pesquisadoras.

Intuindo que aquele “filão” de reflexões podia ir além, assumi o compromisso de fazer algum trabalho paralelo, investigando o universo do comportamento masculino.

Isto deflagrou o desejo de desenvolver uma pesquisa com homens “pós-modernos”, cujo “recorte” (recorte da afirmação de sua pós-modernidade) dependesse da religiosidade dos mesmos.

A livre escolha da religião define (e/ou é definida por) outras escolhas identificatórias, e certamente vale a pena colaborar na sua investigação, na medida em que possa nos informar ainda mais sobre o leque de identificação específico que alvejamos: a identidade masculina, ou as MASCULINIDADES.

Não falta bibliografia que assinale o cruzamento do “caldo patriarcal/patrimonial” com a religiosidade (como vimos acima), e do peso mitológico e semiológico que uma imagem prioritária de um “Deus Pai único e soberano” imponha às questões identificatórias e comportamentais de gênero.

Realizei, assim, na época um estudo de caso, entrevistando cinco homens que decidiram seguir a religião Wicca (não tradional, escolhida reflexivamente, independente de orientação familiar ou por modismo circunstancial: seriam as exigências para que identificassem uma religiosidade pós-moderna).

Quanto os resultados, adiantaria apenas que minha amostra me induziu à uma confirmação da contemporânea mobilização masculina para alguns pontos que brotam do tema da inclusão do universo íntimo no processo decisório do universo público, ao menos entre estes homens com um “perfil pós-moderno” confirmado (ali).

Saí das entrevistas e das avaliações posteriores convencida de que a educação das crianças de fato os mobilizavam com um renovado grau de comprometimento, assim como as providências necessárias a manutenção do equilíbrio ecológico.

As informações verbais sobre estes assuntos extrapolam o registro formal para conquistar, em mim, registro de confiabilidade profissional e pessoal: “me convenceram”.

Já em relação a outros assuntos gestados no universo íntimo:

- desejo significativamente intenso de aprofundar a compreensão sobre o conteúdo

e as fronteiras da própria subjetividade, e/ou da própria masculinidade;

- desenvolvimento do hábito de exercício de avaliação dos demais perfis masculinos

familiares ou próximos, verticais (pai, avô, etc.) e/ou horizontais (irmãos, amigos,

colegas, etc.;

- renováveis possibilidades de busca e manutenção de apaixonamentos e/ou de

conjugalidades, entre outros),

, não “me convenceram” na mesma medida...


Religiosidades, nossas reflexões prioritárias, e Pós-Modernidade.

Convivemos com tradições religiosas que honram prioritariamente apenas um “Pai Divino” (cristianismo, judaísmo, islamismo, etc.), e com outras que reúnem “Mães e Pais Divinos” em seus panteões (candomblé, taoísmo, paganismos diversos; Wicca por exemplo).

Logo, religiões tradicionais (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, por exemplo) ou não (Candomblé, Taoísmo, por exemplo), estando associadas - em especial - a atitudes tradicionais/patriarcais, deixaram de me interessar naquele momento, na medida em que as especiais características da contemporaneidade que buscava eram: autonomia decisória nas escolhas, a ruptura com a Tradição, e a busca de alternativas para fenômenos como o patriarcalismo, por exemplo (no nosso caso, especialmente).

Em território brasileiro o Candomblé está instituído há tempo suficiente para que os indivíduos possam já ser influenciados na sua eleição por suas famílias, o que acontece com freqüência cada vez maior, como registrado recentemente inclusive pela imprensa, a partir de matérias sobre o último Censo/IBGE, como a de “O Globo”, na página 13 do Caderno “O País” de 19 de maio de 2002.

Assim, embora coloque "Mães e Pais Divinos" lado a lado em seus altares, não se identifica mais com o teor de capacidade de independência de tradição familiar no momento das escolhas.

Após visitas a templos Taoistas, verifico que (mesmo com “Mães e Pais Divinos” em seus altares), não só há predomínio de monges do sexo masculino, como toda a administração segue clara relação hierárquica ainda vertical (aliás, alguns deuses masculinos são chamados sintomaticamente de “Generais”); assim, o modelo patriarcal de comando masculino, e o de verticalização hierárquica, são tão obedecidos quanto nas religiões tradicionais patriarcais.

Além disso, é uma religião oriental, e (desde os anos 60) instalou – se uma atração/fascinação do "Ocidente" pelo "Oriente" (num primeiro momento um espontâneo e legítimo movimento de sedução pelo "diferente", pelo "Outro" que satisfaz a curiosidade e a fome de “novidade”).

Mas isso acabou sendo (como muitas outras coisas) captada pelos responsáveis pela comercialização das idéias cooptadas pelos “vendedores oficiais de modismos“ empresariais e da mídia.

Assim, eu correria o risco de ver a imposição da tradição familiar na eleição de uma religião ser substituída - neste caso - pela pressão cultural patriarcal (vertical, “por decreto”), inclusive a relacionada ao comando do Mercado, interessado nos modismos, e - no caso - no rentável "modismo orientalista".

Quanto o Budismo, seus próprios seguidores fizeram questão de deixar claro que é antes um sistema de pensamento que uma religião; seria um LONGO debate à parte, que traria um complicador teórico/prático à pesquisa.

Eu precisava de REFLEXIDADE AUTÔNOMA.

A religiosidade mais indicada (entre 2002 e 2003), a princípio, estava entre as emergentes/reemergentes, as neo-pagãs, a Wicca: era ainda pouco conhecida, ainda pouco divulgada, confundida (com razão?) freqüentemente com sincretismos e esoterismos diversos.

Agora (2009) me parece já cooptada a ser transformada em (mais um) modismo (rentável), para muitos...


Para quem (mesmo assim ainda) não conhece religiosidades emergentes/reemergentes como a Wicca, e nem sabe que elas são “primas” dos movimentos feministas, GLBT, e Verde (daí continuar interessante simbólica e comparativamente para estas reflexões).

Pagã, panteísta, desenvolvida na clandestinidade por séculos, foi em suas expressões mais antigas perseguida pelos religiosos tradicionalistas (como na Inquisição, ou em Salem , por exemplo) .

Voltou a ser especialmente examinada, e comentada discretamente, sem repressões violentas, entre o final do século XIX e o início do século XX, por grupos que sempre mesclaram artistas e membros de grupos herméticos (Arthur Machen, Aleister Crowley, Lady Frida Harris, William Butler Yeats, Algernon Blackwood, McGregor Mathers, Wynn Westcott, Arthur E. Waite), e “retomada” como teoria e prática regular nos anos 40/50 especialmente por Gerald Gardner (entre outros), com seguidores que se multiplicam, com identidade própria (o que esta religião permite e estimula), até hoje.

Muitos dos meus entrevistados optaram, dentro das opções wiccanianas, pela Tradição Thelêmica de Aleister Crowley, que a partir dos anos sessenta foi “redescoberto”, enquanto sua trajetória era comparada com a de William Reich!

Crowley chegou – curiosamente - a se corresponder com Fernando Pessoa...

Nos anos 40/50, na Grã - Bretanha, o movimento se deveu a alguns estudiosos de religiões comparadas e artes (clientela típica envolvida na história da criação e desenvolvimento da Wicca), preocupados com o caráter excludente e hiperracional das religiões tradicionais.

Eles reorganizaram dados convergentes sobre os mais antigos rituais de fertilidade, fúnebres, e escatológicos, e mitologias diversas (especialmente a grega, a celta e a escandinava, mais próximas dos primeiros organizadores da idéia).

Foi em seguida que veio o grande pico da emergência dos movimentos feministas, que - num movimento de identificação de projeto - acolheram o resultado teórico/ritualístico deste estudo, ora simbolicamente (como simpatizantes), ora como concreta opção religiosa.

A emergência dos movimentos ambientalistas e ecológicos/“Verdes” passou pela mesma experiência identificatória com a Wicca, assim como o movimento GLBT.

Esse curioso “congraçamento emergencial de identidade de projetos” da Wicca com os atores sociais que foram emergindo no século XX, a associa mais uma vez não só à Pós-Modernidade, mas também às nossas prioritárias reflexões, aqui.

Na Wicca não há “texto sagrado definitivo”, “templo localizado ou definitivo”, “sacerdotes supremos”, nem “rito único ou definitivo”.

Sua prática foge não só do “discurso verdadeiro”, mas também da “formalização verdadeira”, ou de “hierarquias verdadeiras”. Não só há diferentes “Tradições”, propostas pelos primeiros “desbravadores”, ou por mitologias de antigas culturas (celta, viking, etc.), mas também seus membros são livres para introduzir suas reflexões (ou hibridismos) particulares em suas práticas da Arte (como é curiosamente chamada a prática de suas atividades!).

No Brasil, ganhou fôlego significativo (como em todo mundo) na mesma medida em que algumas facções do feminismo e do Movimento Verde foram sendo implantados, especialmente a partir dos anos 80, pelos herdeiros da “busca espiritual” típica dos anos 60/70.

Através de uma Deusa tripla (o teor revolucionário de juventude feminina, a feminilidade sedutora somada ao acolhimento maternal, e a sabedoria das avós, freqüentemente associadas às quatro fases da Lua), e de um Deus duplo, o “Cornífero” (a juventude masculina de um sensual guerreiro músico, e a experiência de um xamânico velho mestre curador, freqüentemente associados ao Sol nascente e ao poente), e de cinco elementos (ar, fogo, águas, terra e éter/sopro de inteligência e criatividade humanas) cultua - na verdade - o meio-ambiente e um ecossistema, que honra a inclusão da própria face humana (o “éter”) como o quinto elemento de seu panteão.


Pecados, Impecabilidades, Perigos, Curiosidades.

..." Vale a pena registrar que, para o Malleus, pecado é praticamente a mesma coisa que "carnalidade", especialmente o prazer sexual. Esse "apelo da carne" é supostamente "encarnado" na mulher e constitui o cerne de todo mal"...(Whitmont, E.; 1982, p.144).

Pecados de mulher, pecados femininos, pecados interditados ao homem e/ou ao masculino; aos olhos - é claro - do contingente conservador, reacionário, filicida.

...”Só a ressurreição da carne me sustenta. É ela que constitui a última utopia humana, o projeto essencial ao qual se refere e se alimentam todos os projetos”...(Pellegrino, H.; 1980; p.101da revista P. Ciência e Profissão, n. 4 de 2001).

Mas, ao verificar que:

- Quando falo de “masculino”, posso estar falando (para alguns) de “impecabilidade”, e

outros conceitos que aceitariam a “etiqueta de Apolíneos”;

- Se, quando falo de “feminino”, posso estar falando (para outros alguns) de “pecados”,

e outros conceitos que aceitariam a “etiqueta de Dionisíacos”,

, pode se tornar muito esclarecedor lembrar que estarei pensando também em ESTÉTICA: estilísticas, comportamentos individuais e/ou de grupos sociais íntimos e públicos que “se exibem” performaticamente, transitando na sociedade sem medo nem do patético nem de uma pequena cota de pura diversão, retratando à nossa volta a tragédia, o drama, a comédia, climas emocionais ora “clean” , ora “noir”, etc., “se” auto-retratando, exibindo estilos desse viver, retratando em si mesmos suas escolhas, e exibindo - as. Estética, mesmo onde a Arte não aconteça.

Lembro mais uma vez (para quem não prestou atenção) que, curiosa e coincidentemente, a prática da Wicca é também chamada de “Arte”...


Afinal, o que querem os homens?...(Ou “marcusemente”: O que querem os desejos dos homens?...).

...”O que os homens desejam? Em certo sentido, a resposta tem sido clara e, a partir do século XIX, compreendida por ambos os sexos. Os homens querem status perante os outros homens, conferido por recompensas materiais e associado a rituais de solidariedade masculina. Mas, aqui, o sexo masculino interpreta mal uma tendência - chave na trajetória do desenvolvimento da modernidade. Os homens procuravam obter a auto-identidade no trabalho, e - em geral, devemos sempre acrescentar - não compreenderam que o projeto reflexivo do eu envolve uma reconstrução emocional do passado para projetar uma narrativa coerente em direção ao futuro. Sua confiança emocional inconsciente nas mulheres era o mistério cuja resposta eles buscavam nas próprias mulheres, e a busca pela auto identidade ficou dissimulada nesta não reconhecida dependência. O que os homens queriam era algo que as mulheres, de certa forma, já haviam alcançado; “... (Giddens, A.;1992; p. 71).

A. J. Drew (2002), um sacerdote Wiccaniano norte-americano que decidiu refletir sua religião (e outras questões) compartilhando-o com os homens, diz que (diante de todos os equívocos conseqüentes do patriarcalismo que tem visto) embora seja heterossexual, prefere ter, neste momento de sua vida e da história, como arquétipo masculino (já que reconhece que ainda não sabe responder o que é exatamente o “masculino”), Brandon Teena, a quem - por isso - dedica o livro “Wicca para homens”.

Brandon, é o transexual retratado por Hollywood no filme “Meninos não choram”.

Para o autor Wiccaniano, essa é a imagem mais próxima de alguma coisa empática que ele gostaria de descobrir ter como “masculinidade”, inclusive porque Brandon, ao morrer, não implorou pela própria vida, e sim pela vida de pessoas que o tinham ajudado antes.

...”Os Wiccas geralmente vêem o Criador como externo e interno. Todas as coisas, inclusive os seres humanos, são parte do Criador. Porque todos os homens (sexo) e mulheres (sexo) têm tanto características masculinas (gênero) quanto femininas (gênero), é mais fácil para os homens encontrarem os princípios masculinos de sua alma (Deus), e mais fácil para as mulheres encontrarem os princípios femininos de sua alma (Deusas). Isso acontece porque os homens têm mais atributos masculinos que femininos, e as mulheres mais atributos femininos que masculinos. Permanece a questão óbvia: O que é masculino?... (Drew, A. J.; 2002 , p.36).


Culturas: na Fé, Traduções plausíveis.

Os fenômenos (individuais e/ou coletivos) que giram ao redor das instituições religiosas tradicionais ou não, (feliz ou infelizmente?) mobilizam muitas coisas além da “expressão de fé” e/ou do “êxtase religioso”.

Um recente e local exemplo prático, é a conseqüência da diferente postura da Igreja Católica e dos Pentecostais diante de seu “público”, e a diminuição de “público” para a primeira, e o aumento para os segundos, ao menos circunstancialmente; patrimonialismos em pauta...

...”nos anos 70 e 80, a participação em igrejas evangélicas também produziu certos efeitos políticos. Enquanto as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base, movimento católico) politizavam categorias religiosas’, no mesmo período (e muito mais localizadamente), pentecostais ‘religiogizavam categorias políticas’ e entravam em lutas sociais ‘em nome de Jesus’”... (Novaes, R. R.; 2001, p. 78; negritos meus).

Toda instituição religiosa é - afinal - constituída não por “marcianos” ou semelhantes, mas por seres em processo de humanização movidos pelas mesmas falhas, qualidades, preferências, ideologias, diferenças, temperamentos, etc. que se exibem em quaisquer outros grupamentos humanos.

Logo, inevitáveis paixões, equívocos, rivalidades, “adesões ideológicas”, “facções” e/ ou “dissidências” (discretas ou não) emergem de qualquer categoria hierárquica de quaisquer lideranças em todo grupo religioso.

...”uma religião é um sistema solidário de crenças seguintes e de práticas relativas a coisas sagradas, ou seja, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem na mesma comunidade moral, chamada igreja, todos os a que ela aderem”...”a idéia de religião é inseparável da idéia de igreja, faz pressentir que a religião deve ser coisa eminentemente coletiva”...(Durkheim, É.; 1989, p. 79).

Nas religiões tradicionais a hierarquia existe (assim como toda a disputa mais ou menos surda pelos cargos que ela distingue), é verticalizada, com foco prioritário nas suas lideranças masculinas; os templos que abrigam os membros envolvidos são edifícios concretos, cujo fausto (patrimonialista) maior ou menor reproduz freqüentemente o que acontece nessa hierarquia; logo, há uma instituição em jogo, cuja sobrevivência precisa ser financeiramente tão providenciada, quanto o é a fogueira de vaidades que costuma queimar ao redor do poder envolvido na manutenção de todo “o prédio” de quaisquer instituições humanas.

O conceito “Tradição” parece amparar com suporte supostamente sólido, especialmente se pensamos nesta Tradição em relação aos grupos religiosos: passado respeitado, estabilidade. Mas:

...”Nesse novo mundo, as tradições foram colocadas a descoberto e a sociedade parece exigir que elas se expliquem, contrariando a clássica definição de Max Weber, segundo a qual, a tradição se explica por ela mesma”... (Raposo, E.; 2002, p.142 e 143) .

A instituição religiosa igualmente (é claro) não existe sem seu contingente de “fiéis”, “seguidores”, ou “simpatizantes”, que - por sua vez - fazem parte, também, do universo laico que habitam.

(Não esqueçamos de questionar: “gado humano”, adestrado para ser “gado humano”, pode ser chamado de “FIEL” a alguma fé ou grupo, genuinamente?...)

No momento, quaisquer fiéis de quaisquer credos, compartilham também (para o bem e para o mal) o planeta Pós Moderno e Globalizado.

...”O caráter permanentemente migratório da Pós Modernidade penetra no âmbito do sagrado e provoca um fenômeno que se caracteriza como nomadismo místico. Mesmo permanecendo nominalmente vinculado a alguma forma tradicional de culto, que em geral herdou do berço materno, a tendência religiosa do homem pós-moderno é um trânsito constante pela constelação religiosa, compondo, nessas inúmeras viagens, um sentido para a existência”...( Queiroz, J. J.; 1996 , p. 16 e 17; negritos meus).

Planeta cuja Política, cuja Economia, cuja Cultura, procurei descrever até agora, embora especialmente preocupada com uma fatia específica de sua Psicossociologia: a Identidade Masculina.

O conceito “Tradução”, interpretado como “transporte entre fronteiras” (como diria Salman Rushdie), parece amparar com melhor qualidade quaisquer tradições, inclusive as religiosas, arejando-as e permeabilizando-as, o que - teoricamente - vai lhes proteger bem melhor das “chuvas e trovoadas” de migrações, demais abalos e anomia, característicos de nosso tempo reflexivo, instável, talvez caoticamente criativo, garantindo (ao menos provisoriamente? ) sua sobrevivência.

...”Desponta um novo caminho da religião que, em muitos aspectos, se afasta dos moldes tradicionais. Aderindo à corrente que interpreta a Pós Modernidade como fase de transição e um período inacabado da história humana, como uma fase heurística, na qual a humanidade está em busca de algo novo, enigmático, acredito que a religião e o sagrado também se encontram numa virada de mudanças, um tempo que afirma ainda muitos valores tradicionais, ao lado de novas posturas, tudo isso num clima em que emergem muito mais paradoxos e contradições do que certezas”. (Queiroz, J. J. , 1996, p. 15; negritos meus) .

Catolicismo, Protestantismo e Pentecostais, Judaísmo, Islamismo, Budismo, Induismo, Espiritismo, Umbanda, Candomblé... em território brasileiro, são neste momento definidos como tradicionais: tem disputadas hierarquias, templos (mais que) concretos, finanças e negócios próprios, conforme a mídia que detém no momento podem se tornar “a religião da moda”, e freqüentemente são “passadas adiante” aos descendentes pela própria estrutura familiar.

O universo igualmente (ainda) patriarcal da Política transita e dialoga com este mundo religioso sem a menor cerimônia, inclusive quanto a comunhão com suas finanças; escândalos que mesclam templos, política e dinheiro eclodem com razoável freqüência.

Numa freqüência nem tão menor assim, ora sexo, ora suas per-versões, também costumam se fazer presentes neste milk shake, do qual tenho certeza não ser sequer necessário fazer citações jornalísticas ou policiais que o comprove “academicamente”.

Os próprios teólogos contemporâneos assumem que a situação clama por reflexão.

...”Diante deste mundo, que profanou o sagrado e abriu cicatrizes profundas no coração humano, o homem não tem em quem se apegar. As instituições civis e religiosas do passado não lhe oferecem segurança. A política e o poder embrenharam - se num mar de corrupção. O sistema econômico despiu o véu e o halo da ilusão religiosa , e se manifesta em toda a sua crueldade”...(Queiroz, J.J. 1996 , p. 19; negritos meus) .

Acredito que o tema do perigoso “namoro” entre Estado e Religião, e de seu conseqüente “filho”, o Fundamentalismo, que tem ocupado o dia à dia mundial, inclusive o brasileiro, cada vez com maior freqüência.

Merece cuidadosa reflexão a perigosa caracterização confessional do possível ensino de religião na rede pública (em detrimento de uma linha ecumênica), e a (conseqüente) desproporção brutal de reserva de vagas para um próximo concurso público (que chegou a ser suspenso por um Desembargador) para estes professores de religião, onde uma fatia suculenta seria destinada ao catolicismo e aos evangélicos, enquanto 26% seriam destinadas “às OUTRAS” religiões...

Se a linha adotada para este específico e delicadíssimo curso, e os critérios de seleção do concurso, já mereciam reflexão, esta “curiosa distribuição” aponta manipulação desrespeitosa até mesmo da inteligência do cidadão, denunciada (feliz e surpreendentemente) por esta recente e bem vinda (mesmo que por enquanto frustrada) instância judicial.

O concurso e a estrutura do curso continuam sendo debatidos.

A imprensa escrita e falada noticiou que o Juiz norte americano Alfred T. Goodwin, em junho de 2002, (como uma luz na escuridão que o Presidente Bush também parece impor à política e especificamente à educação norte americana, como consta na minha Introdução), considerou inconstitucional o uso da palavra “deus” no juramento de lealdade aos EUA, feito todas as manhãs nas escolas públicas, a partir da solicitação de um pai ateu.

...”a intolerância pode ser definida como uma atitude de ódio sistemático e de agressividade irracional com relação a indivíduos e grupos específicos, à sua maneira de ser, a seu estilo de vida e às suas crenças e convicções”...”de caráter religioso, nacional, racial, étnico e outros”...(Rouanet, S. P.; 2003; p.10, Coleção Cadernos Mais! da Folha de São Paulo) .

Também a imprensa começa a dar maior atenção ao movimento auto-intitulado “Bright” (inteligente, brilhante; usado conscientemente como substantivo, seguindo o modelo auto-denominativo afirmativo/positivo assumido anteriormente pelo movimento “gay”, buscando a mesma respeitabilidade e identidade coletiva que o outro grupo conquistou), composto por ateus, agnósticos, racionalistas em geral (alguns cristãos, inclusive), que agora se organizam, como nunca antes haviam conseguido, preocupados pelo mesmo problema; eles fundaram uma página na Internet: www.the-brights.net, horizontalizada, sem chefias ou ortodoxia articulada por manifesto, deixando de se definir como “godless”, ou “sem - deus”, como no passado, e que seria uma forma de identidade negativa .

Assinale-se mais uma curiosidade: em 2005, como a TV norte americana mostrou em alguns programas de entrevistas, quem respondia ali pelos ateus organizados era uma mulher...

Assim como (até!) as religiões ditas tradicionais aprenderam a conviver, dialogar, e a fazer os exercícios da razão e da humildade frente a Ciência, precisarão aprender a fazer o mesmo diante do Estado e da Lei laica, da transformação do comportamento humano, para o arejamento e permeabilidade que garantirão sua sobrevivência;

...”Kul eid ao intá bel khair”...“Tenha prosperidade em todas as comemorações”! (Saudação para um feliz Ramadã).

Pela etimologia, “simbólico” (junção ou união de elementos mesmo quando separados) é o antônimo de “diabólico” (disjunção, dissociação): logo, a “salvação” de quaisquer religiões estará no DIÁlogo com seus próprios DIAbos, os internos em primeiro lugar, mas também com o OUTRO, de maneira a renovar (repermeabilizar?) o espaço para a simbologia que talvez (re)desenhe o caminho para o Sagrado.

Para sobreviver, o que significa inclusive ter e manter adeptos, alguns representantes de algumas religiões tradicionais têm buscado não só novas expressões de suas crença e prática, mas também tentativas de diálogo com as outras religiões,

...”Enquanto a tolerância religiosa é um precursor do Estado constitucional democrático, a própria consciência religiosa tem de se sujeitar a um processo de aprendizado”...”o nexo entre a tolerância religiosa e a democracia se torna acessível a nós por dois lados: pelo lado da política, que ajusta seu fundamento legitimador a um pluralismo de visões de mundo, e pelo lado da religião, que liga as leis da sociedade secular ao seu próprio ‘ethos’”... (Habermas, J.; 2003, p.13, Coleção Caderno Mais! da Folha de São Paulo; negrito meu) .

, num misto (hipercomplexo?) de simulacro e verdade quanto à re-inclusão do tema da alteridade na própria construção da identidade (e conseqüente escolha) religiosa .


Religiosidades humanamente inevitáveis?... Ecumenismo como um movimento revolucionário e/ou de resistência.

A “face simulacro”, à qual me refiro acima, aparece, por exemplo, na dúbia afirmação deste teólogo contemporâneo, certamente cheio daquelas “boas intenções” que - segundo a famosa expressão popular - “levaram muitos aos infernos”:

...”estou convencido de que somente quando a Teologia tiver resolvido os ‘conflitos clássicos’, que arrastamos desde a Reforma, será capaz de criar, teórica e praticamente, ‘perspectivas para o futuro’ e de arriscar, partindo da ‘ecumene’ cristã, dirigir-se para uma teologia das grandes religiões do mundo”...(Kung, H.; 1991, p.22 e 23).

A primeira pergunta (óbvia) a fazer é: POR QUE CRISTÃ?

Um Ecumênico “legítimo” (onde existe, afinal, “autenticidade” em nossos dias?!), incluiria a pagã, ou os pagãos, e/ou quaisquer (outras?) expressões religiosas que não tivessem um Pai Divino e um Cristo (um “Cristo” já distanciado de “Jesus”, alardeado por muitos como deturpadamente patrimonialista e fundamentalista) como centro ou modelo!

Outros”, contemporâneos da Reforma já existiam, continuam a existir, e são tão afetados (e capazes para o debate) pelo que parta dos grupos cristãos quanto estes, em relação ao que aconteça a partir da religiosidade mundial.

Que, no passado, tenham sido deixados de lado, esquecidos, excluídos, e mesmo perseguidos e executados, compreende - se; é história.

Hoje, isso não se justifica mais.

Quem sabe tenham contribuições preciosas para a resolução dos conflitos ditos “cristãos”?

Porque as “propostas de Projeto” deveriam sistematicamente partir dos cristãos, ser “patrimônio cristão”, cristianismo que detém – não o neguemos - em seu próprio leque interno, um significativo contingente de defensores do discurso tolerante, democrático, avesso ao patrimonialismo mesquinho, e simpático a alteridade e ao diálogo?

O “lapso” (digamos assim) do teólogo é assustadoramente significativo, diante de tantas manipulações obscurantistas, aparentemente a nos cercar.

Em 2002, a Universidade Cândido Mendes promoveu um seminário intitulado “Latinidade e Reforma Islâmica”. Um dos convidados foi Alain Tourraine, que - lembrando que todo movimento de modernidade vem das minorias, porque estas é que têm necessidade de afirmar alguma coisa nova - lembrou que as religiões não são incompatíveis com a modernidade.

A modernidade é que teria se descoberto incompatível com a confusão da pluralidade religiosa, na medida em que esta desafia a esperada estabilidade moderna; mas, como cremos (como ele) que somos pós-modernos, reverenciamos as Questões, mesmo enquanto elas estão em aberto, e promovendo uma circunstancial instabilidade.

O Centro Loyola da PUC (por exemplo) é um centro de referência de excelência, tanto do permanente debate (hipercomplexo?) que sirva ao arejamento do próprio universo católico, quanto do Ecumenismo propriamente dito, como sinônimo de foco de resistência às faces conservadoras, fundamentalistas e de simulacro dentro (e ao redor) da Religiosidade, mantendo a todo custo a reflexão e o debate vivos.

Mesmo na laica UERJ, enquanto o Decano do Centro de Ciências Sociais foi o Professor José Flavio Pessoa de Barros, nos anos 90, líderes de todos os grupos religiosos com representação no Brasil se encontraram anualmente na Universidade para debater temas do interesse do país: cidadania, saúde, comunicações, etc., levando em conta a ramificação desses temas dentro de suas Religiões, Igrejas, Templos, e contribuições conjuntas plausíveis.

Na ocasião, tiveram a oportunidade de se articular, ecumenicamente no discurso e na prática responsáveis, pois os encontros duravam uma semana, desenvolvendo estes interesses dentro das próprias comunidades religiosas separadamente, e gerando freqüentes desdobramentos em conjunto.

ONG’s preocupadas com as questões relacionadas às expressões de religiosidade e Identidade, (como o ISER, esta sob a batuta no momento de Regina Novaes), mobilizam a articulação de várias iniciativas no mesmo sentido.

A ECO 92, e seus desdobramentos (por exemplo através do Rio+10), foram exemplos públicos concorridos, e alardeados pela mídia internacional, que provam o poder não só de resistência, mas da própria mobilização de Projetos, que o Ecumenismo também é capaz de provocar, a partir da (no mínimo poética) religiosidade humana.

...”para ele, Rorty, (o sagrado) está numa esperança futura, num estado de coisas em que os homens fossem livres e tanto quanto possíveis iguais”...(Rouanet, S. P.; 2002 , p.11, Coleção Cadernos Mais! da Folha de São Paulo).


Nossos orgasmos, nossos insights, e nossas epifanias (estas ora estéticas, ora propriamente ditas religiosas), nascem da mesma fonte (da face saudável do duelo entre Eros e Tânatos), ao pé da (curotrófica?) IMPONDERABILIDADE que nos cerca, afinal!

Em primeiro lugar o Sujeito, agora, escolhe o DESTINO de seus SENTIMENTOS (desejos?) RELIGIOSOS. Está, teoricamente, livre, inclusive, para aderir “religiosamente” a si mesmo, e ficar responsavelmente satisfeito com isso...

Aliás, Max Weber (1980) “apostava” na secularização a partir da modernidade, mas os eventos pós-modernos têm encaminhado nossa religiosidade hipercomplexamente, para uma secularização ainda MAIS cheia de meandros, que parecem querer traduzir para “a linguagem de nossos dias” coisas (sabedorias? Sentimentos transcendentes?) antigas(os) , arcaicas(os).

...”o acesso à espiritualidade traduz - se, em todas as sociedades arcaicas, por um

simbolismo da Morte e de um novo nascimento”.. (Elíade, M . ; 2001, p.156).

Entre EROS E TANATOS a IMPONDERABILIDADE está posta...

Enquanto o público das “religiões oficiais” foi minguando ao longo do século XX, práticas religiosas ditas “alternativas”, com freqüência baseadas em mitos e ritos antigos (arcaicos?), foram abraçadas particularmente por jovens, e classificadas a princípio, genericamente, como “coisas de new age”.

A maioria entre nosso contingente de intelectuais – por um bom período - se desinteressou não só de se manter hostil às expressões de religiosidade tradicional (como chegou a fazer no século XIX), quanto de se envolver criticamente com estas ou com as “novas” formas que foram emergindo; mantiveram-se indiferentes, a não ser para deixar claro que aquilo era “um assunto menor, mais uma lantejoula na Cultura de Massa, e estamos conversados”...

A partir do momento em que expressões fundamentalistas mostraram o tamanho do estrago que suas garras estavam conquistando, aí sim, ‘religiosidades voltou a ser um “tema nobre”.

O que (ao menos) parece concreto, é a fome de Sagrado que o hiato perplexo que preenche o intervalo entre o nascer e o morrer continua provocando nos seres em processo de humanização:

...”O homem toma conhecimento do sagrado porque este ‘se manifesta’, se mostra como algo absolutamente diferente do profano”... (Elíade, M.; 2001, p. 17).

A idéia da incompatibilidade do secularismo que envolvesse uma religiosidade eroticamente envolvida com uma renovada noção de Sagrado já estava em declínio, especialmente desde os anos 80, mas este se acentuou a partir de eventos que nestas últimas décadas foram “somando”.

Isto talvez tenha culminado no choque (universal?) diante da violência do ataque simbólico do “11 de setembro”, inclusive no que diga respeito às “TORRES” remeterem antes a um “FALO”, simbolicamente exposto como VULNERÁVEL, e efetivamente atacado, que a uma nação, ou mesmo ao que nos habituamos a denominar (excludentemente?) como “O Ocidente”.

Naquele trágico e especial momento, a “Bela Adormecida Utopia” pareceu despertar novamente, no tapa, despreparada, se sentindo obrigada a redescobrir o que fazer da vida...

:...”É da utopia, do mito e das crenças partilhadas que as religiões retiram tanto a

legitimidade para estar junto a grandes faixas da população quanto a sua própria

convicção de competência. Ao mesmo tempo, as identidades e pertencimento

religiosos não são feitos apenas com argumentos de ‘foro íntimo’: a religião se

inscreve na cultura e freqüenta o espaço público, é ‘locus’ de agregação”...(Novaes,

R. R.; 2001, pág. 63 e 64).

A hostilidade da maioria se voltou de tal maneira para as expressões fundamentalistas, que o espaço para a reflexão sobre uma “volta à religiosidade plausível” (e para as “Morineanas Utopias Plausíveis”) voltou a se abrir: toda a Cultura, e (inevitavelmente) sua “irmã má”, a Indústria Cultural, voltam a abraçar os temas da religiosidade e do Sagrado, ou da Religião novamente associada ao Sagrado, mesmo que secularizada.

Livros, filmes, teatro, intervenções performáticas, música, quadrinhos, a moda, a imprensa, a mídia: todos abrem os braços ao Sagrado, aos deuses, à fé, aos Projetos de expressão de religiosidade, especialmente aos que deixem bem claro seus renovados interesses, especialmente os direcionados à alteridade respeitosa.

Em “Tipologia do Ascetismo e do Misticismo” item 2. de “Rejeições Religiosas do Mundo” Max Weber (1980) distingue dois estilos para se “buscar a salvação”, e podemos observá-los alternados em (como sempre, agora) “releituras contemporâneas”:

- “ascetismo ativo” (acompanhados ou não de religião, adesão a hábitos como o naturalismo, macrobiótica, crudigivismo, ou o uso da homeopatia, da medicina chinesa ou ayurvédica, etc.), e

- “a possessão” (acompanhadas ou não de religião assumida, valorização de experiências nos Rituais umbandistas ou semelhantes, Rituais do Santo Daime, no Ritual da Jurema, nos Hare Krishna, com Yoga, retiros para meditação Budistas ou Sufis, etc.), ambos já – como Weber previa – sem perder a referência de “estar-no-Mundo”.

...”A passagem psicológica da posse de Deus para a posse por Deus é sempre possível

e com o místico é consumada”... ...”contrastamos, como renúncias do mundo, o ascetismo ativo, que é uma ‘ação’, desejada por Deus, do devoto que é instrumento de Deus, e, por outro lado, a ‘possessão’ contemplativa do sagrado, como existe no misticismo, que visa a um estado de ‘possessão’, não ação, no qual o indivíduo não é um instrumento, mas um ‘recipiente’ do divino”...

...”o contraste diminui, porém, se o ascetismo ativo limitar-se a controlar e superar a malignidade da criatura na própria natureza do agente”...”também é reduzido se o místico contemplativo não chega à conclusão de que deve fugir do mundo, mas como o ascético voltado para o mundo, permanece nas ordens do mundo (misticismo voltado para o mundo)”... (Weber, M.; 1980, p. 241 e 252).

É fato que a religiosidade não é mais necessariamente “fenômeno coletivo” ou “indissociável de Igreja”, como Durkheim, E. (1989) seria capaz de apostar todas as suas fichas; isto era correto há nem tanto tempo atrás assim.

O último Censo aponta como um dos crescimentos mais significativos o número de pessoas assumidas como “sem religião embora religiosas”; isto é, inúmeras pessoas identificadas com suas particularíssimas reflexões - e conseqüentes particularíssimas práticas - sobre religiosidade, que não sentem a menor necessidade de “aderir” a alguma Igreja instituída tradicionalmente, no melhor estilo “Hay gobierno, soy contra”...

Já o misticismo e o ascetismo de Weber, M. (1980) ampliaram e mesclaram ainda mais seu leque de expressões, minimizando ainda mais o seu “contraste” e, tanto dentro de religiões tradicionais, quanto de religiosidades não tradicionais, o que significava “buscar a salvação”, para muitos está bem mais próximo do oriental conceito Zen de bem estar imediato, que de uma teleologia culpada /culpógena por princípio, por pecados, originais ou não). ...”um código moral simples e benevolente :

"Sem prejudicar ninguém, realize a sua vontade’”(Dunwich, G.; 1997, p. 12)...

; esta, uma versão feminina de posicionamento wiccaniano diante do assunto.

Já a masculina, recomenda também:

...”Você mesmo muda a todo instante. Em vez de seguir cegamente as instruções de outra pessoa, defina as suas próprias pela observação e pelo questionamento”...”A Wicca é uma religião do indivíduo.”...(Drew, A . J.; 2002, p.25 e 53) .

Deixemos claro que não são "posicionamentos-privilégio" da Wicca; ela está aqui como um exemplo simbólico e comparativo, escolhida pela proximidade circunstancial que tive com o tema. Talvez a novidade maior esteja na possibilidade (reflexiva, livre e responsável) de exposição pública de todos esses (ainda assim tendenciosamente migratórios) processos, e as questões íntimas, como as de gênero, que são exemplos das prioridades temáticas que transitam agora muito à vontade (ou MUITO mais à vontade que antes) nos meandros reflexivos desses processos, tangenciando significativamente a face pública dessas questões.

A Ong Rawa, a organização das mulheres afegãs, ao invés de recorrer a alguma prerrogativa ou atitude baseada no Corão, apostou em transformações (“migrações”?) comportamentais enviando uma candidata ao Concurso Mundial de Misses, o que pode nos remeter imediatamente ao (arcaico traduzido?) mito/rito das respeitáveis (e cheias de poder) Prostitutas Sagradas dos templos de Ishtar, no sumério “embrião de Espaço Público” ancestral: ...”Sim, eu sou a primeira e a última. Sou a honrada e a desdenhada. Sou a meretriz e a sagrada”... (Prece a Ishtar; Qualls - C. N.; 1990, p.11).

A feminina tática afegã lembra também a estratégia de Sherazade, salvando a si mesma, outras e outros...

Na verdade, também nisso, aconteceu a tradução de um trânsito temático que por um bom tempo sobrepunha a história da sexualidade e da religiosidade humana: os rituais iniciáticos da puberdade (e/ou do pós parto), e a formação de sociedades secretas femininas.

...”É o acesso à ´sacralidade´, tal como ela se revela ao assumir a condição de mulher,

que constitui o objetivo tanto dos ritos iniciáticos de puberdade como das sociedades

secretas femininas”...(Elíade M. 2001; pág 157).

Prioridade agora, por exemplo, NÃO é mais “A ORIGEM” (a tradição familiar, étnica, colonialista, etc.) da escolha religiosa, MAS “O FIM OU PROJETO”: o que vai ser pensado, vivido, construído através daquela Religião (coletiva, numa Igreja), OU daquela religiosidade (individual, privadamente).

Prioridade NÃO é mais “A FORMA” herdada da tradição, MAS “O CONTEÚDO” selecionado, ESCOLHIDO, com o qual o “novo ser religioso” vai se sentir livre (e reflexivamente responsável) para debater.

Sim: homens também experimentaram e experimentam (e como!) o trânsito temático que sobrepõe a história da sexualidade e da religiosidade humana: os rituais iniciáticos da puberdade (e às vezes, ainda, os de pós parto), ora já “traduzidos”, ora não.

...”pertencer a sociedades masculinas implica já uma seleção: nem todos aqueles que

sofreram a iniciação da puberdade farão parte da sociedade secreta, embora todos o

desejem”...O mistério da iniciação revela pouco a pouco ao neófito as verdadeiras

dimensões da existência: ao introduzí - lo no sagrado, a iniciação o obriga a assumir a

responsabilidade de homem”...(Elíade M. 2001; pág. 156).

É - inclusive! - possível que as questões do masculino se tornem um dos debates mais (re)alimentados a partir de agora, TAMBÉM referenciado ao cruzamento do ambiente religioso, ritualístico, da experiência renovada do Sagrado, com as novas Questões do mundo Pós Moderno, que incluem a “Utopia Religiosa Plausível”.

Lembra Elizabeth Badinter em “XY-Sobre a Identidade Masculina”, de 1992, falando sobre a história dos rituais de iniciação dos meninos, desde a tradição de muitas tribos (o que, em muitos lugares do planeta, continua acontecendo na forma original; nós, os pós-modernos adotamos ‘metáforas’ muito ‘elegantes’, mas não menos dolorosas...):

...”Os pais, homófobos, temem os contatos muito estreitos com seus filhos”...

...”O objetivo comum desses ritos é mudar o estatuto de identidade do menino para que ele renasça homem”...

...”Verdadeira inversão do primitivo estado fêmea”...”comporta três etapas, cada qual mais dolorosa que a outra: a separação da mãe e do mundo feminino; a transferência para um mundo desconhecido; e a passagem por provas dramáticas e públicas”...

...”O estoicismo moral e físico é aprendido com o tempo e as provas. Para isso o jovem é com freqüência confrontado com situações de extrema crueldade...”(Páginas 70 e 71; negritos meus).

Poucos meninos cresceram sem ouvir de alguém que “HOMEM NÃO CHORA”...


Porque mesmo as religiões tradicionais precisam ter seu esoterismo? No Catolicismo a Tradição Templária, no Judaísmo a Cabala, no Islamismo a Tradição Sufi...

Afinal, a paixão pelo Mistério é uma sedutora face da estética, ou da poética, e por que não também da face política, do ser em processo de humanização.

É no Mistério do culto simbólico ao casamento da Natureza (freqüentemente associada a feminino), com o Espírito Civilizatório Humano (freqüentemente associado a masculino), que os esoterismos de quaisquer origem ou linha se encontram (comungam?) com a Wicca, a ponto de ser confundidos com ela.

Inclusive na hora de debater gênero:

...”A bruxaria oferece às mulheres oportunidade de adorar um divindade feminina”...

...Parece, a princípio, mais difícil entender porque os homens querem se tornar feiticeiros”...

”...A gratificação é igualmente compensadora para eles, eis a verdade. Há a liberdade de velhos conflitos, por exemplo, como a luta entre a sensualidade e a espiritualidade. O Deus Cornífero, divindade masculina dos feiticeiros, não acrescenta ao homem uma imagem de imediata superioridade (ou inferioridade) masculina. Pelo contrário, a imagem é de sapiência natural e selvagem. Tão poderosa como é poderoso um veado macho ou um carvalho; não como um ditador ou um míssil nuclear. Isso exige o sacrifício de velhas idéias”..(Beth, R.; 1997, pág.15; negrito meu).

Vide nossa ilustração para este texto, acima...

Todo esoterismo (metaforicamente ou não), desde o paleolítico, como o da Wicca, tem seu “Hieros gamos”, seu Ritualístico Casamento Sagrado entre um Princípio Feminino e um Princípio Masculino, que permite que “brinquemos poeticamente” de nos investir de divindade, para gestar/garantir, com nossas próprias mãos, (nossa pateticamente face Dr. Frankenstein?) a renovação de nossos “votos existenciais”: celebrar nossa relação com a pateticamente imperfeita “criatura” que chamamos o “nosso dia-à–dia”.

A perversão do patriarcalismo foi o primeiro fenômeno a talvez inaugurar uma ótica diferente da permeabilidade que parecia ter sido ensaiada no politeísta paleolítico como defendem alguns especialistas, e, mais tarde, a face política do cristianismo foi se construindo talvez como “uma das inevitáveis conseqüências” (nefastas?) desta primeira perversão: quem sabe uma “concretização politizada” (ou sintoma?) desta perversão?

Em 1233 o Papa Gregório IX instituiu o Tribunal Católico Romano, a Inquisição, e em 1320 o Papa João XXII declarou oficialmente que a Religião Antiga dos pagãos constituíam um movimento herético e “uma ameaça hostil”, tornando a perseguição que se lhe seguiu o que hoje se reconhece como um doentio massacre sádico descrito por livros, filmes e textos teatrais famosos (“O Nome da Rosa” de Eco, U.,2003, é o que melhor desvenda, por exemplo, o sentimento de ameaça que o patriarcalismo tem de ser desqualificado pelo humor, pelo riso).

Curiosamente, antes de uma pessoa ser considerada herética, ela precisa ser cristã, e os pagãos nunca foram cristãos... Estes, aliás, ainda costumam lembrar que:

...”É errado uma bruxa querer converter alguém. Essa é uma regra de nossa religião”...(Beth, R.; 1997, p.21).

A partir deste grave hipócrita processo decisório bélico, milhões de pessoas foram perseguidas e eliminadas com requintes de perversidade, e até o início do século XX tivemos (ainda!) notícias de execuções, além do constante processo de ridicularização de seus praticantes ou simpatizantes, como se fosse possível o ritual de um grupo (uma saudação à Lua Cheia) ser conceituado como “ridículo”, e os de outros (uma Missa ou um espetáculo teatral) como “não ridículos”!...

Curiosa banalidade acrítica dos julgamentos!...

Mas atenção:

Só ingênuos acreditariam que essas mãos dadas a favor da reconstrução dessa expressão religiosa “identificou, selecionou e agregou os melhores”, “os bonzinhos”, as “boas e virtuosas pessoas do planeta”, enquanto os “cristãos maus” formavam apenas “o resto dos humanos”; sempre é bom lembrar que não é bem assim; seria impossível ser assim...

Ao longo da pesquisa fui alertada, por exemplo, quanto uma pessoa auto-intitulada “sacerdote wiccaniano” em Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, cuja prática invasora e desrespeitosa já chamou a atenção, (o que traz não só o risco da reprodução de episódios da mesma pedofilia apontada, por exemplo, no catolicismo, da manipulação de menores de idade, cada vez mais identificados e interessados em “se iniciar”, mas também o risco de concretizar problemas acusatórios dos quais os wiccanianos tentam fugir há séculos), e que já está sendo refletida e discutida por grupos de religiosidade emergentes/reemergentes.

Aliás:...

”Você é livre para fazer o que quiser, contanto que, de forma alguma, prejudique alguém - nem você mesmo. (Dunwich, G.; 1997, p. 13).

Um mercado que flutua entre o industrializado e o artesanal, fruto da “saída do armário” da Wicca, e de expressões de diversos esoterismos que acompanharam esse movimento (como a poeira da cauda de um cometa que o acompanha) tem inundado todas as esquinas de quaisquer lugares: bruxas, fadas, gnomos, pentagramas, caldeirões, vassouras, velas, ervas, cálices e espadas, sinos, amuletos, talismãs, cristais, instrumentos divinatórios como baralhos, runas, I-ching, CDs com música relativa a isso, literatura relativa a isso, vestuário relativo a isso, etc...

Há wiccanianos (e/ou esotéricos) que se orgulham disso, outros que se constrangem, diante do conseqüente temor que esse outro “namoro inoportuno” (o da Religião com o Mercado) possa ser tão ou mais pernicioso para a sua expressão de religiosidade que o namoro da Religião com o Estado (há, já, um núcleo wiccaniano dentro do Partido dos Trabalhadores!), contribuindo para que voltem a ser ridicularizados e discriminados, para que “não sejam levados à sério”, como me disseram muitos deles (homens e mulheres).

Por outro lado, dependem de fato de alguns destes objetos, ora para o desenvolvimento de seus rituais, ora para sua sobrevivência cotidiana, já que este é, afinal, às vezes, o único “saber” que têm para vender...

A “tradução” de “um texto” não se faz apenas com os vocábulos “bonitos” ou impecáveis, e costuma passar por “revisões” ao longo dos anos; talvez os “sintomas” apontados acima, decorrentes desta ainda tão recente “saída do armário” dessa religião (e de outras, emergentes ou reemergentes), se refiram a um primeiro rascunho desta “tradução”, que os hoje (muitos !) jovens interessados revisarão, engajados, no futuro.

Pode ser extremamente impactante para os mais familiarizados com as formas tradicionais de expressão de religiosidade que, em pleno século 21, tanta gente “culta” (?!), como identificou o Censo brasileiro, e o mesmo têm sido identificado nas estatísticas de vários outros países, (inclusive de primeiro mundo), ande envolvida com práticas nascidas em períodos tidos como “arcaicos”.

Mesmo que tudo isso conviva com páginas de Internet, celulares tocando, e com a circulação de um fluxo de informação inimaginável há dez anos atrás, é realmente curioso que tenha se tornado possível para o ser em processo de humanização contemporâneo a tradução de sentimentos de seus próprios ancestrais, com quem ele, assim, dialoga utilizando esta escolha religiosa.

Pelo Censo, os mais preparados academicamente são os Espíritas; os menos preparados são os Evangélicos e os Católicos...

Acredito que o contingente masculino, privado pela Natureza de experimentar ciclos orgânicos que simbolizem os ciclos ctônicos tão concreta e/ou eloqüentemente quanto o contingente feminino, aguarde, ansioso, poder retomar um Sentido Poético Epifânico para seu dia à dia; seja numa postura agnóstica recheada de novos hábitos relacionados ao contato mais direto com a Natureza, e /ou com os renovados cuidados com o próprio corpo, ou ainda engajado a uma religião tradicional, ou numa não tradicional.

O feminino foi concretamente contemplado, por exemplo, com os “ciclos lunares” nos quais a Mulher pode reviver esta sua experiência através do inevitável ciclo menstrual, ou “os ciclos do plantio”, onde é dado à Mulher metaforizar bebês desejados, plantados, carregados e colhidos na terra, como o seriam em suas barrigas.

Talvez o Hieros gamos ansiado pela subjetividade do homem “pós moderno” (mesmo que em forma de silente, “quase incógnita”, essa subjetividade existe!) esteja na plausibilidade de um re-casamento de suas (próprias) faces (identidade) “jovem herói viril/velho sábio curotrófico” (“apadrinhadas” por Apolo e Dionísio?), com sua (própria) organicidade (dinâmica interna) masculina (“apadrinhada” por Ártemis?), sensações das quais o contingente masculino tenha talvez se distanciado a tal ponto, que esteja agora faminto de reaproximação, além de intuir que a “tomada de posse” de sua organicidade não pode simplesmente se mirar na feminina! Precisa de autonomia! MERECE autonomia...


Resistência com Identidade Planetária.

...”Abençoadas sejam as crianças da nova era que se aproxima, pois tudo que foi criado, pelas mãos da Deusa será delas, por toda a eternidade”... (Dunwich, G.; 1997, p. 22).

Muitos cânticos ritualísticos de religiões emergentes/reemergentes, como este, reforçam a idéia de que é questão e responsabilidade religiosas, trabalhar para que a herança de todo tipo que deixemos para os descendentes tenha boa qualidade. É uma idéia simpática, na medida em que não há quem se mobilize a RESISTIR (dá trabalho físico e mental, ocupa mais uma parcela da vida já dura, dá medo das conseqüências, etc.), a não ser que esta RESISTÊNCIA se direcione a um PROJETO:

...”E aí está posto o grande desafio: tornar a prática religiosa, além de evangelizadora, emancipadora e includente”... (Paiva, A.; 2002, p.137, negrito meu).

Vi uma matéria jornalística televisiva em 10 de novembro de 2002 no canal aberto Globo News, e infelizmente não pude anotar os nomes dos envolvidos: um indiano Budista, e um pároco Católico, na Irlanda, partilham a mesma catedral, onde montaram um ONG com objetivo ecológico, onde tanto se ouvem mantras quanto os hinos tradicionais.

O indiano afirmava crer que

...“São Francisco trouxe a deusa, (a Natureza), para o catolicismo, e que o que Jesus ensinou está para os saberes das demais religiões, como a mão direita deveria estar para a mão esquerda”...

, lembrando - a seu modo - as colocações (que endosso, como demonstrei nos dois textos anteriores) do psicoterapeuta Whitmont, E. (1982), de que sem “uma face feminina/plurisexual de deus” o “arrebatamento” para uma “renovação metafísica” (e, conseqüentemente quaisquer outras renovações) será quase impossível.

O ainda jovem autor afegão Atiq Rahimi (2002), que costuma afirmar em suas entrevistas que

...“É necessário tornar a relação com Deus erótica, se Deus é tão importante!...".

Ele é também o premiado autor do romance "Terra e cinzas", que retrata o Afeganistão dos talebãns, através de três protagonistas: um avô, seu filho mineiro, e seu neto curioso, que - aparentemente - é surdo. A narrativa traz a pergunta : é ele que é surdo, ou são os que o rodeiam que estão "sem voz" ?...

A narrativa acrescenta ainda que - se não "têm voz" - não falam do óbvio: do luto que os rodeia; e que, se não falam desse luto, não o elaboram, não o metabolizam emocionalmente; a conseqüência imediata é partir para a violência e para a vingança, provocando novos lutos, também silenciados.

Antes de se preocupar em escrever sobre as inúmeras e trágicas questões pertinentes à mulher afegã, o autor vai ainda mais longe, ao se preocupar com as questões do homem (afegão?...).

O que (pelo visto) não é silenciado, lembramos, é que vivemos um fenômeno cultural onde novos "Espaços" para a sexualidade têm sido plantados, enquanto a agressividade tem tido mais dificuldades (morais? moralistas?) para conquistá-los:

...”Podemos ser tolerantes com os intolerantes ? “...”Podemos ser tolerantes com o intolerável?”...(Rouanet, S. P. ; 2003, p.11, Cadernos Mais! da Folha de São Paulo).

Um Ecumenismo que ouse pleitear - em nome da emancipação e da inclusão delineadas por Ângela Paiva (2002), a autonomia de pensamento para quaisquer cidadãos, religiosos ou não, Projetos, com P maiúsculo, não mais encapsulados em credos ou decálogos, mas voltados para quaisquer comunidades, especialmente para a maior delas, a “Comunidade Planetária”, sem que estes Projetos roubem (apesar de seu necessariamente assertivo direcionamento) a autonomia e a autoridade do Estado e/ou da Lei laica, certamente conquistará um debate que beneficie quaisquer expressões religiosas, e quaisquer seres em processo de humanização.

...”O homem ocidental moderno experimenta um certo mal - estar diante de inúmeras

formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres

humanos o sagrado possa manifestar - se em pedras ou árvores, por exemplo. Mas,

como não tardaremos a ver, não se trata de uma veneração da ‘pedra como pedra’ , de um culto ‘da árvore como árvore’ . A pedra sagrada, a árvore sagrada não são

adoradas como pedras ou como árvores, mas justamente porque são ‘hierofanias’ ,

porque ‘revelam’ algo que já não é nem pedra, nem árvore, mas o ‘sagrado’, o ‘ganz

andere’...”(Elíade M. 2001; pág. 17 e 18; negrito meu).

Debate arejado tanto quanto a renovação de seu olhar para as Questões da intimidade, da sexualidade (e conseqüentemente de gênero), quanto permeável a acolher - por que não? - o debate igualmente renovado sobre as Questões da agressividade e da assertividade dentro da particularíssima experiência do Sagrado e da religiosidade:

...”O sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, perenidade e eficácia”...(Elíade, M. 2001; p. 18).

É o que torna recorrentemente (há séculos !) tão mobilizantes os belos relatos (mitos ?) como, por exemplo, os que contam dos poéticos orgasmos epifânicos de Santa Teresa D’Ávila, mais uma vez pesquisados recentemente pela escritora Rosa Amanda Strausz, ou os que contam ora sobre a fúria de Jesus ao expulsar os gananciosos mercadores do templo, ora sobre sua bem humorada malícia ao transformar água em vinho nas bodas de Canaã, no catolicismo; os que contam sobre a insurreição (feminista?) de Lilith enfrentando não só Adão, mas a própria divindade (patriarcalista) em pessoa, no judaísmo; os que contam sobre a generosa piedade que não excluía a bravura guerreira de Hussein, o neto do Profeta, no islamismo xiita; os que contam do trânsito entre feminidade e masculinidade da sexualmente plural divindade Oxumarê no candomblé, e assim por diante...

As religiosidades emergentes/reemergentes (Wicca, etc.) talvez sejam uma renovada face de religiosidade que esteja traduzindo mais que mitos antigos; talvez ela esteja traduzindo a (arcaica ?) história do relacionamento, do “triângulo amoroso”, que envolve o olhar do ser em processo de humanização, o Universo/Planeta habitado por ele, e a potente consciência de existir/criar.

Emancipadora e includente, se e quando bem encaminhada (sem perder o senso crítico jamais) são práticas (ora apenas reflexiva, ora religiosa) que emancipa a REFLEXÃO, a ESCOLHA, e inclui o OUTRO, o que se refere não só a alteridade entre os seres em processo de humanização, mas também aos seres de OUTRAS ESPÉCIES, ao próprio PLANETA e ao UNIVERSO que habitamos, e - é claro - AOS TEMAS (as idéias, inclusive as poéticas) que, por quaisquer motivos, sejam sistematicamente adiados(as), e/ou escondidos(as) sob os tapetes de nosso até agora (e por muito tempo) precário processo (de humanização).

É o Projeto (com maiúscula) inspirador, sim, o provável fator de atração, sedução, encantamento, adesão; inclusive quanto a plausível emergência de seres nascidos com sexo masculino que tornem, para seu próprio bem, e para o bem de toda a sociedade planetária, Atores Sociais...

Debates (hiper) complexos, impuros, imperfeitos por opção, deslocados por reflexão, híbridos, cuja tradução mal começou.

Plausíveis, embora inacab...


Ilustração: Franz Stuck - Music - 1919

quarta-feira, 8 de julho de 2009

AINDA PESQUISANDO E ESCREVENDO...e desbravando o TWITTER


http://twitter.com/CHMONTENEGRO VISITEM!

Lá, deixei a pergunta: - O quê contribuiria para uma plausível 'RENOVAÇÃO DO MUNDO'?
Será que alguém virá aqui responder?...


Ilustração: Birdman and Ladybird - Gerrit Ofringa

sexta-feira, 26 de junho de 2009

HOJE ESTE BLOG FAZ UM ANO DE EXISTÊNCIA!


CELEBRO.

O próximo texto capítulo está demorando não só por ser um "texto-capítulo" já resignado por seus raros leitores (ler na tela é dureza, mesmo), mas também porque ando estudando em dobro devido as palestras para as quais ando sendo (com prazer) convidada.

Somando isso aos textos, ao consultório, à produção do curso, e à vida da Vida, só demorando a escrever mesmo...rsrsrsrsrsrs

Aqui vai mais um "texto-de-aguardar-texto" (mais doméstico que esse aí, impossível!).
Esse, ainda mais antigo que os domésticos anteriores; foi escrito pelo aniversário do primeiro beijo que dei no meu atual marido; serve como metáfora desse aniversário aqui, não?...

ANIVERSÁRIO DE PRIMEIRO BEIJO



Há um ano você me pediu um beijo;

seu louco!

Hoje eu quis sua voz;

que boba!

Se um dia você me pedir minha

bobice,

fuja!

Numa data comemorativa - a mais próxima que houver - vou querer sua loucura!


Christina Montenegro

(em 14/11/1996!)


ILUSTRAÇÃO : Keith Haring characters (anos 80)



domingo, 21 de junho de 2009

AINDA AGUARDANDO O PRÓXIMO TEXTO-CAPÍTULO...



Já que o próximo assunto (ainda em desenvolvimento) é "Religiosidades e Masculinidades", e pela passagem do Solstício (para nós) de Inverno, em 21 de junho, compartilho mais uma coisa muito modesta, e totalmente doméstica:


A ORAÇÃO POSSÍVEL



(Para aqueles que - como eu - habitam processos de mandalas)


Minha casa tem minhas medidas,

a minha cara,

e flutua no meu mood.

Por isso ela é roupa,

curiosa e enfeitada,

por isso esconderijo:

altar, altares,

porque deus(a, es) há muitos,

porque eu sou deus(a, es).


Meu corpo tem as medidas que pode,

o jeitão que exercito,

e o clima flutuante dos momentos.

Por isso ele me veste,

comemora e lamenta,

por isso máscara:

altar, altares,

porque eu sou deus(a, es),

porque o SENTIDO é sagrado.


Deus(a, es) têm as medidas que querem,

o significado que a alma alcança,

a partitura do destino.

Por isso eles comem enfeites, comemorações, lamentos,

vomitam interrogações,

por isso exigem cavernas:

altar, altares,

porque o humano também é sagrado,

porque orar é um privilégio secreto, pessoal, intransferível,

AMÉM.


CHRISTINA MONTENEGRO

(Em 2001!)


ILUSTRAÇÃO: Frantisek Kupka - The Beginnings of Life, 1900-1903

sábado, 6 de junho de 2009

ENQUANTO PREPARO O PRÓXIMO EXERCÍCIO DE TEXTO (Sobre Masculinidades e Religiosidades)


Já que ontem foi data dedicada ao meio ambiente, lembrei também de um texto meu (total e humildemente doméstico) de 2001/2002.

Compartilho-o, como ritual preparatório do próximo (longo) texto-exercício.

O BOSQUE FOI PASSEAR EM MIM
(Ritual de Tom Jardim Carlos Botânico)

Mãe Terra me deixou pass(e)ar!
Cachoeira passando estava,
pass(e)ando e abençoando assepsias d´aura continuou.
Não só no meio do caminho, mas em toda parte,
além de pau,
tinha pedra:
minúsculas, médias,grandes, imensas;
umas roliças, outras pelo contrário,
(talvez por isso o verde gritasse tão alto sua ária);
nenhuma intransponível.

O fim do caminho, não vi; assim, retorno eternamente...
Não pisei formiga alguma.
Algum bicho pulou no lago e se escondeu,
insinuando passagens secretas para Mistérios idem.
Três passarinhos conversaram presságios comigo; bons.
Uma rosa cor-de-rosa (e gorda)
estava rilkemente
chei-rosa/pode-rosa/indeco-rosa/gene-rosa;
(estranha ímpar?...).

A brisa deixou as borboletas estressadas,
ao empurrar nuvens p´rô lado, para o sol não ficar chato;
só claro.
Erudito, só o esquilo, que
- profundíssimo –
espetou o ponto
de eterna interrogação
no ar
com seu rabinho peludo...
Seu Lobo não veio;
Ele está (a ) posto (s);
Como deve ser.

Dezembro 2001/Janeiro 2002, Christina Montenegro.

Ilustração: WALTERCIO CALDAS - Convite ao raciocício - 1978

sexta-feira, 5 de junho de 2009

PARA QUE NÃO DIGAM QUE NÃO ME PRONUNCIEI NO DIA DO MEIO AMBIENTE...





Ilustrações:
1. IBERÊ CAMARGO - No vento e na terra - 1992
2. OSWALDO GOELDI - O sol - 1957
3. LASAR SEGAL - Floresta crepuscular - 1956

JÁ QUE ACABEI DE FAZER O ELOGIO DO HUMOR NO TEXTO ANTERIOR...


ILUSTRAÇÃO: Baseado em Shepard Fairey

segunda-feira, 18 de maio de 2009

IDENTIDADES, PATRIARCALISMOS / PATRIMONIALISMOS (EM CRISE, OU NÃO), MASCULINIDADES E O PENSAR.


(Continuação e complemento do exercício de texto / capítulo anterior)

Resumo dos sub-temas desenvolvidos ao longo deste texto:

- Filosofia e Ciência

– Arte, Cultura, Indústria Cultural, Humor

– Performances / Transperformances / Estilos: profissionalmente artísticos, e cotidianos

***

"Como (...) escreveu João dos Santos, ‘histórias sem sonho são narrativas sem murmúrios nem vogais, portanto sem os sons da dor e do prazer’”. (Sampaio, Daniel; Jornal Público, Revista Pública, Portugal, de 1 de Fevereiro de 2009, sobre o Plano Nacional de Leitura - Portugal.)

Tenho falado aqui hipercomplexamente (o que é, creio, uma inevitabilidade pós-moderna) de Mal Estar, reflexão, escolhas, ética, estética, sexo, gênero, masculinidades, instituições, vida (esfera) íntima e vida (esfera) pública, e – claro – mediações plausíveis entre esses ingredientes.

Logo, falo de uma rede de temas amparada pela filosofia (e o quê não o seria?).


Uma FILOSOFIA que depende de manter a abertura a novas questões para existir e resistir; que já não precisa mais se separar de corpos e sexualidades, por exemplo.

...”Não apenas ações e relacionamentos exprimem nosso ser sexual, os quais não podemos descartar, como também a sexualidade por sua vez encarna o drama de toda a nossa vida pessoal. Nosso ser sexual não pode ser trancado num compartimento de nossa existência, mas reflete atitudes assumidas em outras dimensões de nossas vidas. Desse ponto de vista, tematizar a significação erótica da filosofia, não reduz a filosofia à sexualidade tanto quanto à existência. Ao contrário, a filosofia é entendida como a expressão e interpretação da experiência humana, que é inexoravelmente a experiência de seres sexuais”... Ao argumentar por uma orientação que aceite a atividade filosófica como se originando da mesma fonte que os sentimentos eróticos, deve-se admitir a existência erótica não como um fato estritamente biológico, natural ou como um domínio em si impenetrável à consciência. Ao contrário, a sexualidade deve ser encarada como um tema da existência, que impregna as múltiplas relações de nossas vidas, e que por sua vez reflete outros interesses ‘não eróticos‘“... (Schott, R.; 1996, p. 226 e 227; sublinhados meus).

Pensar, conceituar, só acontecem, e só se exibem, sob o amparo da filosofia.

Comungo com as aspas que a filósofa e feminista Robin May Schott coloca em “não eróticos”, em seu estudo de Kant.

Em tempo: O quanto o Pensamento ganhou de abrangência e maleabilidade a partir do momento em que a mulher começou a emergir da Academia a partir de 1930?... É uma boa pergunta, que merece um OUTRO texto só para refleti-la...


EROS: que experiência de humanização poderia ser “não erótica”? Não erótica significaria algo humano sem a vida da Vida. Eu não conseguiria listar sequer uma...

TANATOS: Edgar Morin (em 1976), lembrando que Bacon achava curioso que as performáticas pompas à morte excedessem o fenômeno da morte em si, lamenta que só estes excessos tenham talvez interessado e alimentado a sociologia durkheimiana em suas teorias sobre a morte, devido à expectativa de Émile Durkheim de separar o individual do social, de explicar o social pelo ‘social em si’, “precisando” que as condutas inspiradas pela morte fossem sociais. Mas, lembra ainda, que os esgares da dor simulada (social) pública, performática, implicam uma emoção de origem (individual) íntima.

Assim, a Filosofia faz um caminho aparentemente óbvio, PRECISANDO estar presente em nosso cotidiano também corporificado, para que o SEGUIR EXISTINDO tenha Sentido, e a BANALIZAÇÃO do SER seja evitada.

Banalização que é da ordem per-vertida (vertida para fora do lugar adequado) de Tânatos: rouba o Sentido do SER, inadequadamente.

Tânatos é (ou está) adequado, quando está posicionado de maneira à (hipercomplexamente) coexistir com Eros, ocupando o lugar de sua referência de inevitabilidade trágica.

Essa ‘alternância de poder’, ou diálogo mediador entre EROS E TÂNATOS também é plausível.

Onde EROS E TANATOS coexistem, existem Filosofia e Vida, elas são plausíveis.

Talvez seja o que os chineses chamaram de Tao: “Tao é, ao mesmo tempo, o caminho, o caminhante e o ato de caminhar“. (Máxima Taoísta).

Os resultados da instalação desse novo estilo de caminhar (seguir transitando, cumprindo o destino de ser mero transeunte em nossa tragicamente demarcada existência) – seria UMA ESTÉTICA?

Já a plausibilidade é o otimismo possível no olhar do transeunte da vida da Vida; temos aí UMA ÉTICA?

É assim que Eros, Tânatos e a Filosofia pairam sobre “a Ética e a Estética plausivelmente casadas” por mediações, que eu “PROPORIA” na pós modernidade, como comentei no texto anterior, se outros autores já o não tivessem feito há MUITO tempo atrás, sem aguardar pós-modernidade alguma (talvez semeando-a).


Sócrates morreu porque reivindicava que uma intralocução individual precedesse as decisões coletivas da Polis. Além disso, afirmava que a pura Retórica, por mais qualidade que pudesse ter, não bastava para a qualificação de nossas humanidades: a manutenção do “Estado de Espanto”, característico da singularidade individual, (e próximo do “Estado Poético”) era tão necessário quanto a Retórica; dava Sentido a ela mesma e a tudo mais, pela mediação entre as duas.

Kant, segundo Schiller em sua “A EDUCAÇÃO ESTÉTICA DO HOMEM”, não colocava o BELO no objeto, mas sim nas reflexões que ele suscitava no espectador.

Já o próprio Schiller, nesse mesmo lindíssimo trabalho seu, mostra um homem estético que também é virtuoso, sob o imperativo de aproximar a idéia de dignidade da idéia de felicidade. Perseguia um “terceiro elemento” que ligasse Razão e Sensibilidade, possibilitando essa aproximação (ou mediação).

Hans Georg Gadamer fala da Arte como JOGO, SÍMBOLO e FESTA: faz isso, pois a vê como uma experiência antropológica (sem finalidade, claro!). Três elementos mais uma vez dialógicos. Hans-Thies Lehman escreve atualmente sobre o teatro pós-dramático, o teatro da pós-Modernidade. Sobre seu trabalho sobre esse teatro contemporâneo, diz Luiz Arthur Nunes:

“....Muitos autores da vanguarda contemporânea escrevem obras em que as palavras não funcionam como diálogo entre personagens - as quais muitas vezes nem existem mais. A palavra se afirma como uma entidade autônoma. A camada de oralidade instaura-se na cena como uma corporeidade poética e sensual de alta voltagem”... “A decisão de Hans-Thies Lehmann foi de, na sua obra, deter-se fundamentalmente sobre as configurações estéticas do teatro pós-dramático, mas adverte-nos que uma análise estética envolve necessariamente questões de ordem ética, moral, política e filosófica.”... (Nunes, L.A. texto no site da editora Cosac Naify; negritos meus).

Há busca de mediações onde quer que se olhe...


A CIÊNCIA, atual “comandante da alquimia” do que conhecemos - por exemplo - sobre nosso espaço e nosso tempo, também anda buscando a mediações.

...”a maior parte dos cientistas tem estado muito ocupada com o desenvolvimento de novas teorias que descrevam ‘o que’ é o universo para se fazer a pergunta ‘por quê‘. Por outro lado, as pessoas cuja tarefa é fazer a pergunta ‘por quê´, os filósofos, não são capazes de se manter atualizados com as mais avançadas teorias científicas. No século XVIII os filósofos consideravam todo o conhecimento humano, incluindo a ciência, como campo de seu domínio e discutiam questões como a possibilidade de o universo ter tido um começo. Entretanto, nos séculos XIX e XX a ciência se tornou muito técnica e matemática para os filósofos ou qualquer outra pessoa além dos poucos especialistas”... (Hawking S.W; 1989, p. 237 e 238; negritos meus).

Na física isto aparece na construção de uma única teoria quântica da gravidade, que possa elaborar as duas grandes teorias vigentes: a da relatividade, que diz respeito ao macro, a tudo que é vasto, e a da mecânica quântica, que diz respeito ao micro, ao que é extraordinariamente minúsculo.

Assim, podemos dizer que todos os segmentos da própria vida da Vida estão, no momento (ou como sempre?), recebendo olhar similarmente direcionado de angústia humana: lembro que a leitura mais elementar do sentimento de angústia é a sensação de se sentir dividido, entre quaisquer dualidades.

No caso, “ou privilegio o micro”, “ou privilegio o macro”...

Agora isso parece representado pelo olhar à “dualidade micro/macro” (que posso comparar com a “dualidade íntimo/público”), onde o aumento da carga ansiógena também aparece, devido à ciência (isto é, estar ciente, sem possibilidade de retorno à ignorância!): aquilo que era vivido como dualidade, na verdade não é mais só isso, também pode ser uma e íntegra terceira coisa: lembro que a leitura mais elementar de ansiedade é a sensação de se sentir especialmente pressionado por exigências, mesmo que vindas ‘de dentro’.

O que existe, a terceira coisa, é a “hipercomplexidade micro/macro”, que demanda, (pressionando), como dizem os físicos em pessoa, inclusive, (nova?) teoria específica.

Ainda segundo Steve Hawking (em 1989), quando filósofos, cientistas, artistas e leigos puderem (juntos) fazer parte da discussão sobre por que nós e o universo existimos, caso encontremos a resposta, teremos o triunfo definitivo da razão humana: “teremos atingido o conhecimento da mente de ‘Deus”...


Teremos também Discursos e Práticas ligados e equilibrados por Responsabilidades.

Teremos curiosidades mantidas por tanto tempo aparentemente diversas ou duais (“Por quê? Qual o Sentido?” de um lado, e “Como fazer? Como fazer melhor? Como funciona?”, do outro), somados ou mesclados: mediados dialogicamente.

Antigas (eternas?) perguntas, plausivelmente religadas por renovadas responsabilidades dos que se dizem preocupados com o Pensar (o que deveria ser um direito estimulado em todos): “Eu que me responsabilizava por perguntar ‘Qual o Sentido?’ posso me responsabilizar também pela pergunta ‘Como funciona?’”. Ou, “Eu que me responsabilizava por perguntar ‘Como fazer ainda melhor?’, posso me responsabilizar também por ‘Para quê tudo isso?’”.


O físico F. Capra, (em 1983), e o Professor Marcelo Gleiser, (este, um brasileiro que leciona física e astronomia na universidade Dartmouth College, em entrevista à Revista Veja em 14 de dezembro de 1994, páginas 8 e 10), lembram que no mito hindu do Deus Shiva, ele cria o mundo enquanto dança, e quando ele pára de dançar o universo é destruído, num processo ritmado; contam eles que, até conhecermos o modelo do Big Bang, mais aceito hoje em dia, existia um modelo científico do universo que descrevia esse mesmo processo rítmico de criação e de desintegração, muito popular e respeitado.

...”o modelo do Big Bang...tem seu equivalente aos mitos religiosos.....não estamos descobrindo a pólvora, mas passeando com a ciência em áreas já visitadas pela religião”... (Gleiser, M.; 1994, p.8).

Em sua entrevista, o Professor Marcelo acrescenta que, através de outro mito hindu, pode - se dizer que - definitivamente - não há como compreender a origem do universo, pois não há como explicar com a razão algo que criou a razão:

...”Como vamos usar o pensamento para compreender algo que criou o pensamento? É como se um peixe dentro do oceano quisesse escutar o oceano como um todo”...(Gleiser, M.; 1994 , p.10).

Devido a este estilo adotado em seus discursos, ou em livros e aulas, tanto F. Capra quanto Professor Marcelo Gleiser têm sido chamados de “físicos e poetas”; belo exemplo de saberes mediados...

O meritório e justo sucesso que fazem parece confirmar (mesmo no aparentemente diverso universo da ciência) a proposta relembrada no universo da Sociologia por Edgar Morin citada no texto anterior, sobre fugir da trivialidade através do olhar poético, de viver poeticamente, e – claro – o benefício de mantermos alerta o “estado de espanto” socrático sobre nossos postulados teórico-retóricos.


Para mordida de cobra, veneno da própria cobra: para a inevitável hipercomplexidade contemporânea, é recomendável a ousadia de uma convergência hipercomplexa de olhares...

Reflitamos, pois:

Novos olhares para pensar e caminhar exigem novas reflexões sobre muitas coisas...

um GERÚNDIO (tão desqualificado e mal-afamado pelos call-centers) QUE VALE A PENA.

Numa tentativa de definir ainda melhor o que até agora chamamos de “gerúndio que vale a pena”, recorremos a Gaston Bachelard quanto à experiência do tempo.

Segundo ele, se o tempo parece mais curto quando está ocupado, isso deveria trazer um conceito essencial: a vantagem de se falar em ‘riqueza’ e ‘densidade’ mais que de ‘duração’, pois - com estes conceitos - apreciaríamos essas horas regulares e calmas com

...”esforços bem ritmados, que dão a impressão do tempo normal” (Bachelard, G.; 1936/1988, p. 41).

Com uma ‘duração’ (mestra da Morte) tornada suportável através de ‘riqueza e densidade’, temos não só a fruição do tempo gerúndico, mas também um evidente gerúndio eroticamente poético, que rompe com a tanática trivialidade: SENDO.

Outra reflexão: precisamos também definir, para pensar e caminhar, o que consideraríamos uma per-versão da impecabilidade hiperacional.

Quando o Discurso (não só a política, mas também a ciência se esmerou nisso até pouco tempo) se especializa no culto da impecabilidade, a ponto de se auto-proclamar “verdadeiro”, ele se encapsula e seqüestra o Vínculo: a possibilidade de realmente chegar ao Outro.

Esse tipo de ciência serve a quem? A quantos? Quantos podem interferir numa ciência assim apresentada? Trivialidade e impecabilidade acabam se igualando: ambas anulam a presença do Outro.

Tanto a turbulência quanto a agressividade propostas por G. Bachelard (citadas no texto aqui publicado anteriormente), são as mesmas para as quais tento chamar a atenção: o resgate do Vínculo com a Alteridade através de uma “racionalidade sensível”, de uma racionalidade (apolínea) disposta a “se sujar” (dionisiacamente) de sensibilidade, para poder chegar ao Outro e acolhê-lo (artemisiamente). Quem leu o texto anterior compreendeu as referências mitológicas que fiz aqui.


Quando a Prática é fraudulenta (impecável “para inglês ver”, e perniciosa na essência), costuma acompanhar “muito bem” o Discurso “que se julga verdadeiro” (e impecável); deixa a suposta impecabilidade guardada nele, no Discurso, mas o ignora, seguindo rumo a desmenti-lo: seqüestra e encapsula a possibilidade de Vínculo, da mesma maneira que o “Discurso Verdadeiro” o faz, acompanhando-o com sua fraude.

Falar de ausência de financiamento possível para sanar a fome, a saúde ou a Paz, exibindo gordos e freqüentes investimentos orçamentários em ciência bélica, me parece um exemplo concreto o suficiente, não só do que chamo de seqüestro de vínculo e encapsulamento, mas inclusive de ausência de Responsabilidade.

Responsabilidade que seria o Terceiro Elemento que poderia estabelecer mediações e dar “liga” e equilíbrio a discursos e práticas...


O “Sucesso aparente” não satisfaz mais a uma boa parcela dos seres em busca de humanização, que – feliz e gradualmente - prefere se direcionar para a dedicação à Alteridade.

No universo da ciência pequenos exemplos banais o exemplificam, como o retorno da figura do médico de família (que “dribla” a quase onipresente figura do “especialista”), a revalorização das parteiras, a revitalização da pesquisa fitoterápica e o estudo acadêmico da medicina popular, a tentativa de popularização o menos vulgar ou populista possível do discurso científico (na Rede, em publicações, vídeos, programas televisivos, etc.) para ampliar a quantidade de público com acesso às novas “descobertas” ou propostas, os grupos de estudo de física quântica que se multiplicam, o estímulo dos segmentos minimamente honestos do Terceiro Setor às iniciativas populares de urbanização (que envolvem, em programas de cidadania, iniciativas referentes à higiene, reciclagem, pesquisas de acessíveis técnicas agrícolas, etc.), entre outros.

Dedicar-se com Discurso e Prática equilibrados por Responsabilidade a novos olhares é duro, difícil, exaustivo: não é para “homens moles” nem “gente geleia”.

Edson de Sousa, um psicanalista gaucho estudioso das masculinidades pontua-o direcionando o debate para “nosso” assunto, pois no texto abaixo, se refere objetivamente a abordagem psicanalítica do contingente masculino:

“...Que campos da experiência humana poderiam recuperar a potência de um sonho (uma utopia) em que os sujeitos não precisassem destruir o outro para terem a sensação de existência? Esse me parece ser o compromisso ético da psicanálise diante dos novos desafios, que exigem de todos nós um esforço de compreensão e de implicação”...(de Sousa, E. L. A.; 2005. O homem sem qualidades, em Masculinidades em crise; pág. 151).


É uma atitude afirmativa (logo assertiva, eroticamente agressiva) exposta à turbulência constante, como o que se constata prosaicamente ao (por exemplo) observar cada vez mais (tanto) mulheres maternando ou homens paternando bebês recém nascidos, estimulados por iniciativas como as citadas acima, que emergem de uma racionalidade sensível, isto é, ações conseqüentes de uma racionalidade já mediada pela sensibilidade, que já dialoga com a sensibilidade.

Aliás, é possível que a qualidade humanitária desses novos seres assim cuidados seja melhor, já que tenderá a ser melhor a sua própria possibilidade de aprender a se cuidar, e a reproduzir o bem cuidar de Outro no futuro, melhorando a qualidade civilizatória de todos nós.

Qualidade civilizatória, aliás, que costuma designar uma situação humana que dá maior continência à Arte propriamente dita; é: ARTE com maiúsculas...


Para desvendar como vemos o universo (inclusive) estético transitado pelo homem Pós Moderno, para discutir um contingente humano (especialmente o masculino) que parece “carregar Apolo no bolso e Dionísio no coração” sem ter (mais) a consciência do significado (mitológico? ritualístico? semiológico?) de nenhum dos dois, aparentemente perdida a consciência do valor desta ‘divina’ dupla “carga ancestral” no processo de construção de sua (aparentemente) nebulosa e encapsulada subjetividade/intimidade (como vimos no texto anterior), precisamos começar resumindo algumas definições dos conceitos e imagens que usamos até agora (ou vamos ainda usar) sobre o assunto.

Não esqueçamos também o casamento (diálogo, mediação) entre ética e estética ao qual nos referimos até agora.


Uma coisa é ARTE; pensemos um pouquinho sobre ela.

Sobre as obras de José Rezende, exibidas de 16 de dezembro de 1980 a 31 de janeiro de 1981, no Espaço Arte Brasileira Contemporânea no Rio de Janeiro, conclui Ronaldo Brito (2001), com ar de definição que vai além da intenção imediata:

...Nelas estão retidas, até a saturação, as marcas decisivas da revolução moderna. A essas marcas, entretanto, o trabalho aplica a inteligência de uma economia ao mesmo tempo rigorosa e liberatória - apresenta as informações que tornaram possível sua existência mas, a golpes de transformação, aparece outro e singular - , pura interrogação no presente e do presente. A força desse ‘agora’ nos atrai para essas coisas sem nome e nos prende na rede de suas inquietações. Ali experimentamos ‘momentos de arte’, essa certeza estranha de não saber quem somos”... (Brito, R..; 2001, p. 86) .

Em “Arte, Sociedade e Estética”, T. W. Adorno (1970) abre sua Teoria Estética lembrando que a partir do momento em que a modernidade se instala, a Arte deixa de ser mimética.

Se não reproduz mais o real, já perde aí uma parte de evidência; se perde o real, perde o caráter de evidência e de existência. Em compensação, ganha possibilidades que nunca teve.

Para não “se explicar”, a Arte reivindica sua autonomia.

O quê a impulsiona a isso?

Luta ela para instalar o real, como a ciência, tornando - se “ciência por absorção”?

O que ela seria se não fizesse isso?

Uma religião?

A Arte opta por ser cadáver dela mesma para sobreviver autônoma, querendo, preferindo, ser Um Saber.

A Arte deixa de “ser simplesmente”; abandona sua ingenuidade, perde o direito a ela, (sem abrir mão de um certo “véu”, de uma certa “cegueira”) , e passa a ser “A Questão da Arte” : tem que passar a trazer consigo sua negação, a “não Arte”, para evitar o risco de ser dissolvida pelo empírico, sem precisar de um referencial metafísico.

A dimensão do significado do século começa na primeira guerra.

No dadaísmo, a primeira coisa contra a Arte é ser “contra” ela mesma (ou “contra” o que ela era até então) quando a guerra expõe o mundo a esse limite máximo.

Como se não bastasse, outros momentos semelhantes vêm em seguida: a bomba atômica (o homem mexe diretamente com o átomo), somada à ida à Lua (marcando o fim do mundo sublunar, o que poderia ser considerado o “fim de Aristóteles”), somada à engenharia genética que é também deflagrada, etc.

Como são elaborados os “traumas humanos”, herança de cada um destes momentos?

Por exemplo: você sabe que vai à Lua (que pode ir, afinal!), e tem a impressão de que “não acontece nada na terra”, apesar disso; como elaborá-lo?

Como o ser em busca de humanização responde a isso?

Em 1957, saudavelmente assombrada pelo impacto do primeiro satélite, Hannah Arendt assinala em sua obra, lembrando as palavras gravadas vinte anos antes no obelisco fúnebre de um cientista russo, (´A humanidade não permanecerá para sempre presa à Terra’), que:

...embora os cristãos tenham chamado esta terra de ´vale de lágrimas´ e os filósofos tenham visto o próprio corpo do homem como a prisão da mente e da alma, ninguém na história da humanidade jamais havia concebido a terra como prisão para o corpo dos homens nem demonstrado tanto desejo de ir, literalmente, daqui `a Lua. Devem a emancipação e a secularização da era moderna, que tiveram início com um afastamento, não necessariamente de Deus, mas de um Deus que era o Pai dos homens no céu, terminar com um repúdio ainda mais funesto de uma Terra que era a Mãe de todos os seres vivos sob um firmamento?...”(Arendt, H.1958/2005, p.10).

A reação da Arte (Arte de seres em busca de humanização) diante desses “traumas” é se (re)instituir, reivindicar autonomia, dizendo que “é, porque sabe o que é”: um problema; uma QUESTÃO.

Paradoxal e contraditoriamente, se torna uma “liberdade particular”: afinal liberdade (no caso a do ARTISTA na hora de criar, não mais reproduzindo o “mundo real” mimeticamente) é um conceito absoluto, e não posso ser livre num mundo que não o é; mas a Arte decreta isso para si.

É necessário que se mantenha uma prudente distância entre ARTE (sua face filosófica, ou herdada da filosofia que recebeu), e as OBRAS DE ARTE (sua face materialista, “esta ou aquela” obra).

T. W. Adorno (1970) lembra também que Walter Benjamim nos coloca diante do conceito de “constelações”, sem remissão ao passado.

Como a Arte não tem teleologia temporal, não se define; é, a cada momento, uma certa constelação: tem o seu conceito na constelação de momentos que se transformam historicamente, o que a torna indefinível: isso que parece “movimento filosófico da Arte” é sintoma de sua relação consigo mesma, a tensão da Arte com seu passado, que foge do formalismo da definição convencional.

T. W. Adorno (1970) acrescenta que Hegel, ao falar de “morte da Arte”, não viu que sua “vida” e sua “morte” não se passam no seu conteúdo, mas na sua própria efemeridade; é ESTA que permanece; o conteúdo pode ser a própria efemeridade:

...”Som algum teme o silêncio que o extingue.”... (John Cage; 1985, p.98).

Assim, a Arte não tem “finalidade” (não deve nem pode ter!), mas o seu LUGAR (na sociedade?) é o de recuperar o intervalo entre o mundo instituído como lógico, e o Nada (o que nos remeteria a Heidegger e sua fabulosa pergunta: - “Porque o Ente e não antes o Nada?”, e/ ou a Merleau Ponti e seu “miasma”, o momento em que a coisa não foi domesticada pelo nome, mas já não é mais o nada), nos arrebatando “ao não saber quem somos”, como tão bem descreve Ronaldo Brito alguns parágrafos acima, o que só encontramos neste intervalo “particularmente livre” da Arte.

Recupera nossa capacidade de ESPANTO, sem o qual quaisquer discursos são retórica vazia, e sem o qual o Sentido da vida da Vida não sobrevive.


Arrebatamento pela/para poética este, que Gastón Bachelard (1974), Edgar Morin (2000), Guy Corneau e - já muitos outros - nos propõe(m) como ponte para uma melhor qualidade de vida emocional, mesmo que não estejamos frente um OBRA DE ARTE, mas tornando o impacto com “a Vida da Vida” suficientemente arrebatador para que ele seja uma utopia plausível. Arrebatamento que Zigmunt Bauman (2003) propõe inclusive como possibilidade de “arejamento no pensamento acadêmico”, especialmente na Sociologia.


EM TEMPO: O que alguns chamariam de “Arte engajada” é um absurdo; não há como transformar o não artístico em artístico: ou o que acontece é Arte, ou o que acontece é “engajamento”...


ARREBATAMENTO? Como reconquistá-lo a cada minuto para a existência valer a pena?

Arrebatamento que “um olhar de Kaspar Houser” nos possibilitaria.

O filme sobre esta história verídica, dirigido por Werner Herzog , passou no Brasil com o título de “O Enigma de Kaspar Hauser” . O nome original deste comovente trabalho é “Jeder für sich und Gott gegen alle”, bem mais significativo, significando “Cada um por si e Deus contra todos”.

Conta a história de Kaspar, criado em um sótão, sem contato humano algum até os dezoito anos. Ele aparece em Nüremberg, por volta de 1828, trazendo uma carta na mão com pouquíssimas referências desta misteriosa origem, sendo acolhido na casa de um criminalista, o Sr. Feuerbach. É assassinado em 1833, mas o crime nunca foi esclarecido, pois seus vizinhos se interessam prioritariamente pelo mistério da origem, esquecendo o do crime: Seu cadáver é dissecado, e seu cérebro retalhado; mas o crime que o mata, não...Para isso, ninguém da cidade dá bola...

No filme, a ótica tradicional não é desafiada apenas pelo título; o olhar de Bruno S. (o ator que interpreta Kaspar) subverte o ATO DE OLHAR; assim como o olhar de Kaspar está lá plantado atônito num “mundo estranho”, onde “tudo é novo”, seu olhar perplexo, fixo diante das pessoas, das ruas, da paisagem, nos conduz ao mesmo estranhamento: tudo se torna paradoxalmente familiar e assustador; sem dúvida compulsoriamente NOVO:

“...as dimensões, o movimento, a lógica, a perspectiva, o pensamento, a fala, o riso”... (lembra, em seu livro sobre o olhar de Kaspar, Isidoro Blikstein, 1995, p.12) .

Como se não bastasse, precisamos arcar com outra informação perturbadora: Bruno S., o “ator”, tem uma história semelhante à Kaspar; não sabe sua origem, e foi “descoberto” por Herzog num hospital...

O cineasta decide “retirar o crachá de estranho” de Bruno S., talvez para colocá-lo em nós, em nossos olhos, em nosso olhar: o estranhamento poético e salutar da Arte, que perturba mas obriga a renovar, que arrebata à inevitabilidade da renovação.

Estranhamento do mesmo porte que costuma causar o questionamento da qualidade do suposto Poder Masculino no Planeta, questionamento esse que – não custa pensar nisso – poderia rever a própria qualidade da vida da Vida no Planeta...


Outra coisa é CULTURA.

Se falamos de estética, ética, identidade e gênero, precisamos falar dela também, claro.

Norberto Elias (1990), por exemplo, desenvolve o assunto através de uma sociogênese da diferença entre “kultur” e “zivilisation”:

...”o conceito de civilização minimiza as diferenças nacionais entre os povos: enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou - na opinião dos que o possuem - deveria sê-lo”...“o conceito alemão 'de‘Kultur’ dá ênfase especial a diferenças nacionais e à identidade particular de grupos”... (Elias, N.; 1990 pág 25).

Cultura faz fronteira com muitos fenômenos comportamentais referentes a estes grupos particulares, como (por exemplo) os universos geográficos, os universos étnicos, os universos hierárquicos de diversas instâncias, os universos feminino e/ou masculino e/ou gay e/lésbico e/ou transexual, ou os universos religiosos, ou os universos profissionais, e - inclusive – os universos da Estética, da Arte.

Podemos mesmo correr o risco de afirmar que há o viés de uma “Cultura Falocrática” perpassando todos estes universos com seu semi-silencioso poder (mesmo que autofágico).

Preocupado com equívocos que costumam acontecer na fronteira entre Arte e Cultura num Brasil freqüentemente engambelado pelo patriarcal populismo, Ronaldo Brito (2002), se referindo ao movimento neoconcreto, assinala que

...”a questão se desloca para o modo de sua recepção, sua incorporação ao nosso laboratório cultural cotidiano. Meu receio é que lhe esteja sendo reservado, se não já efetivamente preparado o mesmo destino ingrato que costuma perseguir nossas obras modernas tornadas célebres: de pronto, transformam - se em Imagens Cívicas, como a compensar nossa cidadania incipiente. Rápida, quase automaticamente, sublimamos a arte em cultura, a cultura em civismo. Razões históricas para tanto é que não faltam, obviamente. Por isso mesmo, quero crer, nosso instinto crítico deve ficar sempre esperto e, também ele, partir rápido ao contra - ataque, fazendo a experiência direta das obras”... (Brito, R.; 1999 / 2002, p. 7.)

Instinto crítico esperto, ou aguçado, se constrói com Educação (que deveria ser oferecida sistematicamente à sensibilidade de qualquer indivíduo em formação), comprando a briga contra a exclusão da maioria da fome de saber, da ...”-Você tem fome de quê? “.. que nossos bárbaros roqueiros locais gritam (o grupo Os Titãs), lembrando que a barbárie só aparece quando há excessos na cultura... Excesso de falta, ou de carência, ainda assim é excesso...

...”As formigas da Alemanha comem o mesmo que as formigas da Itália, mas os homens comem coisas diferentes em cada parte do mundo”... (Labbé, B. e Puech, M.; 2002, p. 14).

Democratizado o instinto crítico aguçado, seria dada passagem à fala dos inúmeros universos culturais, como também se permitiria o arejamento do diálogo entre os segmentos hipercomplexamente coexistentes na Cultura.

Cultura suficientemente hipercomplexa para abrigar - inclusive - questões dos universos íntimo e público.


No universo aqui especialmente abordado, há no mínimo dois diálogos fortemente precários, o que dificulta mediações:

- O do universo masculino (cada homem consigo mesmo, e homens entre homens);

- O do universo masculino com os demais universos do leque da sexualidade

(mulheres, gays, lésbicas, crosdreessers, transexuais, etc.);

O solilóquio, a fala e o diálogo dos elementos constituintes deste universo dos seres nascidos com sexo masculino têm priorizado (lamentavelmente) o silêncio.

Não necessariamente o silêncio da ordem da reflexão, da inquietude (que exercita e prepara o silêncio da futura morte tragicamente comum a todos), e/ou da criação; mas sim o da ordem da imatura e ressentida avareza emocional, o da perpetuada ignorância, o da perversão, o da autofagia, (falocráticas?) que lesam, com grosseria, a maiúscula Cultura:

...”Rilke diz que ‘os versos não são sentimentos, são experiências. Para escrever um único verso, é preciso ter visto muitas cidades, muitos homens e coisas’...Rilke não quer dizer, entretanto, que o verso seria a expressão de uma personalidade rica, capaz de viver e de ter vivido. As lembranças são necessárias, mas para serem esquecidas; para que nesse esquecimento, no silêncio de uma profunda metamorfose, nasça finalmente uma palavra, a primeira palavra de um verso”... (Blanchot, M.; 1987, p.83).

Logo, para sair de seu freqüente encapsulamento, para fugir da per-versão da Hiperacionalidade, para desenvolver com maiores turbulência (possibilidade de estado poético e agilidade) o potencial de seu processo de humanização, o contingente masculino poderia ‘ver um número maior de cidades, homens e coisas’…


Uma terceira coisa é a INDÚSTRIA CULTURAL.

No texto anterior falamos dela como espaço onde Esfera Íntima (Mundo da Vida) e Esfera Pública (Mundo Midiado) conseguem dialogar nesse momento; sua melhor face.

Mas não existe só essa, claro.

Se falamos de fetichismo e reificação (compulsoriamente falocráticos como vimos em textos anteriores) não podemos esquecê–la:

...”Com o termo ‘indústria cultural’, Adorno se propõe a explicar a arte consumida pelas massas, uma mercadoria que não é mais produzida pelo trabalho artesanal, mas conforme o modelo da manufatura e da grande indústria. Seu diagnóstico se contrapõe ao de Walter Benjamim; este confiava no potencial criativo desencadeado pela cooperação e o defendia na expectativa da ‘politização da arte’. Na perspectiva de Adorno, na indústria cultural, as massas não são o elemento ativo, mas pura passividade. Têm-se assim não apenas uma nova forma de despolitização da sociedade, mas um instrumento de domínio e integração social”... (Musse, R.; Coleção Caderno Mais! da Folha de São Paulo, 2003, p.13).

Não sei se chegou a ser publicado, mas, na intimidade que tive o privilégio de compartilhar, Herbert Daniel lembrava freqüentemente, com seu demolidor humor, que...“- Se cultura tem que dar lucro, sexo tem que dar filhos”...; mas, a indústria cultural crê que faz “produtos”, (inclusive humanos, como nos chamados “reality shows”), e deles quer, EXIGE, lucro.

Habitamos uma Sociedade do Espetáculo, e de Espetáculo pago, naturalmente: “NO FREE LUNCH”...


Especificamente aqui, a indústria cultural (brasileira) tem receita e sabor próprios.

Renato Ortiz, em 1998, perguntando em que medida o advento da sociedade moderna no Brasil recoloca a questão da relação “O Nacional” X “O Estrangeiro”, distingue dois períodos:

a) Precariedade, dependência, fragilidade institucional, assimilação “cultural” por alienação; desqualificamos nossa própria produção; o que vem de fora é que bom; o que é nosso só é bom se imitar o “estrangeiro” (daí as críticas de Monteiro Lobato ao grupo do movimento da Semana de 22, que - realmente - esqueceu de olhar para o nosso grande autor gaucho, Qorpo Santo, por exemplo, preferindo olhar para “o estrangeiro”, como bem o descreve em “Os Homens Precários” (1975) Flavio Aguiar (leitura que recomendo!).

b) Consolidação do Mercado cultural de massa (justificando a ação dos grupos empresariais brasileiros no mercado mundial): autonomização da esfera cultural brasileira, exercício pleno da indústria cultural no Brasil e consolidação de um mercado de bens simbólicos, por exemplo, na publicidade, da TV brasileira. Como se passássemos sem transição adequada da defesa do nacional popular, para a exportação do popular internacional...

É como se tivesse sido assimilada a seguinte (e inautêntica?) opção: ou você se torna cidadão “via” política, ou você se torna cidadão “via” consumo...

Pelo viés de uma dependência cultural, ficamos dependentes do monopólio e da manipulação de outros países, e do movimento de alienação; pelo viés histórico - ideológico, vivemos, inclusive, uma “construção nacional” que esteve nas mãos da “classe dominante Estado” (nas ditaduras), que “eliminou” as contradições sociais, assumindo o patético papel de suposta “agente modernizadora”...

De matriz da “cópia”, a cultura brasileira espelhando as metrópoles, colonialística e dependentemente, conseguimos passar a nos ver como “matriz da pluralidade”, onde não existe “uma (única) identidade brasileira”, mas uma história da construção de uma “ideologia de cultura brasileira”.


Quem busca esclarecer isso com grande bom humor é o professor Darci Ribeiro com seu conceito de “NINGUENDADE”, mais adequado que Identidade - segundo ele - para o nosso caso, pretendendo ele ser o mais elogioso possível à nossa cultura. Este conceito seria baseado, por sua vez, no conceito deleuziano da “casa vazia”. Nos jogos (damas, xadrez, futebol, etc.), é o espaço da casa vazia, é a “fome de ser ocupada” que tem a casa vazia, que faz o jogo andar: as peças podem se locomover, há trânsito para novas opções, há espaço para o gol ser feito e refeito, etc... Da mesma forma, para que qualquer universo seja dinâmico, deve nele acontecer o mesmo. Logo, haver sempre uma “casa vazia” na definição de nossa “identidade”, o fato de ser impossível “fechar questão” sobre ela, é uma vantagem: torna-a viva, atuante, permeável, sujeita a desenvolvimento, e não à estagnação.


Outros autores olham para o mesmo fenômeno pensando e propondo diferentemente:

...”Brasileiros e latino - americanos fazemos constantemente a experiência do caráter ‘postiço’, ‘inautêntico’, ‘imitado’ da vida cultural que levamos”...”Ela pode ser e foi interpretada de muitas maneiras, por românticos, naturalistas, modernistas, esquerda, direita, cosmopolitas, nacionalistas, etc., o que faz supor que corresponda a um problema durável e de fundo”...”O Papai Noel enfrentando a canícula em roupa de esquimó é um exemplo de inadequação. Da ótica de um tradicionalista, a guitarra elétrica no país do samba é outro. Entre os representantes do regime de 64 foi comum dizer que o povo brasileiro é despreparado e que democracia aqui não passava de uma impropriedade. No século XIX comentava-se o abismo entre a fachada liberal do Império, calcada no parlamentarismo inglês, e o regime de trabalho efetivo, que era escravo”... (Schwarz, R.; 1990 , p. 29) .

Assim, já Roberto Schwarz prefere e propõe a “casa cheia”; isto é, acredita que o “espaço tenso” reservado à criação e/ou à construção de uma cultura (um “entre lugar”, não necessariamente vazio, entre o “não ser” e o “ser o outro”) pode estar “cheio”: “CHEIO DE PROJETO”, e PROJETOS - afinal - só são construídos com reflexidade e autonomia (como o Projeto de minimizar inautenticidades com ações refletidas e responsáveis, por exemplo).


A “casa vazia” traria o movimento pelo Desejo; a “casa cheia” (de Projeto) traria o movimento pelo Projeto, partindo do princípio que o Desejo está posto, e que o movimento pode (e deve) ser direcionado para o que se escolha reflexivamente (com “instinto crítico esperto”, claro).

Roberto Schwarz faz ainda a crítica do conceito convencional de “cópia” (da “Xerox” às colagens, das “imitações” às refilmagens, do “inspirado em...” à reprodutibilidade técnica inevitavelmente incorporada a tantas formas de expressão artesanais ou artísticas, etc.), lembrando que ela, sociologicamente não é falsa, mas que precisa ser tratada com maior pragmatismo, do ponto de vista estético e político, precisando se libertar da mitologia da exigência da criação a partir de um suposto “nada”, pois a vida cultural tem dinamismos próprios, onde a eventual originalidade e a falta dela são alguns dos elementos, mas não os únicos, pois - do ponto de vista antropológico - podemos dizer “não estou copiando, estão só deslocando a história”.

Isso poderia nos remeter por sua vez ao Derrida que diz que “...o rastro do cometa “faz e não faz parte do cometa”; isto é, o rastro é ao mesmo tempo o cometa, é já outra coisa, e é ainda um derivado...).


O instinto crítico esperto de Ronaldo Brito e o Projeto de Roberto Schwarz comungam o desejo (e a esperança?) de reflexão e autonomia.

Que a autonomia da Arte seja mantida para continuar atuando como fonte de arrebatamento, de renovação, de conhecimento, como reserva utópica da atividade emancipadora, e que Cultura seja compreendida como um fenômeno que envolve Arte, mas não só ela, lembrando que ambas não “ficarão prontas” jamais, afinal...

A Indústria Cultural está posta; “para o bem e para o mal”, tem convivido com a Arte (que, quando decide emergir, não pede licença), e fica muito difícil meramente “xingá–la” de “lixo” (toda a cultura pop envolvida, lembremos).

Frank Sinatra é Indústria Cultural ou Arte, se pararmos para pensar AGORA?

Paulo Moura é popular ou erudito?

Bispo do Rosário: um esquizofrênico talentoso, ou um-artista-e-ponto-final?

Certas perguntas vão ficando mais difíceis com o passar do tempo...


Dualidades e impecabilidades vêm morrendo, e a plausibilidade - como temos visto - vem pela permeabilidade, pelo convívio hipercomplexo, mesmo imersos numa Sociedade de Espetáculo.

E isso NÃO é sinônimo de mera submissão à manipulação do Mercado (fetichismos e reificações incluídos), quando baseado em informação, educação, reflexão, arejamento que possibilite a Autonomia, a Crítica, o Projeto.

Quando a mediação tem espaço e mobilidade, não ficamos paralizados...

Seria impossível falar do que vem acontecendo com nossa indústria cultural, sem assinalar um exemplo prático que transite a fronteira dos universos íntimo e público.

Uma campanha publicitária que se multiplica é o de automóveis, de diferentes fábricas e grifes, onde o que há de comum é a maioria absoluta de “atores - motoristas” do sexo masculino, e a oferta de “potência” (supostamente do automóvel) e “maior velocidade” (chegar primeiro como um valor) a cada nova linha de automóveis.

Ora, um dos maiores motivos de morte e seqüelas graves nos altíssimos índices de morte e internamento hospitalar masculina é o de acidentes automobilísticos!...

Talvez o “produto” vendido ali seja a morte de muitos que (“compram” e) confundem poder (vertical e falocrático), velocidade (patriarcalista), ou “chegar primeiro” (patrimonialismo), com riscos que valham a pena, com estes símbolos claramente tanáticos. Afinal as ameaçadoras estatísticas vão para o ar tanto quanto os comerciais! Seria impossível assistir um e “ficar cego” para as outras!...

É um bom exemplo para a metáfora que procurei construir alguns parágrafos acima, sobre “os mistérios do SENTIDO dos crimes” do patriarcalismo e da falocracia, que continuam à deriva das “investigações” sobre nossos “kasparausianos cadáveres”...


Penso que há um ponto particularmente delicado na Arte, na Cultura (e até no melhor da Indústria Cultural), porque seria seu ponto mais sofisticado; seu “filé mignon”: o HUMOR.

Mas muitos o desqualificam.


Nas famílias o humor e a ironia são eleitos costumeiramente pelo senso comum como “defesas femininas ou efeminadas”, “estilísticas compulsoriamente proibidas ao contingente masculino”, ou avaliações diversas impressas no senso comum pelos ditos populares:

“- Mulheres vivem aos risinhos como as crianças; cabe aos homens a circunspeção”.

“- Homem confiável é homem sério; homens não riem, no máximo trabalham como

humoristas, mas aí é para ganhar dinheiro, então tudo bem”.

“- Muito riso, pouco sizo”.


Nas empresas, freqüentemente um gerente ou semelhante deixa de ser promovido se for considerado “muito risonho, falante, piadista, ‘demasiadamente’ bem-humorado, ‘duvidosamente’ simpático, etc.”...

Especialmente se for um elemento nascido com sexo masculino, mas – por ser uma postura em primeiro lugar patriarcalista – é exigida a mesma circunspecção das mulheres executivas; competência não basta; homem ou mulher há que ser circunspecto além de tecnicamente habilitado. Criatividade e humor não costumam “recomendar bem” um profissional; circunspecção e perícia são os pré-requisitos preferidos...


Esse mesmo humor, essa mesma ironia, são agora propostos como resistência legítima e consistente - por exemplo - pelo neo-marxista e esteta americano Jameson, F. (2001) - aliás - também mais um adepto da intimidade como espaço político (falamos dele também no texto anterior).

Já que Jameson, F. (2001) lembra o poder político do humor, aproveitemos para lembrar nossos antenados cartunistas: meu talentoso amigo Laerte (2000 e 2002), que criou, entre suas vária personagens, um “Deus” brincalhão e nada “patriarcal”, que descobre ter uma “Deusa parceira”, e tem como melhor amigo um “Diabo”, também casado com uma “parceira Diaba”, para nos deleitar em suas reflexivas e poéticas tiras humorísticas já publicadas com sucesso também em livro. Ou Adão Iturrusgarai.(2001 e 2002), que propõe uma solução para sua personagem “Aline”, que mora “quase” sem conflito não com um, mas com dois namorados simultaneamente, além de nos entreter através das tiras diárias da Folha de São Paulo com a dupla homossexual “Rock e Udson”, ou ainda com a lésbica radical “Emiliana Sapata” (brincadeiras política - e supostamente - incorretas inimagináveis há poucos anos atrás). Miguel Paiva (“tiras ” diárias em “O Globo”) que somou seu “Gatão de Meia Idade “ à sua consagrada “Radical Chique”.

Também diariamente, outros cartunistas planeta afora, informam, através de seu magicamente sintético talento, o que anda acontecendo em seus países de origem, na política, na economia, na ciência, no comportamento, etc.

Chamo a atenção para a freqüência com que as questões de gênero (e as que lhe são familiares) são abordadas através de inúmeras personagens que vêm surgindo neste universo democrático e sintético dos "quadrinhos”.


Já o próprio Freud, por exemplo, discorda (como eu e os demais já citados!) dos que desqualificam o humor:

...”O humor não é resignado, mas rebelde”... (Freud, S.; 1927, p. 191).

É o humor, afinal, que costuma melhor informar (através do palhaço do circo, dos comediantes, dos misteriosos construtores das piadas populares, dos cartunistas, dos anônimos com talento em se comunicar oficiosamente com humor na vida íntima e pública, etc.) democraticamente, a um número bem maior de pessoas, sobre os assuntos que até a Academia está discutindo.

Sigmund Freud (1927), no Congresso Internacional de Psicanálise em Innsbruck, assinalou que o humorista se vê antes como um órfão que como um herói, e (sem ser claro sobre onde ficam AS humoristas) distingue os não humoristas como aqueles que vivem como se afirmassem heroicamente: “- Nada pode me acontecer!”, numa demonstração de onipotência narcísica, e os humoristas como aqueles que vivem como se afirmassem como órfãos: “- Tudo pode me acontecer, mas mesmo assim eu aprendi a rir!”.

Dom Kupermann (2002), numa tese baseada especialmente neste texto de Freud, diz que para que se considere o que acontece como legítima manifestação de humor, deve - se verificar se o que acontece é lúcido e lúdico; acrescenta que o humor não se contrapõe ao que é sério, mas à realidade deserotizada, e à lucidez melancólica, criadas pela absoluta cisão entre os princípios do prazer e da realidade que nossa cultura endossou (e continua endossando).

Para Sigmund Freud (1927) o humor seria um enigma (uma ilusão que não ultrapassa os limites da saúde mental), e o humorista um paradoxo (trata a si mesmo como uma criança, e ao mesmo tempo como um adulto superior a essa criança, rindo de si mesmo); ainda segundo ele, os “enigmas” gerados por estes “paradoxos” seriam capazes de abrir brechas espantosas nas formulações metapsicológicas.


“Curiosamente”, os clowns (mitológicos e ritualísticos) que conhecemos, ancestrais, mas especialmente herdados no Ocidente de uma Tradição já patriarcalista, através - por exemplo - da Comédia Del‘Arte, apesar de herdeiros (por sua vez) dos ritos dionisíacos (cujas Mênades eram mulheres), são “entidades masculinas” por excelência, mesmo quando tão dúbias quanto Dionísio, (tradicionalmente ora cômicas ora trágicas, e freqüentemente com homens no papel de mulheres), a ponto das comediantes femininas serem um fenômeno contemporâneo pós-feminismo, do qual Lucille Ball é uma das melhores “primeiras luzes” referenciais (no palco e fora dele).

Enquanto isso, a iraquiana, radicada em Londres, Shazia Mizra põe hoje o próprio pescoço em risco com seus shows de stand up que ironizam (e desafiam) o fundamentalismo islâmico com piadas ousadas, o que ela faz sem deixar seu próprio véu de lado...

Nossas brasileiríssimas Dercy Gonçalves, Ema D Ávila, Berta Loran, Consuelo Leandro, Nair Belo, Nádia Maria, Heloisa Perissé, Dany Calabresa ou Carol Zoccoli: bons exemplos contemporâneos que vêm atravessando diferentes décadas munidas de uma rebeldia de saias, que nem Freud chegou a imaginar ou debater...


Artaud, o performático avant la lettre homem de teatro, desenvolvia (curiosa e poeticamente) um discurso sobre masculino/feminino em seus supostamente “delirantes” textos (como já vimos no texto anterior) muito semelhante ao que o psicoterapeuta Edward C. Whitmont desenvolveu mais tarde.

O livro deste psicólogo (1982), se intitula O retorno da Deusa, onde ele se mostra esperançoso quanto a re-inclusão do ‘significado de Ártemis’ no nosso imaginário, que parece ter ficado satisfeito com a dupla Apolo / Dionísio (como também desenvolvemos no texto anterior), na nossa subjetividade, preocupado com a banalização da violência provocada pelo ocultamento hipócrita da agressividade dos seres em processo de humanização que pretendemos e esperamos ser.

Para quem leu o texto anterior, a citação seguinte "fará par" à proposta que lá levantei sobre o assunto:

"...Na base dos mal-entendidos estava o polêmico ensaio que o escritor siciliano publicou em 1908, 'O HUMORISMO'. Nele Pirandello argumentava em favor de uma linhagem ou tradição literária que trabalhava não com o cômico, mas com o cômico interiorizado e filtrado pela auto-reflexão. O humor seria, então, produto do 'sentimento do contrário'; e o humorista, o artífice da farsa trágica da vida"...(Dias, M.S.; Prefácio. 'Quarenta novelas de Luigi Pirandello', com Seleção, tradução e prefácio de Maurício Santana Dias; 2008; pág.9)


Lembremos mais uma vez o que também desenvolvemos no texto anterior (ainda sobre o assunto) quanto a agressividade precisar fazer parte de nossa organicidade, de nossa humanidade.

Como tudo mais que nos pertence, podemos tomar saneadoramente posse dela; somos capazes disso.

Isso nos diz respeito tanto para criar Arte, como para exercer o humor (mesmo que doméstico), pois, para tal, é necessário exercer primeiramente o senso crítico.

Exercitar exercer o senso crítico depende de uma postura assertiva, isto é, agressiva sobre o mundo ou sobre o outro, embora não violenta!

Na medida em que a agressividade é hipocritamente proibida, reprimida, e não ritualizada (substituindo o “lutar contra” pelo “lutar por”, por exemplo) o exercício do senso crítico (quer para a Arte, quer para o desenvolvimento da construção de uma subjetividade consistente e autônoma) é sensivelmente lesado.

A tendência humana é, diante da interdição, proibir ou reprimir o “conjunto”, como por um imaginário “contágio”.

A agressividade da assertividade justa acaba tão reprimida quanto a da violência inadequada; fazemos de conta que é possível viver sem incorporar nossa cota humana de agressividade. Mas ela está lá, reprimida e (por isso mesmo) deseducada.

O conteúdo humanamente inevitável, vivo e reprimido, acaba emergindo (como todo conteúdo reprimido o faz) na forma per-vertida (vertida inadequadamente): a violência. Já outras coisas, como o desenvolvimento do senso crítico, não; não consegue emergir, porque não se desenvolve sequer.


Por que falar ainda de “Performances” / “Transperformances” , com “Estilo”?

...”Assim, o que importa não é que haja falta de admiração pública pela poesia e pela filosofia no mundo moderno, mas sim que esta admiração não constitui um espaço no qual as coisas são poupadas da destruição pelo tempo. A admiração pública, consumida diariamente em doses cada vez maiores, é ao contrário, tão fútil que a recompensa monetária, uma das coisas mais fúteis que existem, pode tornar-se mais ´objetiva´ e mais real...”(Arendt, H.; 1958/2005, p.66).

Pode parecer surpreendente a proximidade do discurso dos “Homens de teatro” com o dos “Homens da sociologia e/ou da Humanidades em geral”, o que sugere que mereceria um melhor estudo a escolha comum (das duas áreas) das nomenclaturas “ator social” ou “protagonismo”, “performances e transperformances”, “potencialidades perversas”, etc.

...”Se o teatro essencial se compara à peste não é por ser contagioso, mas por, tal como a peste, ser a revelação, a apresentação, a exteriorização dum profundo íntimo de crueldade latente, por meio da qual todas as potencialidades perversas do espírito, quer dum indivíduo, quer dum povo, são localizadas”... (Artaud, A.; 1983, p.11).

No momento, os representantes dos dois universos (Lehmann no teatro por exemplo, e inúmeros sociólogos que publicam sem parar, como nossa psicanalista e Doutora em sociologia Marlise Matos, por exemplo) falam não só de performance, mas também de reflexidade, de assertividade, de autonomia, de identidades múltiplas e dialógicas, de (ritual degenerado da) hipercomplexidade, etc.:

...”O Performer, com maiúscula, é o homem de ação. Não é um homem que representa um outro. Ele é o dançarino, o padre, o guerreiro : ele está fora dos tipos estéticos. O ritual é performance, uma ação completa, um ato. O ritual degenerado é espetáculo. Eu não quero descobrir alguma coisa de novo mas qualquer coisa de esquecido. Uma coisa tão antiga que todas as distinções entre tipos estéticos não são mais válidas. Eu sou teacher of Performer. Eu falo no singular”...”isto graças ao Performer , que é uma ponte entre a testemunha e alguma coisa.

Neste sentido, o Performer é pontifex, fazedor de pontes”... (Grotowski, J.; 1983, p.1).

A mediação (um fazer-pontes) é tema nosso e de muitos das duas áreas.


Para ser um Performer, não é necessário ser profissionalmente artista. Basta observar a estilística das ruas: tatuagens, piercings, emos, góticos, mauricinhos e patricinhas, neo-hippies, etc. Seu corpos falam; seus corpos comunicam; seus corpos 'fazem pontes'.


Mas exemplos de alguns artistas performáticos ilustram muito bem tanto a conceituação do homem de Teatro Jerzy Grotowski (1983), onde ele insinua poder confirmar hipóteses e/ou leituras que faço freqüentemente quanto à proposta da Psicossocióloga Marlise Matos (2000) quanto às nomenclaturas performer, performance e/ou transperformance, aplicadas aos “atores sociais” do ponto de vista das Questões contemporâneas (políticas, econômicas, sociais, comportamentais), e em especial das Questões de gênero, que são as que particularmente nos interessam aqui.

Acompanhemos um pouquinho do que tem acontecido no mundo da Arte nas mãos de alguns performers:

O norte-americano Chris Burden, recentemente em Brumadinho – MG – (montando uma escultura) começou seus trabalhos em Arte com performances. Não parece hoje o mesmo artista que, nos anos 70, pagou um amigo para lhe dar um tiro no braço, na performance que pôs seu nome entre os precursores da body art;

..."Foi na Guerra do Vietnã, quando milhares de garotos da minha idade eram alvo de disparos"..., lembra Burden, 63;

..."Planejei tudo: era para a bala passar de raspão e fazer rolar só uma gota de sangue."...
Rolaram muito mais, e Burden passou meses em conversas com psiquiatras tentando curar uma depressão pós-disparo. Recuperado, teve outras chances para se destruir. Foi crucificado na carroceria de um Fusca, com as mãos pregadas na fuselagem, e passou cinco dias confinado num armário. Também diz ter passado 22 dias escondido, sem comer, atrás de uma parede falsa.
Só interrompeu as performances quando guardas da fronteira da Holanda com a França impediram que o artista atravessasse o limite entre os países dirigindo um carro que ele mesmo construiu.


Outros artistas da área se aproximam especialmente de nossos temas com seus trabalhos:

O poeta norte americano Vito Acconci adotou a performance a partir dos anos sessenta, direcionando seu trabalho para os temas da fantasia sexual, ironizando o que ele via como “machismo intrínseco” também à arte! Em seu trabalho “Seedbed”, colocou uma rampa ao fundo de uma sala aparentemente vazia, com uma caixa de som no canto; o visitante que subia a rampa tinha como resposta os gemidos do artista, que se masturbava em baixo da estrutura de madeira, quando ouvia passos.

Em 1974, na obra que chamou de “Rhythm 0”, a iugoslava Marina Abramovic ficava parada ao lado de uma mesa onde estavam uma arma de fogo, um machado, tinta, perfume, batom, mel, azeite, etc. Na parede, fixou um texto onde se lia:

“Há 72 coisas sobre a mesa que podem ser usadas em mim conforme o desejado. Eu sou o objeto”. Seis horas depois, suas roupas haviam sido rasgadas, e - por exemplo - a arma tinha sido apontada para sua cabeça...

Ela foi casada com o artista alemão Ulay, com quem compartilhou vários trabalhos. Em 1985 (inclusive no Brasil) , em “Nightsea Crossing” o casal se olhava fixamente por sete horas. Já quando decidiram se separar em 1988, transformaram a decisão numa última obra juntos; realizaram “The lovers - The great wall walk”, partindo cada um de um extremo da Muralha da China, caminhando até se encontrarem, separando - se - aí - para sempre.


Transitando a fronteira da psicologia de gênero com a sociologia, Marlise Matos (2000) caso incluísse em suas atividades a artística, teria muitos “espetáculos” a propor (ou experimentar), quem sabe brincando também com “muralhas” tão titânicas (ou tirânicas?) quanto às da China:

...”,compartilho a visão de que o gênero atravessa ‘fronteiras’ políticas (‘transperformances’) cruciais entre: subjetivo e coletivo, masculino e feminino, estabilidade / permanência e instabilidade / fluidez, carne e símbolo , biológico e histórico , etc. Desta forma , a natureza de uma ‘ética de gênero’ poderia oscilar entre um ceticismo radical (abandono de qualquer garantia ou possibilidade de conhecimento , abertura total) e silêncio absoluto (na ausência de pontos fixos ou sólidos comuns),e uma posição menos extrema , na qual meu esforço aqui aposta: a natureza discutível , argumentativa e relacional, interativamente aberta, dos valores envolvidos na perspectiva de gênero”...(Matos, Marlise ; 2000 , p. 112 e 113, negritos e sublinhado meus).

A Questão que volta imediatamente à baila, diz respeito ao DESEJO do contingente masculino de experimentar uma “relação dialógica sobre as práticas sociais da dinâmica interativa dos gêneros, seus hábitos e práticas comuns” ; a começar pela relação dialógica sobre as práticas sociais da dinâmica interativa entre os próprios homens, sem a qual a “dos gêneros” não irá adiante.

Quando DESEJA, Orfeu desce até os infernos; repito a frase, e repito a citação de Blanchot que já fiz no texto anterior:

....”Quando Orfeu desce rumo a Eurídice, a arte é a potência na qual a noite se abre. A noite, pela força da arte, o acolhe, torna - se intimidade acolhedora, entendimento e acordo da primeira noite. Mas é rumo a Eurídice que Orfeu desce”... (Blanchot, M.; 1955 / traduzido por Lopes, A. L. em 1986, p.9).


`A frente de psicólogos, sociólogos, antropólogos, o cartunista Laerte (preferindo o “Projeto” à mera “casa vazia”), acaba de criar novas personagens para seus “quadrinhos” de “Os piratas do Tietê”: crianças do sexo masculino que debatem sua nomeada “masculinidade”.

`A frente em suas própias áreas, Matos, M. (2000), também Projeto em punho em sua obra teórica e prática, se preocupa não só com o masculino, mas também com a possibilidade de renovação das conjugalidades, pois delas emergirão tanto “casas vazias” esfomeadas de criação, quanto os novos Projetos que se refiram ao Masculino: conjugalidades renovadas, educação de crianças renovada, afinal.

...”De uma designação lógica e naturalizada (´ser homem’ , ‘ser mulher´ , etc.) desloco o foco para a relação dialógica: as práticas sociais da dinâmica interativa dos gêneros , seus hábitos e práticas comuns .”... (Matos, Marlise; 2000, p. 112 e 113).


Teatro no palco, no altar, nas ruas, na intimidade dos lares; alguns atores por profissão, todos plausíveis atores sociais, conceituar a diferença deixa de ser prioridade no momento em que a essência libidinal, erótica, e - por que não? - agressiva da Vida na vida da inquietude criadora e transmutadora se faz presente, para os seres em processo de humanização: seres éticos e estéticos.


Tadeuz Kantor (1983), autor e diretor de teatro, re-introduz o “sagrado” tema do elo humano entre a religiosidade e o nascimento do ator, buscando descrever o momento de sublime ruptura que levou um cidadão envolvido nos ritos dionisíacos a se auto-proclamar o primeiro ator (o que é atribuído historicamente a um rapaz chamado Téspis):

...”O ator ele - próprio, relegado para fora da sociedade, tem adquirido não somente inimigos obstinados, como admiradores fanáticos. Opróbrio e glória conjugados. Seria de um formalismo ridículo e superficial querer explicar esse ato de RUPTURA pelo egotismo, o apetite de glória ou uma tendência nata para a parada. Deveria tratar - se de um compromisso mais considerável, de uma COMUNICAÇÃO de importância capital”... (Kantor, T.;1983,p.10) .

O autor tem a preocupação (pós moderna?) de assinalar a face generosa, curotroficamente preocupada com a alteridade da RUPTURA, o que nos levaria a refletir, mais uma vez, sobre o compartilhamento de nomenclaturas referentes a “ator social”; dado a dificuldade de acesso ao precioso texto, deixo de lado o pudor de insistir nas citações:

...”DIANTE daqueles que ficaram deste lado, um homem ergueu - se EXATAMENTE igual a cada um deles e no entanto (em virtude de alguma ‘operação’ misteriosa e admirável) infinitamente DISTANTE, terrivelmente ESTRANHO, como que habitado pela morte , afastado deles por uma BARREIRA que por ser invisível não parecia menos apavorante e inconcebível, tal que o sentido verdadeiro e a HONRA só podem nos ser revelados em SONHO”...”Vejo - o antes como um rebelde, um herege, livre e trágico, por ter ousado ficar só com o seu destino. E se acrescentarmos ‘com o seu PAPEL’ , temos diante de nós o ATOR”...“Esse fato, ou melhor essa manifestação, provocou provavelmente uma grande comoção nos espíritos e suscitou opiniões contraditórias. Muito certamente ter - se - á julgado esse ATO como uma traição para com as tradições antigas e as práticas do culto; ter - se - á visto aí uma manifestação de orgulho profano, de ateísmo, de perigosas tendências subversivas; ter - se - á gritado ao escândalo, à amoralidade, à indecência; ter - se - á examinado o homem tal um bagunceiro, um cabotino, um exibicionista, um depravado”....(Kantor, T.; 1983 p. 10, maiúsculas e sublinhado pelo próprio autor).

A opção de abrir mão da estabilidade, para preferir (ônus por ônus...) o prazer (da liberdade criadora) assinalada hoje por exemplo pelo filósofo Zigmunt Bauman (1998), é descrita neste momento sagrado e sublime da antigüidade (levando a que eu me pergunte se seria a performance uma “inautenticidade transparente”...).

O que talvez tenha fugido às preocupações de Kantor, T.(1983), é a possível luz que o seu texto sobre a antropologia da arte cênica poderia lançar não só sobre a sociologia com seus “atores sociais”, mas também, especificamente, sobre as contemporâneas discussões sobre as ora belas ora terríveis estilísticas expressas pela religiosidade humana, num caminho surpreendentemente inverso ao supostamente proposto por ele:

...”Essa imagem viva do HOMEM saindo das trevas, seguindo sua caminhada sempre em frente, constituía um MANIFESTO, irradiando, de sua nova CONDIÇÃO HUMANA , somente HUMANA, com sua RESPONSABILIDADE e sua CONSCIÊNCIA trágica, medindo seu DESTINO numa escala implacável e definitiva, a escala da MORTE. É dos espaços da MORTE que se dirigia esse MANIFESTO revelador que provocou no público (utilizemos um termo de hoje) essa emoção metafísica”... (Kantor, T.; 1983, p.11, maiúsculas do próprio autor).

Como todos os sociólogos (pós-modernos?) também apontados ao longo deste trabalho, este autor teatral clama também por amparo metafísico, reflexidade, senso crítico e autonomia nas escolhas.


Como Téspis, alguns poucos seres em processo de humanização do sexo masculino, têm buscado romper com as trevas falocráticas, patriarcalistas, homofóbicas, fetichistas, reificadoras (a aparentemente compulsiva repetição dos vocábulos é proposital); todo o TEATRO HUMANO emergiu desta tragicamente solitária ousadia de Téspis; quem sabe o ATOR SOCIAL HOMEM possa emergir da futura comunhão dos modestos manifestos destes desbravadores?

...”Devemos fazer renascer esse impacto original do instante em que um homem (ator) apareceu pela primeira vez diante de outros homens (espectadores) , exatamente semelhante a cada um de nós e no entanto infinitamente estranho, para além dessa barreira que não pode se ultrapassada”...”Os meios e a arte desse homem, o ATOR, (para empregar ainda nosso próprio vocabulário) , ligavam - se também à MORTE , a sua trágica e horrível beleza”...(Kantor, T.; 1983, p.11, maiúsculas do autor) .

Viver, morrer, talvez sonhar, Eros e Tânatos, fertilidade, colheita, sexo, procriação, fome, saciedade, sociedade, alegria, sofrimento, passividade e agressividade, sublimações; motivos para ritualizar (com estilos singulares) a sensação de contato com o SAGRADO nunca faltaram. Entre a convivência diária e o teatro, a religiosidade costurou nossa fome de teo / teleologia .


Weber, Max (1980), por exemplo, em seu estudo da religiosidade indiana, analisa as direções da renúncia religiosa ascética do mundo através de recortes nas esferas política, econômica, estética, erótica, e intelectual; foi impossível também para ele dissociar os temas uns dos outros, para refletí-los com maior responsabilidade.

Hoje, as últimas gotas do antigo padrão de ingenuidade acabaram, se é que algum dia tamanha ingenuidade existiu, e sabemos o quanto - hipercomplexamente - questões íntimas, como as de gênero são “nobres”, ou “sagradas”.

Elas permeiam todas essas temáticas, essa rede de temas, que aguarda(m) nossos olhos de Kaspar Hauser, numa tradução mais responsável e reflexiva do que um dia chamamos ingenuidade.


Quem sabe o próximo exercício de capítulo que farei aqui se refira à IDENTIDADE - RELIGIOSIDADE e MASCULINIDADES?


Ilustração: "Escada de dois gumes para uso não humano" - Proposta performática de Marina Abramovic - 2008 - Fotografia minha, exposição em São Paulo.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

ATÉ SEGUNDA FEIRA (18 de maio) O NOVO TEXTO ESTARÁ (finalmente!) AQUI; ENQUANTO ISSO...



Tive o prazer de gravar o Programa "Mais Você" de Ana Maria Braga, na companhia de Marcos Nascimento e parte de sua equipe da Ong Promundo! (Dá para "clicar" nas fotos para ampliá-las; descobri essa obviedade há pouco tempo...rsrsrsrs).
Quem quiser conferir, e "tiver cabeça" para TV, fique de olho!
"Parece" que vai ao ar na terça-feira...
Não é perfeito eu estar envolvida com a divulgação do Curso (QUERO VIAJAR COM ELE PELO BRASIL!), e finalizando o texto sobre: "MASCULINIDADES - CULTURA - ARTE - INDÚSTRIA CULTURAL - CULTURA DE MASSA - (ect)"?...rsrsrsrsrsrsrsrsrs.....
Até segunda, FINALMENTE com o texto!...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

MATÉRIA SOBRE O CURSO "MASCULINIDADES HOJE" no Caderno ELA de O Globo - 25 de abril de 2009, sábado



Acreditem: tenho trabalhado muito por motivos óbvios, mas o próximo texto está em redação! Aguardem!

VISITEM TAMBÉM
http://www.telezoom.com.br/espaco/cursos/spip.php?article87

OBRIGADA!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

TRABALHOS GANHAM SENTIDO QUANDO ENCONTRAM INTERLOCUTORES; ajude, como puder, a divulgar :



O PRÓXIMO TEXTO ESTÁ SENDO ELABORADO; POR FAVOR, AGUARDEM!

domingo, 12 de abril de 2009

FELIZ SEJA LÁ O QUE FOR QUE PÁSCOA SIGNIFIQUE PARA SUA CRENÇA, IDEOLOGIA, ATEISMO, ETC.


MAS QUE OS OVOS SEJAM SEMPRE DE FÊNIX...

terça-feira, 31 de março de 2009

"INTERVALO COMERCIAL" ENQUANTO AGUARDAMOS O PRÓXIMO TEXTO (IDENTIDADE - MASCULINIDADES - ARTE - CULTURA - INDUSTRIA CULTURAL - HUMOR - PERFORMANCE)




JÁ QUE USAMOS TANTO A NOMENCLATURA ATORES SOCIAIS, VAMOS HOMENAGEAR TRÊS DAS MAIORES ATRIZES PROFISSIONAIS VIVAS DO MUNDO:

1a) MARIA DO CÉU GUERRA (Portugal)
2a) FERNANDA MONTENEGRO (Brasil)
3a) NORMA ALEANDRO (Argentina)

PARABÉNS E OBRIGADA!

OBRIGADA POR TUDO QUE VÊM FAZENDO NO PALCO DA ARTE E NO PALCO DA VIDA, já que até o seu trabalho exibe que o comprometimento de vocês envolve solidariamente o Ser Humano, em sua pluralidade e potencialidade!

VOCÊS COMPROVAM QUE É POSSÍVEL COMPREENDER O QUE SE PODE PRODUZIR MANTENDO A ÉTICA CASADA COM A ESTÉTICA.

sábado, 28 de março de 2009

REFLETINDO UM PLAUSÍVEL CASAMENTO DA ÉTICA COM A ESTÉTICA



OBS. Lembro que este texto faz parte de um conjunto de TRES.

O primeiro foi "REFLETINDO ECONOMIAS PLAUSÍVEIS", já no BLOG.

O segundo, “REFLETINDO POLÍTICAS PLAUSÍVEIS” (Já leu os dois?).

Finalizo a série refletindo agora sobre ÉTICA e ESTÉTICA.

Lembro que MUITOS temas abordados aqui, estão desenvolvidos em outros textos mais abaixo, no BLOG, a quem interessar possa.

Em breve vou colocar aqui um texto sobre Arte / Cultura / Cultura de Massa / Humor / Performance e Transperformances e - claro - Masculinidades, do modesto ponto de vista de uma psicóloga, que complementará as idéias desenvolvidas abaixo.


Resumo dos SUB-TEMAS desenvolvidos no texto abaixo:

- UTOPIAS PLAUSÍVEIS.

- Refletindo a ÉTICA; plausível? Refletindo a ESTÉTICA; plausível? O que as “costura uma à outra”...ou “descostura”?

- Espaço, territórios e fronteiras “ESFÉRICOS”? Imagem relacional (logo ética) e estilística (logo estética) plausível?

- Democratização da ESFERA ÍNTIMA para democratização da ESFERA PÚBLICA?

- INTIMIDADE, COMPROMISSO e CONFIABILIDADE; SOLITUDE e PRIVACIDADE; REFLEXÃO e PROCESSO DECISÓRIO; DUALIDADES e TRAGÉDIA; RAZÃO e EMOÇÃO; DISCURSO, PRÁTICA e RESPONSABILIDADE; MEDIAÇÃO POR MÍDIA-AÇÃO.

- A RAZÃO SENSÍVEL que parece faltar: embora não sendo Junguiana, REVENDO MITOLOGIAS E ARQUÉTIPOS.

- E, CLARO: PATRIARCALISMOS, PATRIMONIALISMOS, MASCULINIDADES, CRIANÇAS E GENTE EM GERAL.

************************************************************************************


“...Platão, obviamente, foi guiado pelo proverbial ideal grego kalon k’agathon (o belo e o bom) e é, portanto, significativo que tenha se decidido pelo bom, e não pelo belo. Desde o ponto de vista da idéia em si, que pode ser definida como aquela cujo aparecimento ilumina, o belo, que não pode ser utilizado, mas apenas resplandece, tinha muito mais direito de vir a ser eleito a idéia das idéias....” (Arendt, H.; 2008, pág. 51 e 52; negritos meus).

Pré-definindo, com o auxílio de muitos autores, e sob nosso foco, talvez singular:

ÉTICA: Diz respeito ao “BEM” ou “BOM” (idéia de), mas também à disponibilidade para a qualidade relacional humana.

ESTÉTICA: Diz respeito ao “BELO” (a dinâmica-epifania criada entre a obra e o espectador), mas também a estilísticas existenciais.

Ampliar os horizontes de emergência de novos Atores Sociais (“A MULHER”, “O GAY”, “O VERDE”, “O CIDADÃO COM NECESSIDADES ESPECIAIS”, e todos os que já existem, e que possam vir a se organizar), partindo da maternagem, exercida potencialmente por mulheres ou homens, somada a uma paternagem emergente (a partir do contingente masculino que começou a ver na paternidade um novo e renovado sentido, passando a reivindicá-la), para conquistar a fraternagem (já que bastaria um contingente maior de meninos criados sob cuidados tanto masculinos quanto femininos para que um grande diferencial fosse introduzido na qualidade das relações dos “Seres em processo de Humanização” em geral), é mais uma utopia plausível Pós Moderna (trágico-clownesca, como definirei na última parte do texto) que - mesmo lambuzada de riscos hipercomplexos - parece (ao menos) livre do caráter de impossibilidade das inatingíveis idealizações modernas (ainda românticas?).

Ampliar horizontes, partindo do investimento no risco de novas experiências íntimas de relacionamento, seja - por exemplo - nas “novas conjugalidades” como diz Marlise Matos (em seu livro de 2000), seja no coletivo das novas experiências públicas (novas propostas profissionais na renovação nas discussões sobre carga horária que proporcione mais tempo na intimidade familiar ou existencial tanto para mulheres quanto para homens, por exemplo); e/ou de cidadania (como na relação cada vez mais profunda entre o cidadão autônomo e o Terceiro Setor, por exemplo), é plausível .

Todas as iniciativas referentes a correr esses riscos envolvem, de alguma maneira, em algum momento, diferenças, conflitos e/ou divergências entre gêneros, e muitas delas têm sido – já - concreta e comprovadamente plausíveis.

O conceito de plausibilidade foge da postura estática, das idealizações, da mera arquitetura de idéias sem ações que as sigam, do discurso que se julgue verdadeiro.

Ao contrário, familiariza-se facilmente com instabilidades (e riscos), inclusive o da frustração como fonte de renovação da aprendizagem.

É o que nos restou entre os escombros dos sonhos românticos daquela “Utopia” sinônimo de idealização eternamente esperada (a “face supostamente boa” de Godot, que Beckett temia que ficássemos esperando?).

Segundo Michel Maffesoli, existiria um sólido “vitalismo social”, fruto da sinergia entre o pensamento e a sensibilidade, que - mesmo levando em conta as diversas imposições sociais - equivaleria a dizermos (ainda assim!) “SIM!” à Vida.

Equivaleria à plausibilidade do íntimo e do público se manifestarem simultânea e assertivamente (um exemplo da instância estética afirmativa pleiteada também por Marlise Matos em 2000, leitura que recomendo).

O conceito de Intimidade vem sendo transformado por múltiplas instâncias, e - se de nada serve “julgar moralmente”, maniqueistamente, o que vai sendo escrito na história humana - é a reflexão que nos recoloca na trilha da humanização e da “cri - atividade”.

F. Jameson dá alguns exemplos práticos das transformações da fronteira dos universos íntimo e público através de nossa recente relação com as propostas arquitetônicas pós-modernas, que têm surgido (infelizmente) com um toque populista, o qual se opõe - segundo ele - à austeridade elitista mas elegante da modernidade (antes de nossos tempos pós-modernos):

...”Não temos ainda (sequer) o equipamento perceptivo necessário para enfrentar esse novo hiperespaço,”... (Jameson, F.; 2001, p.64 e 65; parentes meus).

Ele o exemplifica através da citação de alguns edifícios que mais parecem o simulacro de um “espaço total”, de um “mundo completo”, espécies de “cidades em miniatura”, onde se move e se congrega uma aparentemente original “hipermultidão”, para quem os caminhos parecem previamente demarcados (populista, fascista, e autoritariamente?).

Onde o personalizado “passeio” determinado até pouco tempo atrás, com alguma autonomia, pelo próprio Sujeito Moderno é substituído pelas escadas rolantes, esteiras e/ou entradas e saídas estratégicas para a massa de consumidores em potencial, compulsoriamente expostos aos fetiches de uma suposta “produção cultural”, voltada prioritariamente para (fácil e rapidamente deglutíveis) mercadorias, que finalizam a (tentativa de?) reificação definitiva destes pós-modernos “passantes.

Em 11 de agosto de 2003, por exemplo, a Associação Comercial Carioca atribuiu, na imprensa, o suposto sucesso de vendas de presentes no “Dia dos Pais”, ao frio que imperou no Rio de Janeiro naquele fim - de - semana, que teria levado as famílias a “ir se divertir” nos “acolhedores Shoppings”.

Embora no próprio “Dia dos Pais”, muitas matérias sobre o “perfil do ‘novo’ Pai” tenham sido publicadas, no dia seguinte não houve quem avaliasse, na imprensa, alguma real transformação nesse jogo relacional, a não ser na prática coletiva do volume das vendas; e mesmo a este, o sucesso foi atribuído ao frio ambiente, ao altamente discutível e dúbio “conforto dos Shoppings”, (estética) e não a plausíveis transformações de jogo relacional (ética): prática cuja face coletiva começaria na íntima.

A quê ou a quem servem a ética e a estética “separadas”?...

...”o hiperespaço pós-modernista finalmente conseguiu ultrapassar a capacidade do corpo humano de se localizar, de organizar perceptivamente o espaço circundante e mapear cognitivamente (e autonomamente) sua posição em um mundo exterior mapeável.”... (Jameson, F.; 2001,p.70; parênteses em negrito meus).

O mesmo autor lembra ainda o texto de Walter Benjamim, entre 1927 e 1929 (“Passagens”) sobre Baudelaire (“Os passantes”), em que ele falava da emergência do Modernismo através da nova experiência de percepção corporal na tecnologia das cidades daquele momento.

Relê Walter Benjamim e diz que as personagens do texto de Baudelaire parecem já agora antiquados, pois o salto (quântico?) que demos, nos teria levado agora à alienação tecnológica, cuja “saída” plausível (que faço questão de relembrar, inclusive por ser a mesma proposta por diversos autores, com a qual comungo) estaria na reflexão, na autonomia, na ação individual e posteriormente coletiva, se possível utilizando o humor e a ironia como instrumentos de exercício crítico e resistência, como no oportuno texto:

...”Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”(De Augusto Monterroso, e considerado o menor conto do mundo; autor guatemalteco, falecido em 2002. Jornal “O Globo, Caderno ‘Prosa e verso’, coluna de Affonso Romano de Sant’Anna, p.2 , em 15 de março de 2003).

Para Jameson, aliás, ainda em seu livro de 2001, a arquitetura mais bem humorada seria a japonesa; um debate interessante para ele mesmo HOJE, para os entendidos no assunto, ou para futuros textos. Mas, sem dúvida:

...”O humor não é resignado, mas rebelde”... (Freud, S.; 1927, p. 191).

Benjamim já apontava em seu texto o autônomo caminho dos “passantes” de Baudelaire, ENTRE residências (esfera íntima) e lojas (esfera pública), como o LUGAR não só do fluir histórico, do efêmero, mas também como o espaço para o POÉTICO.

Assinalava entre eles três personagens-arquétipos daquele momento: a prostituta (simultaneamente vendedora e mercadoria), o trapeiro (o que recolhe e transforma o que a cidade vai jogando fora), e o flâneur (o agente de um ócio ora frívolo ora reflexivo que ‘não existiria mais’, até porque era, ou se sentia, dono dessa frivolidade e dessa reflexão, que ele freqüentemente transformava em poesia).

A questão da moradia (suas novas e cada vez mais exíguas dimensões - que contrastam com os “dinossáuricos” shoppings, a desigualdade social excludente que freqüentemente ela desenha e expõe à grosseria, sua relação com as questões de segurança cada vez mais instável, o semi - nomadismo do contingente de imigrantes que não se cansa de aumentar, etc.) não será discutida aqui, mas gostaria de levantar uma hipótese, vinculada tanto à consciência quanto à inconsciência coletiva, mas também ao tema das masculinidades e seu leque de assuntos:

- Habitamos, ainda, uma espécie de “espaço patriarcalmente demarcado”?

Se habitamos, para quais mudanças na arquitetura e no urbanismo poderíamos e deveríamos nos preparar, na medida em que parecemos agora aguardar a instalação de uma plausível transformação ainda mais significativa nas manifestações de falência do patriarcalismo na intimidade e no público?


...”A própria linguagem retém traços deste princípio de estruturação do mundo. Diz - se que os animais domésticos são ‘bestas na casa’, enquanto os selvagens são qualificados como ‘bestas no mato’. Da mesma forma, os homens são considerados como ‘pessoas na casa’ em contraposição às mulheres, pensadas como ‘pessoas no mato’.

Portanto um sistema de pensamento que ordena o mundo segundo uma gradação de valores. Não é somente que a situação da mulher seja inferior à dos homens, é a própria lógica do pensamento que atribui à forma ‘feminino’ um atributo de desqualificação”... (Renato Ortiz; 1989, p.23, em sua ‘Apresentação’ de “As Formas Elementares de Vida Religiosa", Durkheim, É.; 1989).

Apenas para indivíduos e coletivos já envolvidos e comprometidos profundamente (por exemplo) com a questão ecológica, “animais”, “mato” e “feminino” “intimidade” estariam longe de ser “desqualificados” inconscientemente...

Mas, por maior que seja este contingente Verde (inclusive no Brasil), seu porte ainda não é significativamente influente na Esfera Pública para que o urbanismo sofra a influência imediata de sua postura; não há “vontade política” que o sustente ainda, apesar do (plausível?) crescimento do Partido Verde, ou da Questão Verde, nos demais partidos, ou em grupos autônomos suficientemente influentes quanto estas iniciativas.

Moradia, Educação, Trabalho, Lazer, Religiosidade, etc. isto é, o SENTIDO DO LOCAL depende(m) de prédios, ou - ao menos - de espaços apropriados que os acolham:

...”O espaço habitado transcende o espaço geométrico”...”A casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. Incessantemente reimaginamos a sua realidade: distinguir todas essas imagens seria dizer a alma da casa; seria desenvolver uma verdadeira psicologia da casa”....

”1. A casa é imaginada como um ser vertical”...”Ela é um dos apelos à nossa consciência de verticalidade”...

”2. A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos chama para uma consciência de centralidade”...

...”podemos opor a racionalidade do teto à irracionalidade do porão. O teto diz imediatamente a sua razão de ser: ele abriga o homem, que evita a chuva e o sol”...”No sótão, vê - se desnudada, com prazer, a forte ossatura do madeiramento. Participamos da sólida geometria do carpinteiro. Quanto ao porão”...”ele é inicialmente o ser obscuro da casa, o ser que participa dos poderes subterrâneos”... (Bachelard, G.; 1957, p. 58, 34, e 35) .

Manifestações amparadas por mitologias; mitologias de Ártemis (a curotrofia de um teto), Apolo (a bela ordem ditada a partir de um sótão), e de Dionísio (num ctônico porão) poderiam ainda ser levadas em conta no contemporâneo imaginário da arquitetura da intimidade?

Como debater Cultura sem levar em conta mitologias e inconsciente?

Se o significado das relações (simultaneamente íntimas, coletivas e públicas) dos habitantes e passantes destes (ou nestes) estabelecimentos vai sendo abalado por novas reflexões e tempo, e especialmente abalado nas questões de gênero, é natural que aguardemos a concretude da visualização desta transformação da construção (da ordem de Apolo?) e da Arte (da ordem de Dionísio?), no acolhimento (da ordem de Ártemis?) fundamental ao desenho do espaço que habitamos.

É plausível que as crianças que venham a nascer nestes espaços (íntimos e públicos) já alterados após prováveis novas reflexões, venham a ser pessoas que poderão desenvolver relacionamentos e comportamentos (íntimos e públicos) bastante diferentes dos nossos.

Melhores? Só o risco e o futuro avaliarão e responderão.

Voltarei a esta mitologia mais adiante.

Quanto (ainda) à intimidade, levando em conta não só as conjugalidades (às novas tentativas contemporâneas, Anthony Giddens em 1992 dá o nome de “relacionamento puro”, que contrapõe ao “amor romântico”, definido como fadado à frustração), mas também os relacionamentos entre os adultos e as crianças (Jurandir Freire Costa assume a mesma nomenclatura em seu livro de 1999 no Brasil) .

Anthony Giddens (1992), se preocupa com as questões de direitos e deveres (ética?), e de expressão de confiabilidade mútua (estética?):

...”A possibilidade da intimidade significa a promessa da democracia:..”

...”Na esfera política, a democracia envolve a criação de uma constituição e, normalmente, um fórum para o debate público das questões políticas. Quais são os mecanismos equivalentes no contexto do relacionamento puro?”...

...”a autonomia permite àquele respeito pelas capacidades do outro, intrínseco a uma ordem democrática. O indivíduo autônomo é capaz de tratar os outros dessa forma e reconhecer que o desenvolvimento de suas potencialidades separadas não é uma ameaça”...

...”A democracia é entediante, o sexo é excitante - embora talvez alguns poucos possam dizer o contrário. Como as normas democráticas apóiam a experiência sexual em si?...” (Giddens, A.; 1992, p.205, 209, 206, 212).

Confiabilidade mútua que supõe a substituição de poder coercitivo por comunicação igualitária (inclusive nas relações que envolvam sexualidade), na transformação da “autoridade” numa “especialização” (quando a pessoa desenvolve habilidades específicas que o outro não possui), o que lhe devolve o significado de “autor” e minimiza (ou mesmo derruba) o de “ditador”.

Chama a atenção o quase “pedido de desculpas” deste autor pela consulta que fez aos “livros de auto-ajuda” para conseguir refletir sobre a evolução do conceito de INTIMIDADE.

Revela o descaso que “a Ciência ” e/ou “a Academia” têm dispensado ao tema da intimidade, e o quanto um pesquisador pode carecer ainda de bibliografia sobre essa questão.

Fui eu mesma procurar “o básico” para compreendê-lo melhor, e “tirar a teima”.

No Dicionário “Aurélio” a definição do conceito de INTIMIDADE é de tal maneira pobre que desisti de citá-la aqui.

Uma das versões do Dicionário “Houaiss” lembra ao menos que ‘intimidade é um fenômeno que pode se referir ao sujeito, à família, ou aos cidadãos’.

o “Vocabulário de Psicanálise” sequer a inclui em seus verbetes!...

Fiquei constrangida...

A transformação que o conceito de “compromisso” vem sofrendo toca a questão da privacidade.

Quando há reflexão, supõe-se que a privacidade de um sujeito tenha com o que alimentar beneficamente sua solitude.

Onde a reflexão tiver dificuldades de germinar (por quaisquer motivos), supõe-se que o risco destrutivo da solidão será maior.

Logo, lembro que solitude e solidão diferem.

A primeira é contingente, e não aprisiona o sujeito.

A segunda é corrosiva para a qualidade de vida emocional, e é encapsulante.

O primeiro de todos os compromissos é privado, e depende da reflexão: acontece entre o sujeito e ele mesmo.

Daí o sociólogo Robert Castel apontar para o pernicioso risco do que ele chama de INDIVIDUALSMO NEGATIVO contemporâneo (o aparente comportamento individualista de um enorme contingente de indivíduos, que não só por falta de talento próprio para isso, mas também pela pobreza da vida educacional-cultural de seu meio ambiente, são sistematicamente privados da oportunidade de construir um essencial universo subjetivo consistente, que aponte neles uma singularidade minimamente consistente).

Temos ou não temos muitos zumbis culturais circulando ao nosso redor, como corpos individualistas, sem uma alma que “banque” esse individualismo?

A prepotente (e suposta) “fria impecabilidade”, autoritariamente direcionada dos mega-espaços pós-modernos só parece reforçá-lo...

Casais ou famílias reflexivos(as) (seja lá o quê solicite e angarie a denominação de “casal” e/ou “família”, diante de nossas novas conjugalidades), e outros grupos humanos reflexivos quaisquer, renovarão seus acordos e sua confiança mútua com provável maior facilidade, e sua privacidade provavelmente será alimentada pela riqueza da privacidade de cada um de seus sujeitos. Plausível!

Essa “espiral de qualidade de compromissos” que se amplia (da maior das privacidades até o coletivo) é o que tem “transpirado” de tantas e múltiplas novas plausibilidades que andam (apesar de tudo!) emergindo, e que dependerão de (novos?) processos decisórios.

A “mídia-ação” tem flexibilizado (para o “bem” e para o “mal”) os conceitos de intimidade e privacidade, e é a primeira vez que este “Ser em Processo de Humanização” que somos tem a oportunidade de escolher, inclusive, ocultar ou expor coisas indubitavelmente íntimas para uma multidão invisível; “virtual”.

Multidão composta por outros sujeitos que provavelmente não se “conhecerá pessoalmente”, o que clama por um jogo altamente arriscado de confiabilidade que até pouco tempo atrás desconhecíamos: estamos assistindo o seu nascimento; poderemos vê-lo se transformar; se desenvolver criativamente...ou falir.

A Rede “radicalizou” essa possibilidade num limite ainda incalculável, e - neste exato momento - milhares de sujeitos individuais e coletivos despem sua intimidade ou sua privacidade (alguns, inclusive fazem o mesmo com intimidade e privacidade inventadas, ou performáticas), colocando-as no limite do risco, dando a elas um simultâneo papel público, sem o apoio de acordos prévios satisfatoriamente seguros de reciprocidade. Como avaliar o resultado deste movimento que envolve homens e mulheres ainda embebidos em patriarcalismos, e que pode estar exibindo um simulacro, um fac-símile de alguma coisa que mereça verdadeiramente o nome de Intimidade?

Navegamos riscos, e a “dupla que não se larga” se nós mesmos, por má fé, não "decretamos" sua separação:

- QUESTÕES DE AVALIAÇÕES ÍNTIMAS = QUESTÕES ÉTICAS;

- QUESTÕES DE PERFORMANCE PÚBLICA = QUESTÕES ESTÉTICAS.

Afinal, o distanciamento corporal-emocional, ou a cisão entre racionalidade-sensibilidade, e ainda a qualidade duvidosa da capacidade de comprometimento com relação à Intimidade (tidos pelo senso comum como “conflitos tipicamente masculinos” ou patriarcais), incluindo tanto a Intimidade consigo mesmo, quanto a Intimidade com o Outro, chega a ser comentada pelo cidadão comum em muitas filas de banco; ”caiu na boca-do-povo”, popularizou-se; beira o tolo senso comum...

A questão da dificuldade patriarcalista-masculina quanto a intimidade chega até a ser motivo de piadas e textos humorísticos diversos (bastaria uma consulta à obra de Luis Fernando Veríssimo para obter uma verdadeira “aula” sobre isso).

Há também uma similar limitação asséptica (patriarcal), e vocacionada à possibilidade da “mera representação de papéis”, no serviço que a Rede proporciona à sua amostra (por exemplo, o volume de indivíduos que adota personagens, e que “se identifica” através de perfis fictícios – logo, simulacro de perfil - para o “bem” e para o “mal”, na REDE).

Mesmo que se alegue ser apenas “uma reprodução previsível da proposta narcisista, egoísta dos relacionamentos contemporâneos em geral”, ou que se alegue ora “ser só uma inocente atividade lúdica”, ora "ser o melhor dos esconderijos para o crime", por tudo que já levantamos até agora, fica claro que - em primeiro lugar - o perfil solipsista da arriscada perversão embutida nesta proposta internética “faria o gosto” do caldo cultural patriarcalista, sim!

Caldos culturais patriarcalistas ficam muito satisfeitos com assepsia aparente, com simulacros, com solidão, com “relações-de-mentirinha”...(e - porque não - com o crime).

Onde e como delimitar a fronteira entre o humor, a mera performance, e a perniciosa fraude maliciosa?

Logo, se nos basearmos no que dissemos acreditar até esta linha (eu e os demais autores que me amparam), alguma novidade deve ser introduzida também nesse (ainda) novo jogo relacional nos próximos anos em nome de sua sobrevivência, pois - senão - estará fadado ao mesmo fracasso do patriarcalismo como um todo.

Patriarcalismo: ele mesmo um insustentável simulacro de Poder?

Deixo a pergunta, mais uma vez, por provocação, no ar.

A utopia PLAUSÍVEL que (com otimismo e sem pressa alguma) comungo com alguns autores talvez esteja no exercício do triunfo da capacidade reflexiva sobre os percalços das minúcias da superficialidade da realidade cotidiana, íntima e/ou pública; exercício que qualifique ainda melhor a autonomia e processos decisórios.

É como se essa capacidade de reflexão compensasse a lida com os obstáculos da ordem do prosaico real, reequilibrando alguma confiança no Sentido de existir.

Pois, se nosso destino, trágico por natureza, estiver comprometido com o exercício de REFLETIR, o passado e o presente mostrariam que nossa fugaz passagem por aqui é vocacionada a PLAUSIBILIDADES.

Já a tal “FELICIDADE”, seria “pedir demais”, não é mesmo?...

...”A dialética das felicidades e das dores nunca é tão absorvente como quando está de acordo com a dialética temporal.”...”Reviver o tempo desaparecido é assim aprender a inquietude de nossa morte”...”Nossa história pessoal nada mais é assim que a narrativa de nossas ações descosidas e, ao contá-las, é por meio de razões, não por meio da duração, que pretendemos dar-lhe continuidade”... (Bachelard, G.; 1936/1988, p.38).

A utopia da Psicanálise - (não mais compulsoriamente relegada à prática clínica, mas assumida como ótica integrada definitivamente ao Pensamento em processo de humanização, e à conseqüente Prática responsável da aplicação desse Pensamento à alteridade) - talvez dê o braço às utopias da Sociologia, agora.

...”a narrativa sociológica não era ‘por direito’ superior a outras narrativas, pois tinha que demonstrar e provar o seu valor e utilidade pela qualidade de seu produto. Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstoi, Balzac, Dickens, Dostoievski, Kafka ou Thomas Morus muito mais insights sobre a substância das experiências humanas do que de centenas de relatórios de pesquisa sociológica”...”O que aprendi com Borges? Acima de tudo, aprendi sobre os limites de certas ilusões humanas”...(Bauman, Z.; Caderno MAIS! Folha de São Paulo, 2003, pág. 9).

Preza (como a Sociologia) a aplicação dos fenômenos íntimos de um emergente Sujeito, não só amante da alteridade refletida (ÉTICA), mas também dono (e exibidor) de estilos existenciais (ESTÉTICA) nas minúcias do convívio coletivo da realidade cotidiana.

...”Dialogar não é fazer acordos (retóricos) fáceis, mas tentar uma abertura entre os grupos a partir de questões concretas”... (Gebara, Ivone; 1997, p.23; negrito entre parênteses meus).

Para exercer essa utopia, a psicanálise se re-vocacionará à plausibilidade, de novas reflexões (sobre as "novidades do mundo"), e de novas ações (não se restringindo mais aos consultórios) após um período de teorização retórico, que beirou a esterilidade de (talvez vaidosamente) se supor mais um “discurso verdadeiro” (o que já foge ao nosso assunto nesse texto).

Michel Maffesoli foi além da mediação entre dualidades, ao propor (a partir de muitos autores anteriores) uma “sensibilidade da razão” em seu apelo a novas maneiras de pensar a Sociedade, o que – aliás - Gaston Bachelard também já oferecia ao Pensamento nos anos 30:

...”Quase sempre se confunde a ação decisiva da razão com o monótono recurso às certezas da memória. O que sabemos bem, o que experimentamos várias vezes, o que repetimos fielmente, facilmente, calorosamente, dá uma impressão de coerência objetiva e racional. O racionalismo tem então um gostinho escolar.”...”para pensar, quanta coisa há primeiro que desaprender! E então, virar o racionalismo do passado do espírito para o futuro do espírito, da lembrança para a tentativa, do elementar para o complexo, do lógico para o surlógico, eis algumas tarefas indispensáveis para uma revolução espiritual.”... “Em suma, é preciso devolver à razão humana sua função de turbulência e de agressividade. Contribuiremos assim para fundar um surracionalismo que multiplicará as ocasiões de pensar”...”a sensibilidade e a razão serão devolvidas, uma e outra, juntamente à sua fluidez. O mundo físico será experimentado em novos caminhos. Compreenderemos de outro modo e sentiremos de outro modo.”...(Bachelard, G.; 1936/1974, p. 6; sublinhado meu).

O “desenho” de suas propostas é ESFÉRICO, é urobórico (começa e acaba nela mesma, o que suporia submeter razão e sensibilidades a renovados diálogos e, o resultado disso – reflexivamente - a constantes revisões), embora não autofágico (não come “o próprio rabo” ou a si mesma; só se revê para responsavelmente se renovar):

...”No caso, trata-se de dar ao termo estética seu sentido pleno, e não de restringí-lo ao que diz respeito às obras de cultura ou a suas interpretações. Mostrarei que a estética difratou-se no conjunto da existência. Nada mais permanece incólume. Ela contaminou o político, a vida da empresa, a comunicação, a publicidade, o consumo, e - é claro - a vida cotidiana.”...”A partir de então, a arte não poderia ser reduzida unicamente à produção artística, entendida aqui como a dos artistas, mas torna-se um fato existencial. ‘Fazer de sua vida uma obra de arte‘ , não se tornou uma injunção de massa?“... ( Maffesoli , M.; 1996, p. 12; sublinhado meu).

ESFERA pública, por exemplo, passa a ser, a partir daí, uma curiosa denominação, tendo seu significado ampliado, metaforicamente ou não.

E acrescento meu “Sim”, em resposta ao autor.

Fazer de conta que não vivemos numa sociedade de massa, que transpira uma cultura de massa, seria patético... Adoraria morar, por exemplo, no Sítio-do-Pica-Pau-Amarelo; mas é AQUI, no MUNDO, que estou...ou ao menos pareço estar.

Sua proposta (que não é nova, mas bem lembrada) é plausível, principalmente quando vemos a razão sensibilizada da sociedade civil global (através de Movimentos Sociais e Ongs que se multiplicam, por exemplo) desenhar uma esfera pública transnacional, que prova a plausibilidade de uma governabilidade (ou governança) global, a plausibilidade da sustentabilidade da busca de uma progressiva (por que não “BELA”) cidadania planetária, no ESFÉRICO PLANETA.

D. Held e A. McGrew (2000) afirmam que os globalistas social democratas (ora, ora!) buscam uma nova ética global que inclui o “dever de cuidar” como o melhor dos freios aos efeitos nefastos da globalização econômica, onde a eficiência econômica transformar-se-ia num enorme nada, se não estiver aos serviços da segurança humana.

Prefiro lembrar Hannah Arendt, que descrevia nosso destino trágico como se fôssemos transeuntes de um caminho que já nascia dividido entre duas datas: a de nossos nascimentos e a de nossas mortes.

Transitaríamos, sem parar, esse nosso fugaz tempo pré-limitado, entre muitas outras dualidades (essência e aparência, bem e mal, natureza e cultura, vinganças e perdões, etc.).

Enquanto transitássemos, nos expressaríamos por mais duas dessas dualidades: pelo DISCURSO e pela PRÁTICA.

O prumo, o equilíbrio plausível para suportarmos esse trânsito, a angústia frente tantas dualidades, e qualificarmos melhor nossa expressão, nesse nosso comum caminhar, seria dado por um terceiro elemento: pela RESPONSABILIDADE; só a inclusão desse TERCEIRO ELEMENTO nos nossos recursos expressivos nos daria o merecimento de assumirmos nossa CONDIÇÃO HUMANA.

Como o faríamos sem refletir?...

Segundo a utopia plausível de mediação de J. Habermas (2002), a Mídia, que sequer sobreviveria sem renovações sistemáticas na ética (ética pode "respirar" modernidades!), e/ou sem o exercício da estética, vem ganhando cada vez maior poder, não só por sua associação ao poderoso Mercado, mas também porque tem sido a instância encarregada de fazer a preciosa mediação (“mídia-ação”) entre o “Mundo da Vida” (nós e nós mesmos, a família, os amigos, as instâncias da vida íntima), e o “Mundo Público” (Estado, Mercado, Partidos, Religiões, Escolas, instituições privadas ou governamentais, etc., as instâncias da vida pública).

Até poucos anos atrás, a História da Humanidade nem falava do “Mundo da Vida”, e este ficava cada vez mais desconectado do “Mundo Público”; seus relatos hibernavam nas cavernas das entrelinhas...

Por outro lado, a vontade política do “Mundo Público” depende do fluxo de opiniões, da formação de opiniões, nascidas no "Mundo da Vida", que poderão - ou não - gerar formação de novas vontades, e alimentar posteriormente de poder essas vontades.

Esse fluxo, essa formação, essa informação precisam vir do “Mundo da Vida”.

Assim, os dois lados precisavam de alguma transformação para sobreviver: o “Mundo da Vida” precisava de conexão para se alimentar de voz e democracia (os cidadãos vão renunciando à sua participação crítica e assertiva na esfera pública para se tornarem meros “clientes”!), enquanto o “Mundo Público” precisava perder o duvidoso e instável significado de “definidor autoritário de discutível democracia”.

Lembro, mais uma vez, a importância da reflexão, pelo exemplo da Alemanha nazista: democracia NEM SEMPRE é sinônimo de expressão de um “BOM” desejo da maioria...

Em tempos de sociedade e cultura de massa patriarcalistas, se a maioria NÃO É AUTÔNOMA, e se há “Papais-do-povo”, que supostamente “sabem-o-que-o-povo-quer” por perto, HÁ PERIGO NO AR...

Não-autônomos patriarcalistas são bebezinhos loucos por um “Papai-sabe-Tudo”...

A Mídia, com toda a crítica que eventualmente se possa fazer (e manter) ao seu exercício, (o que não cabe discutir aqui), foi conquistando a responsabilidade de ser a ponte para o diálogo, ou o “Arco-Íris mitológico”, possibilitador desta interatividade.

Algum “espaço de luta” sempre existiu entre “os dois mundos”, mas a discussão freqüentemente ia para o constrangimento e esvaziamento que ocorrem quando falta continência reflexiva.

Lembremos o sem dúvida “belo” trabalho da cineasta preferida do nazismo, Leni Riefenstahl, ou as insuportáveis musiquinhas “eu te amo, meu Brasil, eu te amo”, ou “esse é um país que vai prá frente”, que nos são, infelizmente, tão familiares...

Quaisquer carros parecem melhores se os(as) motoristas são competentes e responsáveis.

Os(As) motoristas desses carros, agora, somos nós!

Comungamos com o Habermas, J. (2002) que crê que democracia qualificada só se faz a partir de uma cidadania autônoma; o Terceiro Setor (apesar de seus inevitáveis e eventuais humanos “pecados”) ainda é um dos melhores exemplos de nossos exercícios de ensaio e erro em busca dela.

Terceiro Setor “de verdade”, por definição, não quer PODER; quer voz para DIÁLOGO. O fato de existirem ONGs fraudulentas, não invalida o SENTIDO de ter emergido o Terceiro Setor...

Quanto mais se falou do Terceiro Setor num espaço “midiado”, mais ele se ampliou pela mediação dos debates suscitados.

A Política e o Mercado convencionais também lucraram, pois ganharam com quem compartilha responsabilidades, votos e consumidores melhor qualificados. Acolheram e apoiaram o Terceiro Setor na mídia não por “bondade desinteressada”, mas como investimento em sua própria popularidade...e funcionou: ganhamos todos.

“Espaço Público” e “Esfera Pública”, como Conceitos pertencem a J. Habermas.

A respeitabilidade que o tema da Ecologia (por exemplo) ganhou, a partir da mediação exercida entre a voz do “Mundo da Vida” e o “Mundo Público” pela Mídia, TEM levado a uma legitimidade institucional cada vez maior, que tem beneficiado imensamente os “dois mundos”.

O “Mundo da Vida” o desejou, e começou a cobrar do “Mundo Público”, de um tempo para cá, alguma demonstração de interesse, vontade política, TAMBÉM sobre as masculinidades.

Água mole em pedra dura, foi iniciada a veiculação, na mídia, da questão “Universo das Masculinidades”. A mensagem do Mundo Íntimo chegou ao Mundo Público, e já começa a ecoar a resposta de volta ao Mundo da Vida.

Esperemos que o movimento midiático que agora chama a atenção para as questões do masculino (recorrentes matérias jornalísticas, programas televisivos sobre o masculino, renovação de ótica e abordagens diversas em propostas publicitárias, propostas e apoios do avançado atual Ministério da Saúde brasileiro, filmes, peças de teatro, etc.), atinja o mesmo sucesso gradual conquistado pela questão “Universo da Ecologia”, para benefício do “Mundo da Vida”; para que nossos meninos, especialmente os de sexo masculino, sejam salvos do filicídio; sejam melhor “preservados”...

Indivíduos ou coletivos quando são (ou estão) imersos nas inevitáveis humanas dualidades, SEM RFLETIR SOBRE ELAS, SEM SE RESPONSABILIZAR POR ELAS, costumam supor que “o Mundo da Vida” e “o Mundo Público” estão “resolvidos”: as coisas são “boas” ou “más” , ou “certas” ou “erradas”, “virtuosas” ou “pecaminosas”, e assim por diante.

Isso não só NÃO alimenta a reflexividade, como os distancia dela, mantendo (ainda a maioria?) num aparente “conforto intelecto - emocional”, ou TORPOR irresponsável.

Nosso inconsciente tende à infantilização, logo à irresponsabilidade; para se tornar responsável, há que se “comer muito feijão-com-arroz reflexivo e de ações responsáveis”, e crescer, amadurecer.

Há muitos comendo e amadurecendo, felizmente!

A ação da mídia, deflagrada por núcleos humanos de resistência ao conservadorismo que emergem na ESFERA Íntima, vem “reeducando” o cidadão comum menos reflexivo (boas campanhas de saúde inclusive referente especificamente a seres nascidos com sexo masculino, meio ambiente, ou a flexibilização de comportamentos na direção da maior tolerância ao Outro). Mas não só ele.

A ação dos cidadãos e consumidores reflexivos também “reeduca” à ESFERA Pública e a própria mídia, lenta e gradualmente, pela MEDIAÇÃO entre o que emerge do íntimo e o que chega – por exemplo - ao Mercado, como reação: foi criado o Direito do Consumidor, há campanhas contra a programação televisiva grosseira ou violenta, assim como contra campanhas publicitárias identificadas pelo público como hipócritas.

Enquanto um INTERFERE no OUTRO, instala-se, mais uma vez, um TERCEIRO ELEMENTO, o DIÁLOGO.

Ao final de maio de 2003, Edgar Morin participou, ao lado de Jean Baudrillard e Michael Heim da conferência “A subjetividade na cultura digital - O Eu em Rede”, no Centro Cultural Cândido Mendes no Rio de Janeiro, definindo - por exemplo - o que chamou de “planetarização subjetiva” e “planetarização objetiva”.

Segundo o palestrante, a planetarização objetiva é quando você percebe que tudo à sua volta está globalizado (frutas do Brasil, roupas da China, toca-fitas japonês, etc.).

A planetarização subjetiva se refere a poder receber influxos do “Eu” vindos de todo o planeta via Rede; a realidade virtual seria um paradoxo em si, porque o virtual é realizável, mas nunca realizado; mas o verdadeiro paradoxo viria do fato de que estamos acostumados a falar só de uma realidade, aquela apreendida pelos sentidos.

Esta realidade virtual, para ele, é fruto do espírito humano e não do cálculo digital; a inserção no mundo dos “bits” leva a criar um “duplo espectral”, um “ego virtual”.

Ainda segundo o palestrante, somos, eventual e infelizmente, também “máquinas triviais”, mas é nossa consciência que nos torna “máquinas não-triviais”, e a potencialidade é nos libertarmos do determinismo através do “estado poético”, o “estado das paixões”, o “estado das emoções”.

Tão freqüentemente injustiçados com a conceituação de “estados doentios”, ganham neste caso, de Edgar Morin, o status medicamentoso...

Viver poeticamente seria a resposta da subjetividade aos riscos da inadequação tanática (sempre presente) deste não necessariamente admirável “novo mundo novo”.

Da criação do folhetim (sem o qual a construção da Revolução Francesa teria sido bem mais difícil), passando pelo sucesso das páginas policiais jornalísticas, até a popularização dos “sites” ou páginas internéticas - hoje já consultadas por muitas crianças de nossa rede pública -, e a proliferação dos “blogs” (a página internética da pessoa física, ou - quem sabe? – o filé mignon de uma “estilística internética”), desenvolvemos a tessitura do que hoje podemos chamar de mídia-ação, cada vez mais atuante, agente consciente de mediação.

O próprio folhetim não só não morreu, como - dependendo da audiência que conquiste (o que pode hoje ser medido simultaneamente à sua exibição) e do caráter da equipe responsável por ele - pode mediar, com dignidade, assuntos do real interesse da comunidade, colaborando com o diálogo entre “o Mundo da Vida” e “o Mundo Público”, ao atingir um público numericamente e qualitativamente fabuloso; o exemplo do momento é o debate sobre os rapazes apelidados de “pit-boys” (sim, a questão não seria exclusividade dos rapazes, mas os atingiria em particular, como sempre!), e especialmente a relação dessa geração (sob a síndrome do individualismo negativo?) com seus pais e professores.

Curiosa “Sincronicidade”: registro que, no Caderno Mais! da Folha de São Paulo de 18 de maio de 2003 é publicada uma matéria de Ciência, assinada por Connor, S. e traduzida por Allain, C. cuja “chamada” afirma que:

...”Russo (Grigori Perelman do Instituto Steklov de Matemática de São Petesburgo) afirma ter solucionado um dos problemas matemáticos mais elusivos do milênio; trata - se da conjectura de ( Henri) Poincaré ( 1854 - 1912) , concebida no século XIX , que sugere que todas as formas da geometria podem ser reduzidas a esferas e roscas.“... (Connor, S.; 2003; sublinhado meu).

A imagem da ESFERA parece familiar ao universo feminino: esféricos dionisíacos glúteos para a sedução, esféricas barrigas da responsável apolínea maternidade, esféricos seios para o acolhimento artemisiano em outros múltiplos momentos.

A imagem da esfera continuaria parecendo ansiógena para o contingente masculino? Para o patriarcalismo em crise?


Já que a próprio Pensamento clama pelo Olhar Poético, logo para o Olhar Mitológico, voltemos, finalmente, para a mitologia que me atrai como reflexão para nossas questões.

Falar de ética, estética, cultura, e mesmo dos produtos da (bárbara?) indústria cultural sem sermos guiados pela mitologia de Apolo e Dionísio, seria impossível. Não mais deuses, mas ainda arquétipos, são identificados como caminhos paralelos para que se alcance a energia criadora.

As duas versões do mito unem Apolo e Dionísio como dois modos de um só evento, combinando a forma apolínea (a lira) e a força dionisíaca (o oceano)...(Pense-se também, ainda em contexto grego, nas lendárias harpas eólias, tocadas pelo vento.)”...”As notas musicais são os delfins desse oceano sonoro: pontos de apoio e de referência, sinais de inteligência no vasto domínio do indiferenciado”...(José Miguel Wisnick; 1989, pág 66).

Onde houver alguém falando de Arte ou de criação, lá estará alguém se reportando à dupla; o Teatro adotou suas imagens, suas máscaras, como símbolo: o nascimento da Tragédia (ou, como prefiro, do tragicômico).

Mas não só o Teatro:

...”uma longa tradição ligue simbolicamente a música ao mar, e alguns mitos gregos formulem de maneira eloqüente o caráter oceânico do som: Arion, prisioneiro de marinheiros que querem atirá-lo às águas, pede para entoar o seu próprio canto fúnebre, acompanhado da sua lira, e em seguida se lança por conta própria ao oceano onde os golfinhos, delfins de Apolo, atraídos pela música, o salvam; Dionísio, preso nas mesmas condições, transforma os piratas em golfinhos, condenados para sempre a salvar os náufragos”...“o músico é capaz de dominar as forças informes do inconsciente, fazendo - as atuarem a seu favor; a música é um rito de passagem em que o sujeito se lança à morte (escolhendo por um artifício onírico, diria Freud, aquilo que não tem escolha) e renasce dela. (José Miguel Wisnik; 1989, p. 66).

Mas parecemos começar a perceber que a dupla "não basta"; que fica faltando alguma coisa, algum TERCEIRO ELEMENTO que parece presente, mas oculto, algum ingrediente, no ”milkshake” de inquietude e resignação da Arte (ou da criação), supostamente regida apenas por Apolo e Dionísio, que pareça vencer com maior eficácia a cicuta falocrática (da ganância por poder, da violência, da truculência, da indiferença) que é - também - oferecida diariamente aos seres em processo de humanização.

...”Caio num subterrâneo e não saio mais, nunca mais saio. Nunca mais no Masculino. Já falei: o Masculino não é nada. Ele segura a força, mas me envolve na força. E para o exterior é uma palmada, uma larva de ar, um glóbulo sulfuroso que explode na água, este masculino, suspiro de uma boca fechada no momento que se fecha”...”Desse enorme bramido de mastim, o rosto feminino é fechado, acaba de se afastar”... (Artaud, A.; 1986, p.81).

Fica faltando o terceiro esteio do tripé mitológico: Ártemis, a deusa curotrófica, gêmea de Apolo, e ctônica como Dionísio, sempre presente onde estão os dois, “dando liga” com seus próprios mitos aos mitos dos outros dois, igualmente portadora de máscaras em seus (performáticos?) ritos, como nos dos outros dois.

Cuidadora piedosa por excelência, especialmente das instâncias e seres nomeados como pertinentes à ordem da Natureza e encarregada dos principais ritos de passagem da adolescência para a vida adulta, o que pode ser interpretado também como o ("rito do") processo de amadurecimento dos seres em processo de humanização, ou ainda da permanente “viagem” pelas fronteiras entre a Natureza e a Cultura.

Cuidadora da distinção entre agressividade ou indignação “justa”, sem hipocrisias (ou simplesmente humana) e a violência vazia de Sentido.

A plausível face feminina acoplável à dupla mitológica Apolo/Dionísio tem sido falocráticamente esquecida, ocultada, sepultada, como se fosse possível ao ser em processo de humanização “transitar os infernos” da inquietude criadora sem a “condução” de Eurídice, de Beatriz, de Margarida: manifestações simbólicas secundárias (ou posteriores máscaras metafóricas) da Ártemis piedosa.

....”Quando Orfeu desce rumo a Eurídice, a arte é a potência na qual a noite se abre. A noite, pela força da arte, o acolhe, torna-se intimidade acolhedora, entendimento e acordo da primeira noite. Mas é rumo a Eurídice que Orfeu desce”... (Blanchot, M.; 1955 / traduzido por Angela Leite Lopes em 1986, p.9).

Dionísio, graças à sua dubiedade mitológica, arcou com a referência mitológica "feminina" ao longo do incremento da per-versão patriarcalista e falocrática. Patético: até para divagar e se referenciar mitologicamente, a falocracia preferiu substituir a interferência de uma face feminina por uma dúbia , mas que supostamente continuasse a "lhe" pertencer!

É compreensível (por exemplo) que um homem da idade de Alain Tourraine (fruto de uma geração específica) coloque como Projeto Pós-Moderno a expectativa da maior emergência de uma coisa que ele chama de “atores sociais femininos” (como vimos num texto anterior), certamente sem se referir necessariamente a mulheres, mas sob a “natural” influência de simpatias pelos resultados de longuíssimo prazo do feminismo e seus movimentos secundários/paralelos. Ou que Elizabeth Badinter, por um breve período de pesquisas e teorizações, tenha interpretado a possibilidade de "mudanças" como uma caminhada para uma espécie de "androginia" dos casais , período que ela superou em seu livro seguinte específico sobre as masculinidades, após aprofundamento de reflexões.

Na verdade, o que poderá um dia transmutar as per-versões falocráticas, patriarcalistas, para OUTRA COISA, mais qualificada e digna de nossa CONDIÇÃO HUMANA, será a emergência de atores sociais masculinos reflexivos de si próprios: mas um “MASCULINO COM REFERENCIAL MASCULINO”, TÃO AUTÔNOMO QUANTO O FEMININO, E COM RENOVADO PROJETO PRÓPRIO, que tenha (re)construído assertivamente seu próprio referencial sobre o conceito de feminino e / ou de Outro.

Estas “entidades” apolíneas / dionisíacas / artemísias não são mais os nossos deuses (mesmo para os que praticam atividades religiosas neo-pagãs como os membros da Wicca, a relação com estes “deuses” não é nem de perto semelhante a dos gregos da antigüidade), mas são ainda referenciais inegáveis da construção de nossa subjetividade, e só não o “vemos” melhor, por raramente praticarmos alguma espécie de “arqueologia genética da tradição de construção de nossos saberes” nos dias de hoje, o que é uma pena...e um perigo...

É impossível desenvolver uma suculenta discussão psicológica, antropológica ou sociológica sem procurar em algum momento o amparo desse referencial.

Não refletir sobre isso, a partir de agora, poderia significar assumir uma postura pateticamente ingênua de que “a contribuição do feminismo é que resolveria as questões masculinas”.

A emergência do feminismo provocou, na verdade, uma das grandes “viradas” para novas maneiras de ver a existência e a convivência na existência; interferência forte o suficiente para provocar a emergência de outras Questões (lembro, com maiúscula).

Entre estas, as conseqüências da per-versão patriarcalista / falocrática, o que inclui todas as hipóteses que já levantamos, em tantos textos, sobre o ônus que acaba recaindo sobre os ombros do contingente masculino.

Seria fundamental a re-inclusão da reflexão assumida sobre o significado do mito de Ártemis, neste plausível tripé mitológico, para que curiosamente caracterizássemos (ao menos na face mitológica da reflexão de gênero) que o feminino se discute a partir de seu referencial específico (ótimo!), mas que o masculino tem também sua cota própria mitológica, e que - logo - é ancestralmente autônomo para discutir suas Questões. Se uma coisa ganha lugar, o lugar das outras fica mais claro!

Ritos, sem a sustentação do mito, viram folclore; mitos que não sejam ritualizados, viram lendas.

Sem sustentação de Mito, ficamos sem sustentação metafísica: resultado, a barbárie.

Sem o exercício do Rito, ficamos sem o exercício do desenvolvimento cultural: resultado, nossso processo de humanização segue sempre sabotado, capenga e preguiçoso.

Caso este tripé mitológico voltasse a conquistar alguma espécie de “ritualização” (reflexões, pesquisas, estudos, sistemáticos, poderiam ser perfeitamente considerados “rituais”!), na medida em que teoricamente agora já temos a informação do valor de tudo isso, talvez o lugar de todos os valores ocultados ou sepultados pela falocracia reinante poderia se arejar e se renovar.

Um exemplo: o Humor. Ele se ampliaria, (re) conquistando seu papel de agente de alguma espécie de “reforma agrária do choro e do riso”, se fosse tratado com a mesma “nobreza” dedicada costumeiramente à tragédia, e não como um agente reflexivo e/ou informativo, e/ou formador “de menor importância”; às vezes tolerável, mas “não tão nobre”.

Não sou a primeira a pensar e a apostar nesse tripé.

O psicanalista Edward Whitmont (em 1982, outra leitura que recomendo), ao alertar para a gravidade de Apolo ter subido ao poder, enquanto Dionísio era gradualmente rejeitado e reprimido, e Ártemis era oculta “embaixo dos tapetes”, faz bem mais que uma metáfora para as seqüelas (per-versões) da modernidade.

Nossos inconscientes não suportam mais o silêncio forçado: os “gêmeos nietzscheanos” Apolo e Dionísio, os gêmeos por nascimento Apolo e Ártemis, os ctônicos cúmplices Dionísio e Ártemis, a Angústia dos seres em processo de humanização exposta em suas inevitáveis dualidades, não toleram mais a já limitada máscara compulsória de suposta mera "rivalidade entre Apolo e Dionísio"...

Artaud (e MUITOS outros!), como vimos, queria uma criação, uma Arte, com algo mais que "os latidos de mastins"...

RECOMENDO, claro, A PESQUISA DOS MITOS dessas três entidades aos interessados (se eu os reproduzisse aqui, o texto ficaria interminável).

Não sou Junguiana, mas não sou estúpida a ponto de desprezar certas reflexões acima de tudo humanistas, com chaves antropológicas nas mãos...


Por isso proponho uma “entidade arquetípica” para nossa ética estilística de existência pós-moderna, de dupla função: os “trágicos clowns”.

Deuses e Significados, Apolo (a cultura, a limpeza, a impecabilidade, o rigor), Dionísio (a natureza, a sujeira, o “pecado”, as contradições, o desespero e a gargalhada, a crítica) e Ártemis (a alteridade e sua compulsória compaixão, as transições, a tradução, a responsável condução no “trânsito” vital) eram (são !) ritualizados com máscaras.

Clowns usam (“são”) máscaras.

A máscara tradicional clownesca “COMPLETA”, por enquanto DUAL, à qual nos acostumamos, depende sempre da(s) dualidade(s): comédia e tragédia.

São necessárias ao menos as duas para que “o ator emerja” no teatro; as duas ligadas, associadas, costuradas.

Costuradas?... Mas com que “linha”?

Talvez a “linha” de UM TERCEIRO ELEMENTO, um terceiro mito, mantido “oculto”, num subtexto velado: o “mito” do olho que transita entre as dualidades, cuidando delas, costurando-as para que tenham (aí sim!) SENTIDO.

Porque não observar o mesmo quanto os novos (não só femininos) “atores sociais” ?

Será que só mediante a liga entre as dualidades “o teatro-da-vida acontece”?

Porque não re-construir a “cena gerúndica e esférica” (como nas arenas das tragédias e dos circos) o que poderíamos experimentar, incrementando com essas reflexões nosso processo de humanização?

Cabe lembrar: TEATRO , em grego, significa “O LUGAR (de) ONDE (melhor) SE VÊ”...

Ártemis: a da alteridade, da curotrofia, da piedade, do senso de justiça, do poder de transitar da “infância” para a “maturidade”. Uma possibilidade de tradução da tradição. Do urobórico não autofágico.

A (re) inclusão do significado deste segmento do tripé mitológico ainda tão próximo de nossa estética, e também de nossa ética, reconstituiria a “máscara-de-fato-completa” (ou hipercomplexa, como prefere Edgar Morin) fruto de reflexão, que é montada “por dentro”, (na intimidade, uterinamente) não mais para “ocultar” o que quer que seja, mas como um renovado ritualístico recurso de linguagem, de diálogo sobre dores, críticas e conseqüente riso; o riso daquele que cria porque aprendeu a sair do “ou-isso-ou-aquilo”, que aprendeu a rir SIMULTANEAMENTE se apiedando do Outro; daí ser riso compartilhável.

Como uma trágico-clown entidade: que discursa e chora, que age e gargalha, que sente e abraça a si mesmo e ao Outro, para a vida valer a pena.

A utopia plausível da Estética “casada” com a Ética.

Hannah Arendt diz que frente às dualidades “necessidade X liberdade”, e/ou “futilidade X realização”, e/ou “vergonha X honra, que por sua vez transitariam na dualidade maior “Íntimo” X “Público, surge uma contraposição: o que chamamos “Bondade”, que – embora habite apenas o privado (pois, se é tornada pública já não é mais Bondade!) “chacoalha” as dualidades onde quer que elas estejam.

Bondade, que teria um poder de resistência ao conservadorismo imensurável.

Para sua “mitologia particular”, como católica por opção burocrática (e compreensíveis motivos históricos), Hannah escolhe, para representar a Bondade, a figura de Jesus.

Se é que esta "pessoa" (Jesus) existiu, quem sabe seu maior avanço revolucionário fosse portar, avant la lettre, a dupla máscara clowntrágica, já devidamente “costurada” pela curotrofia artemisiana?

Se é apenas mais um belo Mito, é posterior aos de Apolo / Dionísio / Ártemis, afinal.

Urge que TODOS os seres em processo de humanização assumam sua agora hipercomplexa / tripla e simultânea face (máscara) clowntrágica para:

- Dar passagem à emergência dos tais novos atores sociais; (o novo ator social que espero é o Ser Nascido com Sexo Masculino, como já justifiquei em textos anteriores);

- Dar passagem a uma Ética casada com a Estética, "casamento" realizado por um TERCEIRO ELEMENTO dialógico, que provoque uma "respiração" de melhor qualidade no espaço ainda não nominado ENTRE o Mundo Intimo e o Mundo Público, e dentro de cada um desses universos humanos.


Para os seres em processo de humanização do sexo masculino a urgência pode significar a sobrevivência de seus (de nossos!) descendentes, para que sejamos capazes de “atravessar as fronteiras político culturais”, que têm não só distanciado os homens das mulheres, mas (falocrática, homofóbica, fetichista, reificada, e arriscadamente) os homens de seus iguais.


Ilustração: FRANK STELLA - Squared with Colored Grounds Series -1980


sexta-feira, 13 de março de 2009

Por favor aguardem, EM BREVE :



O terceiro prometido texto (da série de três, mesmo), IDENTIDADE E ESPAÇO:

"O PLAUSÍVEL CASAMENTO DA ÉTICA COM A ESTÉTICA - IDENTIDADE, ESPAÇO, MASCULINIDADES".

Vai demorar um pouquinho, pois é mais um exercício para meu possível futuro livro, logo um daqueles textos inevitavelmente mais longos do que é o comum em BLOGs.

Os dois primeiros se referiram a
1. Economias Plausíveis;
2.Políticas Plausíveis.
(Mantendo senpre a referência a Identidade e Masculinidades, claro, ao pensar cada assunto).
Se não leu quando publicados, procure um pouco mais abaixo, que você acha. Xô preguiça! Leia um pedaço cada dia, pronto!...

Obrigada, ATÉ LÁ!

Ilustração: Akiyoshi Kitaoka - Sciam - 2003

sábado, 7 de março de 2009

DA DIGNIDADE DE SER EXCOMUNGADO